De Washington a Brumadinho: Bibi e a nova diplomacia israelense
Eduardo Gabor
Quando Benjamin Netanyahu entrou no plenário da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos para se dirigir a uma sessão conjunta do Congresso no dia 3 de março de 2015, algo profundo mudou na política externa do Estado de Israel. O mesmo se viu na última semana, quando 130 soldados do Exército de Defesa de Israel desembarcaram no Brasil para buscar sobreviventes entre as vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho.
Ainda que falar ao povo americano e mobilizar tropas para missões de ajuda humanitária sejam rotinas para um Primeiro-Ministro de Israel, não é comum que se misture a estas ocasiões solenes o debate político interno de outro país. Em 2015, Bibi foi ao Congresso convidado por republicanos para criticar o então presidente democrata, Barack Obama, que estava às vésperas de assinar, ao lado de aliados europeus, além de russos e chineses, um acordo com o regime dos aiatolás do Irã. Já Yitzhak Rabin, abriu seu pronunciamento em Washington em 1976, trazendo “de Jerusalém” as saudações de seu povo pelo bicentenário da independência americana, uma comemoração que não distingue visões políticas. Aqui no Brasil, Netanyahu aproveita a oportunidade de mandar ajuda israelense a Minas Gerais para fortalecer sua parceria com Jair Bolsonaro, o presidente que se elegeu pregando sem pudores a eliminação de quem lhe fosse oposição.
É evidente que uma boa parte da má vontade com a missão humanitária israelense tem origem no profundo antissemitismo que ainda é enraizado na esquerda e que se ocupa de criticar Israel até quando seus soldados estão a salvar vítimas de soterramento. No entanto, há muito desconforto com o jogo de conveniências entre Bibi e Bolsonaro desde que o segundo foi eleito presidente do Brasil. Para o brasileiro, nada melhor do que se associar à força de combate israelense para agradar uma parcela de seu eleitorado, aquela do “bandido bom é bandido morto”, e ainda poder encantar outro público-chave, os evangélicos, para quem há algo de sagrado em Israel. Bibi, por sua vez, vê na adoração de Bolsonaro uma oportunidade de disfarçar a rápida corrosão do apoio a Israel entre as democracias liberais, algo que já se consolidou na Europa e que anda a avançar nos Estados Unidos. Ressalta-se, ainda, que, para Netanyahu, as oportunidades de se mostrar em afagos com líderes mundiais está quase restrita à emergência da extrema-direita, de Donald Trump ao autoritário Viktor Orban, o primeiro-ministro húngaro que propaga conspirações antissemitas para consolidar poder.
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Ao confundir os interesses estratégicos de Israel com sua atividade política, Netanyahu transforma políticas históricas de Estado em políticas de seu governo. Foram décadas de costuras diplomáticas para construir alianças com todos os espectros políticos nos Estados Unidos. Hoje, não é preciso ir muito longe para imaginar um governo democrata abertamente hostil a Israel. Da mesma forma, mobilizar tropas e recursos com rapidez impressionante para participar de uma missão humanitária faz Israel parecer, aos olhos de muitos brasileiros, um aliado da escalada reacionária em curso no Brasil. Enquanto, na política doméstica, diversos movimentos de Netanyahu colocam em xeque o caráter liberal da democracia em Israel, no campo externo, Bibi subverte pilares da diplomacia israelense para consolidar pelo mundo a sua visão de Israel como única.
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