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O Sionismo ensinado nos espaços judaicos brasileiros e por que olhá-lo criticamente

Por Tamara Crespin e Fernanda Vaidergorn
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O que acontece quando a educação sionista providenciada por instituições da comunidade judaica não acompanha críticas e questionamentos maduros sobre o Estado de Israel? Pode-se intuir que a Israel imaginária1  seja bastante sedutora, porém carrega em si também a armadilha da idealização, atribuindo para si a perspectiva dominante, seja ela autoritária, extremista, humanitária ou progressista, e tornando seus desdobramentos perigosos para todos os envolvidos.

Um caso emblemático, ocorrido entre a segunda e a terceira semana de abril de 2018, nos serve de exemplo para tal conjuntura e afirmações. Estudantes da Barnard College (universidade feminina sediada em Nova Iorque, EUA) se posicionaram a respeito do movimento de Boicote, Desdesenvolvestimento e Sanções contra o Estado de Israel (BDS), com uma vitória de 64% de votos a favor e 36% votos contra. Qual seria a contradição envolvida nesse acontecimento que o difere de tantas outras votações universitárias que favorecem o movimento BDS? 

A agência Hillel Internacional nos informa que a Barnard College, segundo o censo americano, é a universidade não judaica com maior índice de estudantes judeus no país. Evidenciando em números: nesse mesmo ano, dentre os 2.500 estudantes ativos, 850 deles eram pessoas judias, ou seja, em torno de ⅓ ou 34% do total universitário possuem vínculos com o judaísmo2 .

Sendo assim, é bastante contraintuitivo que jovens estudantes boicotem um espaço destinado a cultivar sua própria identidade. No entanto, é bastante compreensível que isso se dê quando essa identidade sionista se estigmatiza em debates rasos, reduzindo-se a respostas conclusivas que pouco se renovam, estando à mercê de um discurso pouco responsável com a heterogeinedade da comunidade judaica e a complexidade das disputas territoriais dentro do Estado de Israel.

Acreditamos que o caso da Barnard College explicita um tensionamento muito latente à questão judaica na contemporaneidade e é a partir dele que trazemos o título desse ensaio. Uma pergunta, um início de debate.

No contexto brasileiro, a Israel imaginária não se restringe aos evangélicos neopentecostais e/ou aqueles agentes do judeu imaginário. A Israel imaginária expressa-se todos os dias em escolas e colégios judaicos, em movimentos juvenis sionistas, em centros culturais judaicos, e em todos aqueles espaços onde o Estado de Israel é apresentado acriticamente. Ou seja, a Israel imaginária ocorre mais perto e dentro da comunidade do que se imagina.

Sua legitimação é facilmente justificada, basta consagrá-lo como possível exemplo único de democracia no Oriente Médio e seu disparado desenvolvimento tecnológico. Claro, muitas dessas informações não deixam de ser verdadeiras, mas como estas mesmas afirmações conseguem rebater e dialogar com perguntas tais quais sua postura questionável diante do povo palestino? Sendo assim, se faz importante ressaltar que a suposta posição progressista do Estado de Israel não o exclui de suas contradições estruturais.

Pode-se pensar de primeira mão que a resposta observada há 3 anos venha a se tornar o cotidiano dos espaços universitários. Dessa forma, se faz necessário agir no agora, mobilizando espaços sionistas da comunidade judaica para que tenhamos uma relação madura e honesta com o Estado de Israel, que reconheçamos suas fragilidades, seus defeitos e suas problemáticas. Que o questionemos, mas, sobretudo, que saibamos defendê-lo de forma concisa, consciente e crítica.

Para que isso ocorra, os espaços judaicos sionistas precisam buscar uma identidade judaica que caminhe para além de justificativas rasas sustentadas em discursos comuns, vinculados a uma história trágica constantemente acorrentada à imutabilidade do passado. É necessário afirmar narrativas celebrantes, que confiem nas concepções contemporâneas e férteis do presente para a condição judaica no mundo do agora. Sendo assim possível que jovens judeus, habitantes da diáspora, aprofundem as raízes de suas identidades judaicas e consequentemente com a Terra de Israel, ultrapassando os sentimentos limitantes e traumáticos da Shoá.

Faz-se necessário que os espaços educativos, movimentos juvenis e demais instituições encarem sua responsabilidade de abarcar uma identidade judaica plural. E que saibam ultrapassar uma visão moralizante e infantilizada sobre o Estado de Israel que vá além de um propagandismo barato da Jerusalém histórica e da exemplar e moderna Tel Aviv. Esses mesmos discursos também devem ser direcionados às problemáticas na Faixa de Gaza, à presença de um Estado extremamente militarizado e suas complexas disputas territoriais.

De forma não conclusiva, mas buscando responder as perguntas apresentadas no início deste ensaio: Sim, é exatamente isso que acontece quando a educação sionista da comunidade judaica se esquiva de debates e críticas; ela se torna frágil e moldável, mas sobretudo permeável. Como é possível que a própria comunidade judaica permita que jovens judeus, frequentadores de movimentos juvenis e escolas judaicas sionistas, pouco consigam dialogar com as a palavras ‘palestino’, ‘Faixa de Gaza’ e ‘Cisjordânia’’?

É preciso ir além, mais a fundo no problema. É urgente, nos espaços sionistas judaicos brasileiros, debates que tensionem verdadeiramente as problemáticas da Faixa de Gaza, do militarismo excessivo, dos assentamentos, do assassinato de Yitzhak Rabin. É urgente o debate sobre a questão palestina. 

Para que assim, conscientemente, possamos debater o sionismo. Possamos enxergá-lo enquanto questão fértil, a ser pensada, elaborada e apropriada. Que possa se entrelaçar com as raízes judaicas profundas, antigas, contemporâneas e pessoais. Que afirme e defenda a criação do Estado de Israel, em 1948, mas que saiba também atualizar seus propósitos com o contexto atual, fazendo jus às demandas do sionismo diaspórico. E compreenda-se, antes de mais nada, que tudo isso é também falar sobre a questão judaica. 

[1] O termo Israel imaginária tem sido usado com frequência para explicar as constantes aparições de símbolos judaicos, muitos aos quais vinculados ao Estado de Israel, em manifestações da extrema direita brasileira. O conceito consiste em uma estagnação idealizada do Estado judaico, descartando a Israel moderna e afundá-la no conhecido slogan ‘conservador nos costumes e liberal na economia.’ Antes de mais nada, o termo Israel imaginária não apenas ocorre em grupos de interesse sociais e políticos no Brasil, a idealização do Estado de Israel ocorre mais dentro da comunidade do que se imagina.

[2] Os dados trazidos para o debate nos servem enquanto justificativa argumentativa, por isso, não pretende-se aprofundar as características específicas desse evento da Bernard Collage. Mais do que questionar o que representaria essa possível coletividade judaica e abordá-la enquanto bloco, esse ensaio busca dialogar com os pormenores (ou seja, a educação sionista judaica) desencadeados pelo evento.


Tamara Crespin é judia e sionista. Estudante de Arquitetura e Urbanismo pela Associação Escola da Cidade. Possui produções vinculadas aos campos do design e das artes plásticas e pesquisas em arquitetura, cultura e tradição judaica e suas manifestações no cenário atual.

Fernanda Vaidergorn é judia e estudante de arquitetura e urbanismo na Associação Escola da Cidade, em São Paulo. Atualmente, desenvolve uma formação sanduíche na faculdade de arquitetura de Paris - ENSAP La Villette. Trabalha em suas pesquisas e investigações através das intersecções de arte e arquitetura, fotografia e escrita.

Os textos dos nossos colaboradores não refletem, necessariamente, as posições do instituto.

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