Nossas caminhadas necessárias
10 maio 19

Nossas caminhadas necessárias

Ale Edelstein

“Eis o homem: jogando no sapato a culpa dos pés” . Essa frase da peça Esperando Godot, de Samuel Beckett sempre me fascinou.

Em outubro do ano passado parti para uma jornada de 40 dias pelo Oriente Médio. Iniciei na Turquia (onde nasceram meus avós), depois Jordânia, Israel e Palestina.

Uma das inspirações da viagem foi um projeto chamado Caminho de Abraão, que propõe refazer a caminhada de Abraão, desde que ele recebeu o chamado para “ir para ele mesmo” (Lech Lechá em hebraico). De acordo com o relato bíblico (Gênesis cap.12) Abraão deixa sua casa, a casa de seus pais, para ir de encontro ao desconhecido. O cara foi corajoso, diria eu que foi o primeiro personagem da história a sair da sua “zona de conforto” ! Ele teve a coragem de ouvir, algo tão difícil nos dias de hoje.. ouvir o chamado e ir. Determinação e fé em seu estado mais puro. 

Movido pela necessidade de tirar meus sapatos e ir “para mim mesmo”,  fui. Inspirado no Patriarca, no livro Tirando os Sapatos do Rabino Nilton Bonder e levando Amos Oz como companheiro, fui para respirar, aprender, entender, deixar-me surpreender, conectar-me com minhas origens. 

Caminhei por lugares novos e desconhecidos, conheci novas culturas e pessoas. Mas como diz Bonder, a realidade não é exatamente o que percebemos dentro de nossos sapatos. O verdadeiro caminho se faz das interações e não das escolhas e resoluções da vontade. 

Experimentei sair do controle e ter que lidar com os meus medos, meus pré conceitos. Tornei-me mais sensível e vulnerável, meus sapatos estavam há muito tempo moldados aos meus pés. 

O início na Turquia foi lento e comovente. Na Jordânia, o contato com a cultura árabe e a incrível experiência de uma caminhada pelo deserto. Sempre me senti atraído por aquela paisagem árida e amarela. Sem saber explicar ao certo o motivo, sinto-me bem na imensidão e no silêncio desértico. Foi a melhor forma de entrar em contato comigo mesmo, desafiando-me a caminhar, olhar para meus passos, para meus sapatos, para meus incômodos, ouvir as minhas vozes e os meus silêncios. Sim, tudo ao mesmo tempo!

De lá para Israel e Palestina, a conectar-me com as pessoas e suas histórias.  

Experiência difícil, sentida no corpo e no coração. Nunca a palavra “narrativa” ganhou tanto sentido para mim. 

Acredito fortemente que através do encontro geramos empatia. Por isso fiz questão de incluir no meu roteiro, o outro lado do muro. Para ter a experiência in loco, olho no olho, para além das discussões cada vez mais virtuais dos dias de hoje. 

Invoco a Oz, que traz a idéia e o desejo de um divórcio, imparcial e justo, entre Israel e Palestina. Sabemos que as separações nunca são fáceis, nem felizes, ainda mais quando as duas partes que se divorciam vão ficar no mesmo apartamento em definitivo, diz ele. 

Aprendi com o que vi que, colocar-se numa postura vitimizadora pouco colabora para a resolução deste ou de quaisquer conflitos.

Caminhar, com verdade e empatia, a partir do nosso interior, talvez ajude no acesso ao outro, ao adverso, e ao desconhecido.

William Uri, criador do projeto Caminho de Abraão diz que sonha ver como resultado das caminhadas, a transformação da hostilidade em hospitalidade. E do terrorismo em turismo.

Inshalá.
Axé.
Shalom.

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