Internação de líder palestino em Israel por COVID-19 agita redes sociais
23 out 20

Internação de líder palestino em Israel por COVID-19 agita redes sociais

Daniela Kresch
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu jantando com o membro do Parlamento Palestino, Dr. Saeb Erekat em Jerusalém. (Foto: GPO 17-04-2012)

TEL AVIV – O diplomata e negociador Saeb Erekat, de 65 anos, secretário-geral do Comitê Executivo da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e um dos braços-direitos do presidente Mahmoud Abbas, está internado desde domingo, dia 18 de outubro, em Israel. Ele está em estado crítico por causa da Covid-19. 

Um dos nomes mais conhecidos da liderança palestina (ele foi o principal negociador palestino dos Acordos de Oslo), ele está no Hospital Hadassah, em Jerusalém, sendo cuidado por médicos israelenses. Nos últimos dias, foi colocado em um ventilador e em coma induzida. Até o momento em que eu escrevo essas linhas, estava em uma situação crítica, mas estável. Mas os prognósticos não eram muito otimistas. Ele se submeteu a um transplante de pulmão há três anos e seu sistema imunológico não é dos melhores. 

Erekat anunciou que havia contraído Covid-19 em 9 de outubro. Em sua conta do Twitter, comentou: “sintomas difíceis resultantes da minha falta de imunidade como resultado do transplante de pulmão”. Mas acrescentou: “as coisas estão sob controle, graças a Deus”.

Só que as coisas pioraram. A decisão de levá-lo a um hospital israelense está causando um terremoto nas redes sociais (principalmente entre palestinos e israelenses). Primeiro, ele é, atualmente, um dos maiores e mais vociferantes críticos de Israel, um dos políticos que mais usa o termo “apartheid” para se definir ao Estado Judeu. Para alguns, ele é um moderado que defende a ideia de “Dois Estados para dois povos”. Para outros, ele é um extremista que defende um boicote de produtos e serviços de Israel. 

Como, então, Erekat se sujeita a ser internado justamente neste país que tanto abomina? Para alguns palestinos, isso se chama hipocrisia.  Um morador da Faixa de Gaza, intitulado “HanneyAngel”, escreveu no Twitter: “A Autoridade Palestina impediu o envio de pacientes a Israel para tratamento, mas para @ErakatSaeb aprovado (sic). A vida dos líderes é prioridade sobre a das pessoas”.

Saeb Erekat foi importante na decisão da Autoridade Palestina, em maio de 2020, de boicotar hospitais e médicos israelenses como parte do movimento BDS (boicote, desinvestimento e sanções contra Israel). Desde então, os planos de saúde palestinos se recusam a reembolsar pacientes que procuram tratamento médico em Israel. 

“Mas agora, ironicamente, o público palestino vê o próprio Erekat buscando tratamento em Israel”, diz Daniel Diker, pesquisador do Jerusalem Center for Public Affairs (JCPA) e do Interdisciplinary Center (IDC) de Herzliya, além de ex-secretário-geral do Congresso Judaico Mundial. “Os palestinos sabem bem que somente sua liderança poderia receber tal tratamento VIP, mesmo liderando um boicote total contra o Estado de Israel”.

Outros palestinos deram a entender que tratar de Erekat não é sinal de que Israel é um país com boa índole: “Muitos palestinos perderam a vida nos postos de passagem devido a Israel impedir que pacientes viajassem fora de Gaza para tratamento”, escreveu Ghalia Ayman, no Twitter. E teve os que disseram que Israel não está fazendo nada além de sua obrigação ao tratar Erekat: “Então vocês estão ocupando terras de acordo com as Resoluções da ONU e pedem a ele que agradeça pelo tratamento? Oh, sua grosseria”, escreveu Iyad Rabayah.

Do lado israelense, teve os que alegaram que a internação de um “inimigo” seria absurda. Afinal, ninguém menos do que primeiro-ministro palestino, Mohammad Shtayyeh, acusou Israel, em março, de “estar infectando palestinos propositalmente com o vírus da Covid-19”. Eles chamam Saeb Erekat de “terrorista” e se perguntam omo o ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, deu sinal verde para que ele fosse ser transladado para o Hadassah, em Jerusalém, de sua casa, em Jericó, na Cisjordânia, mesmo depois que a Autoridade Palestina suspendeu toda e qualquer cooperação de segurança com Israel, em maio.

Uma meia dúzia de apoiadores da ONG de extrema-direita “Im Tirzu” protestou em frente ao hospital como cartazes dizendo “deixo-o morrer”. E o parlamentar Bezalel Smotrich, do partido de extrema-direita Yemina, não perdeu a chance de dizer, em entrevista a uma rádio: “Não há nada de moral em tratar um terrorista. O fato de alguém pensar que há algo moral em pegar o inimigo e tratá-lo… Não há nada de moral nisso”. Eu não esperava nada diferente de vozes abjetas e maniqueístas. 

Mas, certamente, a grande maioria dos israelenses não pensa como Smotrich e acredita que uma vida é uma vida. É só olhar nas redes sociais ou ouvir a mídia israelense. A grande maioria deseja a recuperação de Erekat e se orgulha do fato de Israel o estar tratando. É notório que os hospitais em Israel tratam todo tipo de gente de dentro e de fora do país, sem distinção de religião, cor, nacionalidade, gênero ou qualquer outro aspecto. A quantidade de sírios internados em hospitais do Norte do país, por exemplo, é enorme (e a Síria é um pais em “estado de guerra” oficial com Israel). Das equipes médicas, cerca de 50% dos enfermeiros e 30% dos  médicos, em Israel, são árabes (em geral muçulmanos).

“Esse é um caso humanitário extraordinário”, diz Daniel Diker. “Todos sabem que Israel também tratou familiares de líderes do Hamas em alguns de nossos melhores hospitais. A família de Ismail Hanyie, por exemplo, foi uma delas”. 

Para Diker, a hospitalização de Ekerat é um símbolo em um momento muito crítico para os palestinos. O discurso político e diplomático palestino de boicote está indo ladeira abaixo diante dos acordos de normalização entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. “A Autoridade Palestina se encurralou nessa visão de ‘cancelamento’ de Israel”, acredita Diker. 

O pesquisador pensa que, caso se recupere, Saeb Erekat talvez mude suas posições, olhando Israel de forma mais simpática: “Embora ele se tenha retratado como um amargo adversário do Estado democrático e judeu, desejamos que ele se recupere e talvez modere suas posições, que têm sido inaceitáveis. Espero que ele supere essa doença e se torne mais amigável”. Para mim, isso é um pouco ingênuo.

Mas, caso Erekat não se recupere (e eu, que já o entrevistei algumas vezes nos últimos 25 anos, torço para pessoalmente que ele saia dessa), resta saber como será a reação dos palestinos. Haverá teorias conspiratórias como as que surgiram após a morte de Yasser Arafat, em 2004, quando alguns sugeriram que Israel o envenenou? “Nunca se sabe”, diz Daniel Diker. “As teorias sobre Yasser Arafat apontam, atualmente para a culpa de oposicionistas dentro do próprio partido Fatah, principalmente Mohammed Dahlan. Mas não faltam conspirações. É só olhar em sites da mídia ou de influenciadores palestinos”.

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