Karina Calandrin: discutir “quem merece mais” a posse da cidade é deveras superficial
07 dez 17

Karina Calandrin: discutir “quem merece mais” a posse da cidade é deveras superficial

IBI

Com objetivo de enriquecer o debate e honrar seu espaço democrático, o IBI convidou colaboradores a responderem perguntas sobre a transferência da embaixada americana para Jerusalém e o futuro da região. Leia a análise da cientista política Karina Calandrin, Doutoranda e Mestre Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP – UNICAMP – PUC-SP)

Quais serão as consequências (simbólicas e práticas) da decisão de Donald Trump de mudar a embaixada americana para Jerusalém?

A decisão possui mais efeitos simbólicos do que práticos.
Na prática, haverá a mudança física da embaixada, mas o que é mais significativo é o simbolismo da decisão. Os Estados Unidos como o primeiro país a ter uma embaixada em Jerusalém como capital de Israel corrobora e da força para movimentos internos israelenses que reivindicam a cidade como sua capital indivisível. Do ponto de vista internacional, de um lado, pode suscitar que outros Estados sigam a decisão, mesmo sendo improvável; de outro lado pode levar a retaliações graves na arena multilateral. No que tange o conflito com a Palestina poderemos observar protestos e ondas de violência como forma de represália. 

Há quem diga que esse movimento dos EUA coloca uma pá de cal em negociações de paz que poderiam acontecer. Seria um passo atrás na solução de dois estados?

Definitivamente sim. O status de Jerusalém é uma das questões mais sensíveis relativas ao conflito Israel-Palestina e a posição dos Estados Unidos dificulta o progresso das negociações de paz, uma vez que torna mais difícil cessões neste âmbito.

Acredita que essa mudança pode dar início a uma nova onda de violência entre israelenses e palestinos?

Sim. A mudança da embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém representa o aceite de parte das reivindicações israelenses referentes ao território, reivindicações existentes também do lado palestino e que não deixarão de existir a partir da decisão de Donald Trump.

Há quem afirme que essa decisão é apenas um reconhecimento histórico. Você concorda?

Não. Jerusalém é igualmente sagrada para as três maiores religiões monoteístas do mundo, discutir “quem merece mais” a posse da cidade é deveras superficial. Tanto o judaísmo, cristianismo, quanto o islamismo possuem ligações diretas com a cidade de Jerusalém e essas conexões não deveriam ser descreditadas por decisões políticas (incluindo aqui a última resolução da UNESCO que ignorou a ligação de Jerusalém com os judeus, igualmente equivocada).

Artigos Relacionados


30 mil mulheres israelenses e palestinas marcham pela paz

Calendar icon 9 de outubro de 2017

Organizada pelo grupo Women Wage Peace, passeata chegou a Jerusalém depois de duas semanas de protestos

Arrow right icon Leia mais

Playlist da semana: Músicas israelenses sobre viagens

Calendar icon 16 de julho de 2020

Curadoria de Caroline Beraja

Arrow right icon Leia mais

Israel e o novo governo norte-americano

Calendar icon 9 de março de 2017

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a guinada à direita logo no início de seu governo, foram vistos em Israel como uma indicação do alinhamento potencial entre os dois governos. No encontro promovido pelo Instituto de Estudos sobre Segurança Nacional (INSS) era nítida a percepção por parte dos ministros israelenses da “carta […]

Arrow right icon Leia mais