Nós nos negamos a sair da História
22 jun 17

Nós nos negamos a sair da História

Jayme Fucs Bar

A votação da UNESCO sobre a relação do Povo de Israel com Jerusalém me levou a fazer aquela velha pergunta, sem ter uma resposta: – Por que esse ódio tão extravasado contra Israel e o povo judeu? – Meu questionamento é carregado de sentimentos e remorsos, onde Cada judeu é um livro aberto, uma saga de 3200 anos vagando no deserto da história da Humanidade. “Judaísmo é uma religião para adultos” assim bem definiu Emanuel Levinas. Ser judeu é ter uma maturidade emocional e psíquica para continuar a existir através da História. – O que fizemos para que tanto nos odeiem? – Somente judeus fazem esse tipo de pergunta. Essa é uma pergunta puramente judaica, para a qual jamais encontramos as respostas!

O que nos ajuda é saber que não estamos sozinhos nesse mundo, e nem todos no mundo nos odeiam! A prova disso foi ver de imediato uma postagem de uma amiga não judia, ao postar em sua página do Facebook em letras grandes: “Parem de questionar a legitimidade do Estado de Israel!” Me deu uma alegria imensa saber que igual a ela existem milhões de pessoas nesse mundo que reagem dessa forma, e isso me fez lembrar um grande amigo, que conheci no princípio da década de oitenta, o Carlinhos. Éramos estudantes de História e ativistas no Movimento Estudantil na Santa Úrsula, no RJ, no período da ditadura militar. Carlinhos, de família de mestiços, índio e negro e eu, judeu, compartilhávamos uma mesma casa nas Laranjeiras e esse espaço nos dava a liberdade de praticar preciosas discussões filosóficas e políticas noites a dentro. Falávamos sobre tudo, mas, principalmente, sobre nossas ascendências e raízes culturais.

Carlinhos me contou histórias amargas de como seus bisavós foram expulsos de suas terras na região de Angra dos Reis, e sempre me impressionava por seu raciocínio claro e complexo, e por suas palavras, sempre diretas e precisas.

Conversávamos muito sobre nossas dores, e os preconceitos que vivíamos, eu por ser judeu e ele, por ser mestiço! Recordo-me que numa dessas longas conversas, Carlinhos uma vez me disse: – Jayminho, sabe por que o mundo odeia os judeus e o Estado de Israel? – Procurei dar uma resposta, mas me enrolei todo e não consegui. Carlinhos, então, me interrompeu e me disse uma frase que veio como uma flecha disparada direto no meu coração: – É que vocês se negam a desaparecer na História da Humanidade! 

Essa frase do Carlinhos me acompanha por toda a minha vida!

Jamais consegui achar as palavras para entender esse fenômeno que parte da sociedade humana carrega consigo em muitas e muitas gerações, esse ódio contra os judeus e o Estado de Israel, mas com o tempo e os anos as palavras do Carlinhos fazem cada vez mais sentido dentro dessa triste realidade, de como o mundo se apresenta frente aos judeus e o Estado de Israel!

Nego-me a crer que humanidade não possa se curar dessa doença crônica que é o ódio contra os judeus, mas Carlinhos, naquela noite, tentou me ensinar o que somente compreendo hoje, que o grande desejo de muitas nações é que os judeus deveriam ser uma página a mais nos livros de História Antiga, deveriam ser uma simples página amarelada e empoeirada nas prateleiras dos povos desaparecidos da História da humanidade, como os assírios, caldeus,  fenícios e astecas…

Num mundo de caos, corrupção, desordem e medo, há algo que os une e ameniza as tensões do mundo e de seus dirigentes: o anseio de demonizar e deslegitimar o Estado Judeu! Por que o mundo está sempre colocando em foco os judeus e o Estado de Israel? Carlinhos rapidamente iria me responder: – É porque vocês se negam a desaparecer da História da Humanidade – e é por isso que é possível nesse mundo até mesmo tapar o sol com a peneira! Tantos problemas existentes em nosso mundo, mas a prioridade é discutir e tomar uma resolução “Se os judeus têm ou não relação histórica com Jerusalém”. Mais uma vez me faltam palavras para definir essa situação: trágica? absurda? ridícula? Não sei! Faltam-me as palavras! É como se o mundo parasse para discutir uma “grande questão”: Se a Terra é redonda ou não! E votasse em maioria que a Terra é quadrada! Não tenho outra forma de entender esse teatro do absurdo humano, mas parece que mundo precisa de um “bode expiatório” para não enfrentar e tomar resoluções imediatas que poderiam salvar as vidas de milhares ou talvez milhões de pessoas no nosso planeta. O tema Estado de Israel e o conflito palestino é uma prioridade num mundo que se nega a enfrentar outros conflitos como o genocídio na Síria e no Iraque, o fundamentalismo religioso no mundo, as atrocidades entre xiitas e sunitas, a fome e a miséria na África, as atrocidades cometidas contra as nações indígenas na América Latina, a ameaça da Coréia do Norte, o direito legitimo à autodeterminação do povo curdo, 46 milhões sem direito ao seu estado nacional, etc.
Mas o bom é que existe o conflito entre Israel e os palestinos, pois isso ajuda esse mundo de hipócritas a se unirem num consenso comum: o ódio ao Estado Judeu.
Sempre que me encontro com o Carlinhos no Brasil ele me diz num tom de ironia – Oh, meu companheiro, está preocupado com quê? – Eu sempre respondo: – Não há nada de novo sob o sol. – Ele ri e me responde: – Há sim, camarada, gostem ou não, Israel é uma realidade e eu estou do seu lado! – Como é bom ouvir essas palavras de um não judeu, nesse mundo tão conflitante e ameaçador! As palavras do Carlinhos, meu amigo, irmão, camarada, me trazem uma certa esperança: a de saber que não estamos sozinhos nesse mundo.

Obrigado, amigos não judeus! Israel existe por vocês existirem!! 

(Revisão: Judite Orensztajn)

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