Por que celebramos Pessach?
27 mar 18

Por que celebramos Pessach?

Bernardo Sorj

Por que celebramos Pessach? Porque a história bíblica de Moisés e o povo de Israel nós mostra um líder e seus seguidores convivendo com as contradições da liberdade humana. Pois somos todos impulsionados, ao mesmo tempo, pelo desejo de mudança e pelo medo do desconhecido, pelo amor e pela vontade de dominar, pelo egoísmo e pela solidariedade.

Celebramos Pessach para lembrar que a luta pela liberdade é o confronto constante entre o escravizador e o escravo que carregamos dentro de nós. O nosso faraó, que não aceita limites, a não ser os seus, e quer ser reconhecido,mas não reconhece o direito à dignidade e à autonomia dos outros. E a travessia do povo de Israel, que cada vez que se desespera perde a liberdade, que é a capacidade de enfrentar desafios, preferindo a segurança de um passado idealizado, do que apostar em um mundo novo a construir.

A narrativa bíblica do sofrimento imposto ao povo egípcio, nos tempos atuais, possui um sentido metafórico: o Faraó teve que sofrer para se abrir ao sofrimento dos outros. Porque o sofrimento e a dor podem nos aproximar da nossa comum humanidade, lembrando que todos nós somos frágeis e que devemos ser sensíveis aos sentimentos dos outros. E que reagindo contra o fanatismo de outros podemos nos transformar em fanáticos.

A história de Pessach deve ser lida como um marco em um processo que nunca termina. Processo que se inicia na história bíblica com um ato de liberdade, o de Eva, que desobedece uma ordem, e graças a sua curiosidade a aventura humana começa. Aventura que continua no Monte Sinai, quando Moisés apresenta uma constituição, já que não existe liberdade individual sem regras que assegurem a convivência e o respeito pela liberdade dos outros. E que continua na mensagem dos profetas, que afirmam que os ritos e as orações são irrelevantes, se os poderosos humilham e maltratam os mais fracos.

Pessach nos lembra que a liberdade é a luta diária para não deixar que o amor se transforme em posse, o cuidado do outro em controle, o afeto em simbiose, o medo em paralisia, a insegurança em agressividade e o sucesso em arrogância.

Como qualquer tradição cultural, o judaísmo pode ser usado para o bem e para o mal, para expandir a nossa sensibilidade ou a negar a humanidade do outro, como uma identidade que não teme o que é diferente ou como antolhos narcisistas que nos empobrecem. Por isso festejamos Pessach como uma celebração da rebeldia, da liberdade ao serviço do bem e de aproximação de todos aqueles que são perseguidos, humilhados, estigmatizados e sofrem injustiças, e agradecemos:

Shehechyanu, ve´quimanau ve’higuianu lazman haze.
Que vivemos, que existimos, que chegamos a este momento.

Artigos Relacionados


Israel nomeou a primeira juíza mulher para os tribunais islâmicos

Calendar icon 16 de maio de 2017

Hana Khatib, especialista em lei da Shari’a em Tamra, na Galileia, foi nomeada ontem, junto com quatro novos juízes

Arrow right icon Leia mais

Playlist da semana: Rock Israelense

Calendar icon 13 de agosto de 2019

Curadoria de Bruno Szlak

Arrow right icon Leia mais

E eu com isso? #130 Neonazismo no Brasil, com Adriana Dias

Calendar icon 27 de agosto de 2021

Arrow right icon Leia mais