Como falar de Auschwitz?
Rafael KruchinIlustração: Marcos Rothstein
Algumas perguntas me ocupavam antes de visitar os campos de concentração com a viagem Marcha da Vida. Por que conservar os campos ao invés de acabar com tudo o que foi construído pelos nazistas? Mais do que isso, qual o sentido dos programas que levam milhares de jovens de todo o mundo, há anos, aos campos de concentração? Muitos outros questionamentos me ocupavam antes de ir, quando eu ainda estava um pouco receoso quanto à minha reação, ao impacto e ao sentido de tudo isso. Mas muitas dessas inquietações se diluíram quando voltei e passaram a existir enquanto reflexões.
Fui a Auschwitz e voltei com uma certeza: não podemos – ou não devemos – nos distanciar do problema representado pela Shoah relegando-a ao impensável.
Frequentemente, o massacre dos judeus na segunda guerra mundial é concebido como inimaginável e indizível. Por ser um episódio que ultrapassa o pensamento jurídico existente, toda a noção de injustiça, que não pode ser testemunhado plenamente ou sequer expressado em palavras, é um assunto difícil de lidar, ainda mais quando se trata de ir aos campos fisicamente. Auschwitz é o ponto em que nosso pensamento fracassa e, justamente por conta desse fracasso, dessa natureza do não dizível, do não-testemunhável, a não-língua que tenta falar, é que concluí que devemos nos indagar. Como já disse Hannah Arendt, é no ponto de frustração da consciência que mais devemos persistir: talvez esta seja a parte essencial, a lacuna.
Acredito que devemos manter os olhos abertos a esse status de inenarrável dado à Shoah. Falar nesses termos talvez não seja aproximar-se de Auschwitz. Ao tomar as câmaras de gás por inimagináveis e indizíveis, empurramos a questão para uma zona já definida pelo filósofo Giorgio Agamben como uma zona de adoração mística, de uma observância silenciosa que se faz como quando adora-se a um Deus. Passa a ser algo que, por conta do fracasso da consciência, não pode ser comentado integralmente, imaginado e que, ainda pior, sequer podemos ver.
Eis o problema. Ao conferir ao crime sem precedentes o status de algo que não pode ser falado, pensado e entendido, repete-se de forma irrefletida o arcanum nazista: anular a memória. O resultado disso é assaz inquietante e pode trazer uma funesta confusão ao tema da Shoah. Para os nazistas, o sucesso de sua iniciativa se daria pelo apagamento silencioso dos judeus, não queriam ser reconhecidos como assassinos, queriam que tudo isso fosse ofuscado. A ideia de solução final era o desaparecimento dos seres sem resto nem memória: “não se pronunciará o kaddish”, disse Goebbels em discurso. A tarefa era não deixar vestígios, era tornar Auschwitz inimaginável. Por isso que, ao final da guerra, com a derrota militar dos nazistas, os próprios SS tentaram apagar os traços da iniciativa nazista. Em 1944/1945 queimaram crematórios, deram fim ao campo de Treblinka e tentaram desaparecer com os utensílios utilizados para o crime. Tentativas para deixar tudo sem imagens ou palavras.
A ida aos campos, nesse sentido, apareceu para mim como um movimento para manter as poucas amostras de uma realidade complexa, que integralmente é mais cruel e atroz do que podemos revelar. O aprendizado, ao caminhar por entre as câmaras de gás, me serviu não para sofrer mais por conta da minha proximidade com o tema e nem para sentir mais dor, mas sim para não silenciar o passado que não podemos e nem queremos reanimar. Na distância que separa o passado do presente, aquilo que não podemos testemunhar de dentro, também não pode ser enterrado na areia movediça.
Não podemos ocupar o lugar da testemunha, mas precisamos de um vestígio, que seja um fragmento de imagem, para que, doravante, não façamos como queriam os SS: arrancar-nos Auschwitz à imaginação.
E como Didi-Huberman já ressaltou:
Se o horror dos campos desafia a imaginação, quão necessária será, a partir desse momento, cada imagem arrancada a uma tal experiência!
É preciso saber ver nas imagens aquilo de que elas são sobreviventes.
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