Barghouti, o Mandela palestino que venceria o Hamas nas urnas
07 out 21

Barghouti, o Mandela palestino que venceria o Hamas nas urnas

Daniela Kresch
Barghouti. (Foto: Anadolu Agency)

TEL AVIV – Um dos resultados mais interessantes da mais recente pesquisa de opinião do Palestinian Center for Policy and Survey Research (PSR), do pesquisador Khalil Shikaki, é o fato de que, apesar da popularidade do Hamas entre os palestinos, apenas um nome de fora do Hamas poderia vencer eleições presidenciais, caso elas ocorressem hoje: o de Marwan Barghouti, há tempos o mais popular líder do Fatah. O problema é que Barghouti está preso há 19 anos em Israel por terrorismo.

Segundo a pesquisa, se houvesse eleições hoje entre os palestinos, o líder do Hamas, Ismail Hanyia (ou Haniyyeh, como alguns escrevem), ganharia de lavada do atual presidente da AP, Mahmoud Abbas, super impopular. Hanyia receberia 56% dos votos contra 33% de Abbas (aliás, a pesquisa também indica que quase 80% dos palestinos querem que Abbas renuncie). Caso Hanyie concorresse à presidência contra o primeiro-ministro palestino, Mohammad Shtayyeh, ele venceria por uma diferença ainda maior: 60% a 30,7%.

Mas se Hanyia concorresse contra Marwan Barghouti, perderia. Barghouti receberia 55% dos votos contra 39% do líder do Hamas.

Para muitos, Barghouti é nada menos do que o Mandela palestino, em uma referência ao líder sul-africano Nelson Mandela, que se tornou presidente após 27 anos na prisão por se opor ao regime do Apartheid. Barghouti está na prisão desde 2002 sob acusação de terrorismo, e foi sentenciado a cinco prisões perpétuas após passar por julgamento.

Barghouti se envolveu na Primeira Intifada palestina (1987-1990). Na década de 90, chegou a apoiar negociações de paz, mas, decepcionado, voltou à luta armada na Segunda Intifada (2000-2004) como líder da Tanzin, o braço paramilitar do Fatah. Israel o acusa de ser o mandante de ataques terroristas e atentados suicidas contra israelenses, incluindo civis.

Da prisão, Barghouti continuou liderando e influenciando seus apoiadores e a política palestina, como um todo. Sua popularidade está em alta há tempos, mesmo que ele não possa concorrer a nenhum pleito dentro da cadeia. Muito se especula sobre o que ele realmente pensa e apoia. Em 2014, época do conflito mais violento entre Israel e Hamas, ele pregou o começo da uma Terceira Intifada.

Mas há muitas pessoas em Israel que consideram Barghouti um líder mais moderado do que qualquer um do Hamas, e do que diversas lideranças do Fatah. Eles estariam seguros de que, livre, Barghouti se voltaria para a mesa de negociações. Volta e meia há campanhas por sua libertação, usando Mandela como referência. Quem o apoia acredita que ele seria o único capaz de unificar os palestinos de Gaza e da Cisjordânia, enfraquecendo o Hamas. Libertá-lo seria um grande passo, por parte de Israel, para tentar apaziguar os ânimos entre os palestinos e israelenses.

Para quem acredita que ele deve cumprir sua prisão perpétua, libertar Barghouti seria abrir um precedente jurídico perigoso, que enfraqueceria o Judiciário nacional.

Trata-se de uma questão complicada. A pergunta é: para derrubar o Hamas, vale libertar um preso julgado a prisão perpétua que, apesar de tudo, é menos radical do que o Hamas? A resposta ninguém sabe.

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