Declaração Balfour, 100
02 nov 17

Declaração Balfour, 100

Michel Gherman

Há exatos 100 anos era publicada a Declaração Balfour. Em tal documento, o governo de Sua Majestade Britânica afirmava ver com “simpatia” o projeto de “Criação de um Lar Nacional Judaico na Palestina”, desde que este não prejudicasse os direitos dos judeus de fora de Israel e de “populações não judaicas na Palestina”. 

Este era o primeiro documento publicado por uma potência internacional que vinculava as aspirações nacionais judaicas com direitos territoriais reclamados pelo movimento sionista, ou seja, com direitos nacionais ao território da Palestina, ou a Eretz Israel, como os judeus a chamavam.

Objetivamente, entretanto, poucos documentos poderiam ser mais vagos e garantir menos do que a Declaração Balfour. O governo britânico afirmava ter “simpatia” (sem se comprometer objetivamente) em relação ao estabelecimento de um “Lar Nacional” (o que significa? Não parecia ser um “Estado”), desde que isso não fosse contraditório com os outros interesses em jogo na região (isso era possível?). 

Assim, tal qual outras atitudes do governo britânico no Oriente Médio no mesmo período (importante lembrar acordo Hussein-Macmahon), a Declaração Balfour atendia muito mais a interesses imperialistas britânicos do que a demandas práticas do movimento sionista. Nesse contexto, a Declaração Balfour representou mais uma vitória simbólica do sionismo do que qualquer avanço imediato da agenda do nacionalismo judaico na Palestina.

No campo simbólico, o documento resgata o Movimento Sionista de amargas derrotas protagonizadas por seu idealizador, Theodor Herzl. Se no período Herzliano muitas foram as tentativas de apoio europeu ao projeto sionista de colonização na Palestina, é correto afirmar que muitas também foram as derrotas. 

O líder sionista não conseguiu nenhum compromisso perene entre qualquer país europeu. Ao contrário, recebeu apenas respostas negativas e viu um enfraquecimento gradual de seu status de liderança. Somente após a morte, com a ascensão de Chaim Weizmann, que o sionismo entra no mapa político da Europa. Foi Weizmann (sucessor e rival de Herzl) que consegue negociar os termos do reconhecimento britânico às pretensões do nacionalismo judaico.

Para a comunidade judaica, a Declaração Balfour trouxe a impressão de que as portas para o Estado Judeu estavam abertas. No mundo inteiro houve comemorações e festas, pois pensava-se que a criação do Estado de Israel estava consolidada, que era questão de dias para que um pátria judaica independente fosse declarada.

O Estado Judeu, entretanto, só foi criado 31 anos depois, após a Segunda Guerra Mundial e com o reconhecimento internacional da destruição do judaísmo europeu. A percepção de que a Declaração Balfour abriu o caminho para a criação de Israel na Palestina é reduto de uma perspectiva linear e simplificadora da história.

É, de fato, mais uma vitória, tardia a anacrônica, do Imperialismo Britânico.

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