Falta de compromisso com instituições liberais democráticas é marca da extrema direita, define Luís Edmundo de Moraes
Uma análise da atual conjuntura política no Brasil e no mundo marcou o encerramento da segunda edição do curso de formação “Israel e Palestina: entre conflitos e narrativas”, oferecido pelo IBI, no Rio de Janeiro, no último dia 17. Para o encerramento do curso, foi convidado o historiador Luís Edmundo de Moraes, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Autor de pesquisas ligadas ao crescimento de movimentos de extrema-direita e ligados ao negacionismo, o docente falou também a respeito do desafio de lidar com a crescente popularização de lideranças de extrema-direita, no contexto global.
Moraes atentou para dificuldade de encaixar estes partidos e organizações políticas dentro de uma única definição, uma vez que, apesar de serem facilmente perceptíveis como partes de um mesmo processo, estes movimentos possuem diferenças consideráveis em suas ideologias e prioridades, mudando de acordo com as realidades econômica, social e política de cada país. Esta falta de clareza também atrapalha a tentativa de nomear, de maneira mais específica, esses movimentos dentro do espectro político. “Seriam eles fascistas? De extrema-direita? Direita populista?”, indagou.
Contudo, observou o professor, há algo que aproxima estes políticos, seja na Europa, em Israel ou mesmo no Brasil: a falta de compromisso na manutenção das instituições liberais democráticas. “Às vezes, partidos e políticos entram nessas instituições democráticas, como a própria eleição, e ajudam a corroer por dentro as bases liberais”, descreveu. O professor usou como exemplo o governo de Viktor Orban, na Hungria.
Em seguida, Moraes passou a analisar mais especificamente o caso brasileiro. Ele rejeita a tese de que a crise econômica e a desilusão política em si levariam à ascendência de uma extrema-direita no poder, no país. Segundo sua leitura, essa desilusão pode explicar uma simpatia por discursos de ruptura com a ordem política existente, mas não necessariamente levaria à extrema-direita. Afinal, existem outras formas de ruptura política, à direita e à esquerda. Por essa razão, ele não considera que a ascensão do Bolsonarismo tenha raízes no Anti-petismo e na percepção de corrupção, tendo sido gestado ao longo dos últimos cinco ou seis anos.
Para explicar o atual momento político brasileiro, defendeu o professor, é necessário pensar no apagamento da memória dos crimes da ditadura, através da Lei da Anistia, em programas midiáticos sensacionalistas que glorificam a violência policial e no mercado editorial brasileiro, que durante os anos 1980 e 1990 foi inundado por livros de autores saudosistas da ditadura. “Estas mídias foram crescendo no cotidiano de maneira imperceptível, na mente de diversos círculos sociais diferentes, quase sem resistência por parte da esquerda e da direita liberal. Esse imaginário positivo da ditadura militar brasileira, portanto, foi facilmente adotado por movimentos contra o sistema político, nos últimos anos, encontrando na figura de Bolsonaro não um criador, mas um grande catalizador dessas ideias, antes já enraizadas na sociedade”.
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