Vi que em Israel tem movimento negro, tem movimento feminista, tem movimento LGBT, afirma o pastor Henrique Vieira

O pastor Henrique Vieira foi o entrevistado da 62ª edição do “E eu com isso?”, o podcast do IBI. No programa, apresentado por Anita Efraim e Amanda Hatzyrah, o líder religioso, que também é ator, escritor e poeta, abordou diversas questões sobre os evangélicos, os judeus e o Estado de Israel.
“O campo evangélico é plural, o campo evangélico é heterogêneo, ele não se constitui como um bloco coeso, monolítico. Inclusive, é importante lembrar que a base evangélica é majoritariamente popular, periférica, das favelas, feminina, negra. Portanto, tem uma complexidade no campo evangélico no Brasil e se essa complexidade não for lida, se ela não for bem interpretada, a gente acaba apenas reforçando o estereótipo que carrega preconceito e que inviabiliza o diálogo”, afirmou.
Vieira foi perguntado sobre a presença maciça de bandeiras de Israel nas manifestações de alguns grupos religiosos cristãos. “A relação judaísmo e cristianismo é uma relação necessária, no sentido de que o próprio cristianismo tem, nas suas referências, textos sagrados também para os judeus. A questão, na verdade, é como esses grupos interpretam esses textos”. Ele destaca o perigo das interpretações teológicas fundamentalistas. “Essa leitura da Bíblia, e que forja, e que fabrica essa imagem de Israel não é uma leitura que se reconhece como leitura, que se reconhece como interpretação, que se reconhece como um olhar ou uma narrativa, uma experiência. Não. Essa leitura é vista e vivida como única, como objetiva, imparcial, neutra ou, sendo mais direto, revelação de Deus. Ora, se é revelação de Deus, não tem questionamentos. Se é revelação de Deus, não tem outra possibilidade. Se é revelação de Deus, não precisa ouvir o que os outros têm a dizer, porque a verdade já está completamente dada. Então o fundamentalismo forja uma subjetividade indisponível ao diálogo”.
Por circular entre grupos progressistas, o pastor também abordou as percepções acerca de Israel em grupos de esquerda. “Eu acho que existe uma visão dentro da esquerda que, a partir de um pressuposto pertinente, de uma crítica que me parece razoável e correta, chega a uma conclusão completamente equivocada”.
Citando a viagem que fez ao país no início do ano, a convite do IBI, disse: “Eu estive lá, por exemplo, esse ano, e eu vi que tem movimento negro, tem movimento feminista, tem movimento LGBT, tem diversos setores da própria sociedade que criticam o próprio Estado de Israel na sua relação com os palestinos, que criticam a lógica da ocupação permanente sobre territórios palestinos. Eu vi que tem setores dentro da sociedade de Israel que defendem a existência do Estado palestino, dois estados para dois povos”.
Ainda sobre a experiência, destacou: “o que, para mim, foi muito importante foi ver que a sociedade israelense é plural, é diversa, é legítima e que tem conflitos, e que tem questões. E, conforme eu falei, eu sou negro. Então, ver ali movimento negro, panteras negras, eu achei isso admirável, eu achei isso fascinante. Acho que é isso que determinados setores da esquerda deveriam passar a entender. Que é uma sociedade legítima, que quer se organizar e que tem pontos de conflitos como toda e qualquer sociedade”.
Por fim, a entrevista abordou seu papel enquanto liderança religiosa em meio à pandemia do novo coronavírus oferecendo esperança e consolo às pessoas. “Parte da minha tarefa também é anunciar a necessidade de reinvenção da própria humanidade em termos econômicos, políticos, civilizatórios. A gente precisa decidir eticamente para um outro modelo de existência. Porque esse modelo colocado ele é insustentável, ele traz a morte como consequência”.
A entrevista na íntegra está disponível nas principais plataformas de podcast.
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