“O atentado à Amia é uma ferida aberta”
18 jul 18

“O atentado à Amia é uma ferida aberta”

Hoje, 18/07, faz 24 anos que ocorreu o atentato à Amia – Associação Mutual Israelita Argentina. É considerado o maior ataque cometido contra a comunidade judaica na América Latina. O IBI entrevistou o jornalista Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires, sobre o caso. 

Confira os melhores trechos abaixo. 

O atentado à Amia completa 24 anos. Hoje quais são os pontos que foram esclarecidos e os que faltam esclarecer?
A cúpula do governo do Irã, em ação junto com o  Hezbollah, teriam feito este atentado no qual – isso é evidente – teria a colaboração com algum setor de dentro da Argentina. Foi um atentado de complexa realização. A dúvida é: quais foram esses setores de apoio? Há uma série de hipóteses. Uma delas é que teriam sido os militares denominados “cara pintadas”, que se posicionaram contra a democracia nos anos 80 e que possuem uma forte tradição antissemita. Ou poderia ter sido a polícia da província de Buenos Aires por motivos políticos. Ou uma hipótese mista. Iranianos, junto com o Hezbollah, junto com os cara pintadas, junto com a polícia de Buenos Aires. Tudo junto ou separado. Ainda falta esclarecer também o atentado à embaixada de Israel e o assassinato do promotor Alberto Nisman. 

Qual foi o motivo do atentado?
O motivo do atentado não está claro. Poderia ser uma vingança genérica do então presidente Carlos Menem relacionada ao seu alinhamento com os EUA. Menem era filho de sírios, então poderia ser uma vingança Síria contra Carlos Menem – ou estariam os sírios juntos no envolvimento do atentado. A Síria foi bastante investigada no começo, mas foi misteriosamente deixada de lado. O fato é que Menem havia prometido o fornecimento de um reator nuclear para a Síria, em 1989, quando foi candidato às eleições presidenciais e não cumpriu esse pacto. Também há uma suspeita de  vingança da Líbia, quando era governada por Muammar Kadafi, que havia dado fundos para Menem se eleger e que ficou sem o troco de favores. 

Por que Buenos Aires?
Porque de todos os potenciais alvos de comunidade judaica do planeta Buenos Aires tinha uma comunidade enorme –  a maior da América Latina – e porque a Argentina era um local fácil de fazer um atentado. A segurança naquela época era ruim. Não era difícil entrar no país ou subornar policiais, por exemplo. O atentado contra a Embaixada de Israel, em 1992, tinha sido feito com facilidade, o governo não tinha ido atrás de forma intensa para achar os culpados. Então, em 1994, aconteceu o atentado contra a Amia. Muitas testemunhas foram detidas e depois liberadas de forma misteriosa. Inclusive, um brasileiro, Wilson dos Santos, teria sido o primeiro a denunciar que aconteceria um atentado. Há uma série de coisas estranhas. Além disso, há vários eventos vinculados com o atentado. Um deles é a morte – em março de 1995 – do filho de Menem, Carlos Menem Jr. Há suspeitas de que seria uma vingança do mundo islâmico contra Menem. Ao mesmo tempo, o governo Menem estava envolvido em um caso de contrabando de armas para a Croácia e para o Equador, então não se sabe se isso poderia ser um fator adicional ao imbróglio do atentado. Em resumo, o que aconteceu: a embaixada de Israel não foi reconstruída naquele local. Desde aquela época está provisoriamente no andar de um prédio de escritórios de Buenos Aires. O prédio da Amia foi reconstruído com um fortíssimo sistema de segurança. E ficou a sensação de que o país tem um pouquinho mais de segurança.

Como vê o antissemitismo na Argentina hoje?
A Argentina teve, ao longo dos últimos 100 anos, muitos casos de antissemitismo. Houve o pogrom  de 1917, em Buenos Aires, onde 800 pessoas foram mortas. É um assunto que ficou meio esquecido, que coincidiu com uma greve geral. Ainda há uma repressão da comunidade judaica. Por outro lado, nesses 100 anos, grandes nomes da medicina, da cultura, do cinema e, inclusive, da política, são da comunidade judaica. Há uma presença enorme da comunidade na sociedade argentina. Uma comunidade que é  muito moderna, porque é laica. O setor ortodoxo, religioso, é muito pequeno. Vale lembrar que a maior comunidade latino-americana em Israel é a da Argentina: mais da metade são argentinos ou filhos e netos de argentinos. A maior figura talvez seja o maestro Daniel Barenboim. 

Como interpreta, depois de 24 anos, o simbolismo desse ataque?
O símbolo é o da impunidade, infelizmente. O caso não se resolveu, os culpados não foram presos. Estrangeiros e nacionais. É um assunto que está pendente. É uma ferida que continua aberta. E foi agravado com a morte do promotor Nisman, que também não foi resolvida. 

Atualmente, na Argentina, existe vontade política de resolver o caso?
Não dá essa sensação. A presidente anterior ignorava o assunto ou tentava impedir que as investigações avançassem. O presidente atual nunca parou para fazer um discurso sobre o assunto ou anunciou novos fundos para o comitê que investiga o caso. Nas datas da memória, o governo faz uma declaração, se mostra indignado, mas é mais palavreado do que medidas concretas. Um agravante é que existem muitas organizações criadas pelos parentes das vítimas que brigam entre si por razões ideológicas. Não há um grupo unido forte, mas vários grupos que brigam permanentemente. E o atraso faz com que muitos dos envolvidos jamais sejam presos – alguns podem até ter morrido, 24 anos depois.

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