A bandeira de Israel nas manifestações de grupos bolsonaristas

Tem muita gente perguntando sobre os motivos da presença da bandeira do Estado de Israel nas manifestações de grupos bolsonaristas.
Correndo o risco da simplificação, é mais ou menos o seguinte:
O governo Bolsonaro é um ajuntamento conjuntural de diferentes setores da sociedade brasileira, organizados a partir de perspectivas (a) ideológicas, (b) econômicas, (c) religiosas e (d) militares.
A imagem de Israel cumpre uma função distinta para cada uma delas.
(a) Ideologicamente, Israel é visto como uma ponta de lança da “civilização judaico-cristã” e um muro de contenção frente a “barbárie” do Oriente Médio. Nesse imaginário, o país encarnaria os valores ocidentais, como uma “ilha de democracia liberal em meio às ditaduras”.
(b) Economicamente, Israel é percebido como um exemplo bem sucedido do livre-mercado, apesar do tamanho diminuto e da escassez dos recursos naturais. O sucesso do neoliberalismo é condensado na fórmula “start-up nation”.
(c) Religiosamente, o Estado de Israel é confundido com a Terra de Israel bíblica. Assim, o país é percebido como uma “terra santa”, de cujo destino depende a redenção de toda a humanidade.
(d) Militarmente, Israel figura como uma entidade forte, em permanente estado de guerra, e que sabe se defender dos seus inimigos. Por vezes, é visto como “um exército que possui um Estado”, em vez do contrário.
Por tudo isso, Israel acabou se tornando um símbolo caro ao bolsonarismo.
O curioso (e trágico) dessa história é que, em geral, progressistas tendem a concordar nessa percepção imaginária de Israel, embora com os sinais trocados: o que uns veem como positivo, outros veem como negativo.
Para funcionar, é claro que uma série de características do Estado de Israel “real” e que não combinam com a narrativa precisam ser varridas para debaixo do tapete.
Vale lembrar, por exemplo, que:
(a) A terceira maior força partidária de Israel é árabe – em sua maioria, muçulmanos. O Estado conta com uma sociedade civil organizada e forte, da qual fazem parte importantes grupos árabes.
(b) Apesar de a direita estar no poder há bastante tempo, vários setores são ainda vinculados à economia estatal e pública. Educação e saúde em Israel são quase completamente públicas.
(c) 80% da população de Israel se considera não religiosa e, apesar de um debate contundente sobre o lugar da religião no Estado, há conquistas importantes no campo dos costumes, como a lei do aborto e da união civil de pessoas do mesmo sexo.
(d) Apesar da importância do exército em Israel, a sociedade civil mantém bastante independência e, diga-se, militares da ativa não podem assumir cargos públicos.
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