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Quem são os negacionistas da vacina em Israel e por que eles importam tanto?

Por Daniela Kresch | Categoria: Noticias
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TEL AVIV – Israel, a moderna Startup Nation, também tem seus negacionistas da vacina. O país tem 9,3 milhões de habitantes, sendo que 7,4 milhões deles estão acima dos 12 anos e podem receber a vacina no momento em que quiserem. É só marcar hora em um dos 4 kupot cholim (planos de saúde universal) e ir, de graça, receber o imunizante da Pfizer. Mas, apesar da facilidade e da disponibilidade, mais de 1,1 milhão de israelenses elegíveis não foram receber nem a primeira dose, até agora. Isso significa 15% dos que podem se vacinar e 12% da população total do país.

Quem são eles e por que colocam as suas vidas e as vidas de outros em perigo? Eles fazem parte das principais minorias do país (árabes, russos, ultraortodoxos e etíopes), além dos jovens em geral e dos negacionistas-raíz (anti-vaxers em geral). Já-já explico as motivações de cada um desses grupos, de acordo com reportagens recentes da imprensa local.

Até um mês atrás, Israel vivia uma espécie de paraíso em comparação a países como o Brasil. Os níveis de infecção, internações e mortes estavam baixíssimos, com zero falecimentos e apenas 20 pessoas, em todo o país, internadas em estado grave por causa da Covid-19. A economia reabriu geral e as máscaras foram abolidas. Mas, desde meados de julho, com a chegada da variante Delta e da quarta onda de Covid-19, tudo mudou e os números sobem ladeira acima. Agora, são mais de 5 mil infectados por dia, 160 mortos só desde o começo de agosto e quase 430 pessoas internadas em estado grave. 

Segundo estimativas do próprio governo, se tudo continuar assim, em setembro haverá 2.400 pessoas em estado grave. Levando-se em consideração que um quarto dos internados vem a falecer, pode ser que Israel tenha 600 mortos em algumas semanas. Até agora, desde o começo da pandemia, foram 6,593 (dados desta quinta-feira, 12 de agosto). Diante de tudo isso, a expectativa é que o governo imponha um quarto lockdown em setembro, mesmo que Israel tenha começado a vacinar os maiores de 60 anos com a terceira dose, há uns 10 dias.

Antes do advento da variante Delta, os especialistas diziam que bastavam cerca de 60% de vacinados para que Israel alcançasse a imunidade coletiva. Algo como 5,6 milhões de pessoas. No momento, Israel tem 5,4 milhões de imunizados com as duas doses: 59%. Isso bastava, quando se tratava do vírus original (Alfa) e das variantes Beta e Gama. Mas a Delta mudou tudo. É muito mais contagiosa. Agora, os especialistas dizem que será necessário uma imunização de 90% da população para alcançar a imunidade coletiva, o que incluirá crianças com menos de 12 anos também (quando isso for aprovado).

Então, se antes ninguém se importava com os negacionistas, os amantes de conspirações e fake news e os apenas irresponsáveis ou ignorantes, agora tudo mudou. É claro que há quem não pode mesmo se vacinar por questões de saúde. Mas, e os outros que insistem em colocar a sociedade toda em perigo?  

Segundo reportagem do Canal 12 da TV israelense, eles fazem parte dos seguintes grupos:

1) Árabes-israelenses, principalmente os beduínos do Sul do país, por desconfiança nas autoridades, desconexão com o país e tendência a acreditar nas fake news que circulam pelo mundo árabe. Metade dos internados e entubados em hospitais, atualmente, é árabe. Mais de 570 mil árabes-israelenses com mais de 12 anos não se vacinaram, metade do total dos não imunizados. 

2) Haredim (ultraortodoxos), que tendem a achar que já adoeceram ou que seu destino está nas mãos de Deus, não da ciência. Nas primeiras ondas de Covid, esse grupo foi o mais problemático, mas seus líderes entraram em acordo com autoridades de saúde e eles passaram a colaborar mais. Pode ser que isso volte a acontecer, agora.

3) Imigrantes da ex-URSS, que tendem a acreditar em fake news e teorias conspiratórias que circulam em redes sociais russas e só tomariam a vacina russa (Sputnik V). Em geral, os imigrantes mais antigos estão mais inseridos na sociedade, mas os recém-chegados assistem canais de TV e ouvem rádios da Rússia, sendo influenciados por uma cultura conspiracionista que existe entre os russos.

4) Imigrantes da Etiópia, que desconfiam das autoridades médicas por causa de como foram tratados quando chegaram ao país, principalmente a ideia de que houve tratamentos de esterilização em massa de mulheres etíopes. Afirmam ser vistos como cidadãos de segunda classe e que não há motivos para acreditar no establishment, agora.

5) Jovens, que se pensam invencíveis e que, se adoecerem, terão apenas sintomas leves. No momento, só 10% dos israelenses com mais de 50 anos não se vacinaram. Mas quando se olha para quem tem menos de 50 anos, os percentuais explodem. Entre 20 e 49 anos, 25% não se vacinaram. E entre 12 a 19 anos, 58% não foram se imunizar.

6) Anti-vaxxers e “esotéricos”, em geral, que não acreditam em vacinas em geral, creem em conspirações como a presença de chips nas vacinas e a intenção chinesa de dominar o mundo ou que esnobam e repelem a medicina moderna. A imprensa israelense está falando deles só agora, com reportagens e identificação dos principais distribuidores de fake news na internet. Até porque esses grupos – que são marginais, pequenos – estão fazendo muito barulho em protestos em frente as casas de autoridades de saúde.

Fazem parte desse último grupo médicos que perderam o diploma por charlatanismo, representantes de cultos como Cientologia e outras figuras. Infelizmente, o cantor e compositor Matti Caspi, tão querido entre a comunidade brasileira em Israel por amar a música brasileira, é um deles. Depois do começo da pandemia, ele foi morar na Itália e se recusa a voltar a Israel antes que acabem todas as instruções de distanciamento social e uso de máscaras. Como o Eric Clapton, ele considera a pandemia um engodo.

Só agora, um ano e meio depois do começo da pandemia, Israel começa a lidar com essas populações, que até agora não eram tão problemáticas. Mas com a variante Delta, ficou claro que a sociedade como um todo precisa de solidariedade para enfrentar o vírus. Será que Israel será um exemplo de sucesso ou de fracasso? E mais: é possível o sucesso quando a maior parte dos países do mundo também lida com grupos parecidos? Veremos.

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