O Sionismo ensinado nos espaços judaicos brasileiros e por que olhá-lo criticamente
08 nov 21

O Sionismo ensinado nos espaços judaicos brasileiros e por que olhá-lo criticamente

Tamara Crespin E Fernanda Vaidergorn

O que acontece quando a educação sionista providenciada por instituições da comunidade judaica não acompanha críticas e questionamentos maduros sobre o Estado de Israel? Pode-se intuir que a Israel imaginária1  seja bastante sedutora, porém carrega em si também a armadilha da idealização, atribuindo para si a perspectiva dominante, seja ela autoritária, extremista, humanitária ou progressista, e tornando seus desdobramentos perigosos para todos os envolvidos.

Um caso emblemático, ocorrido entre a segunda e a terceira semana de abril de 2018, nos serve de exemplo para tal conjuntura e afirmações. Estudantes da Barnard College (universidade feminina sediada em Nova Iorque, EUA) se posicionaram a respeito do movimento de Boicote, Desdesenvolvestimento e Sanções contra o Estado de Israel (BDS), com uma vitória de 64% de votos a favor e 36% votos contra. Qual seria a contradição envolvida nesse acontecimento que o difere de tantas outras votações universitárias que favorecem o movimento BDS? 

A agência Hillel Internacional nos informa que a Barnard College, segundo o censo americano, é a universidade não judaica com maior índice de estudantes judeus no país. Evidenciando em números: nesse mesmo ano, dentre os 2.500 estudantes ativos, 850 deles eram pessoas judias, ou seja, em torno de ⅓ ou 34% do total universitário possuem vínculos com o judaísmo2 .

Sendo assim, é bastante contraintuitivo que jovens estudantes boicotem um espaço destinado a cultivar sua própria identidade. No entanto, é bastante compreensível que isso se dê quando essa identidade sionista se estigmatiza em debates rasos, reduzindo-se a respostas conclusivas que pouco se renovam, estando à mercê de um discurso pouco responsável com a heterogeinedade da comunidade judaica e a complexidade das disputas territoriais dentro do Estado de Israel.

Acreditamos que o caso da Barnard College explicita um tensionamento muito latente à questão judaica na contemporaneidade e é a partir dele que trazemos o título desse ensaio. Uma pergunta, um início de debate.

No contexto brasileiro, a Israel imaginária não se restringe aos evangélicos neopentecostais e/ou aqueles agentes do judeu imaginário. A Israel imaginária expressa-se todos os dias em escolas e colégios judaicos, em movimentos juvenis sionistas, em centros culturais judaicos, e em todos aqueles espaços onde o Estado de Israel é apresentado acriticamente. Ou seja, a Israel imaginária ocorre mais perto e dentro da comunidade do que se imagina.

Sua legitimação é facilmente justificada, basta consagrá-lo como possível exemplo único de democracia no Oriente Médio e seu disparado desenvolvimento tecnológico. Claro, muitas dessas informações não deixam de ser verdadeiras, mas como estas mesmas afirmações conseguem rebater e dialogar com perguntas tais quais sua postura questionável diante do povo palestino? Sendo assim, se faz importante ressaltar que a suposta posição progressista do Estado de Israel não o exclui de suas contradições estruturais.

Pode-se pensar de primeira mão que a resposta observada há 3 anos venha a se tornar o cotidiano dos espaços universitários. Dessa forma, se faz necessário agir no agora, mobilizando espaços sionistas da comunidade judaica para que tenhamos uma relação madura e honesta com o Estado de Israel, que reconheçamos suas fragilidades, seus defeitos e suas problemáticas. Que o questionemos, mas, sobretudo, que saibamos defendê-lo de forma concisa, consciente e crítica.

Para que isso ocorra, os espaços judaicos sionistas precisam buscar uma identidade judaica que caminhe para além de justificativas rasas sustentadas em discursos comuns, vinculados a uma história trágica constantemente acorrentada à imutabilidade do passado. É necessário afirmar narrativas celebrantes, que confiem nas concepções contemporâneas e férteis do presente para a condição judaica no mundo do agora. Sendo assim possível que jovens judeus, habitantes da diáspora, aprofundem as raízes de suas identidades judaicas e consequentemente com a Terra de Israel, ultrapassando os sentimentos limitantes e traumáticos da Shoá.

Faz-se necessário que os espaços educativos, movimentos juvenis e demais instituições encarem sua responsabilidade de abarcar uma identidade judaica plural. E que saibam ultrapassar uma visão moralizante e infantilizada sobre o Estado de Israel que vá além de um propagandismo barato da Jerusalém histórica e da exemplar e moderna Tel Aviv. Esses mesmos discursos também devem ser direcionados às problemáticas na Faixa de Gaza, à presença de um Estado extremamente militarizado e suas complexas disputas territoriais.

De forma não conclusiva, mas buscando responder as perguntas apresentadas no início deste ensaio: Sim, é exatamente isso que acontece quando a educação sionista da comunidade judaica se esquiva de debates e críticas; ela se torna frágil e moldável, mas sobretudo permeável. Como é possível que a própria comunidade judaica permita que jovens judeus, frequentadores de movimentos juvenis e escolas judaicas sionistas, pouco consigam dialogar com as a palavras ‘palestino’, ‘Faixa de Gaza’ e ‘Cisjordânia’’?

É preciso ir além, mais a fundo no problema. É urgente, nos espaços sionistas judaicos brasileiros, debates que tensionem verdadeiramente as problemáticas da Faixa de Gaza, do militarismo excessivo, dos assentamentos, do assassinato de Yitzhak Rabin. É urgente o debate sobre a questão palestina. 

Para que assim, conscientemente, possamos debater o sionismo. Possamos enxergá-lo enquanto questão fértil, a ser pensada, elaborada e apropriada. Que possa se entrelaçar com as raízes judaicas profundas, antigas, contemporâneas e pessoais. Que afirme e defenda a criação do Estado de Israel, em 1948, mas que saiba também atualizar seus propósitos com o contexto atual, fazendo jus às demandas do sionismo diaspórico. E compreenda-se, antes de mais nada, que tudo isso é também falar sobre a questão judaica. 

[1] O termo Israel imaginária tem sido usado com frequência para explicar as constantes aparições de símbolos judaicos, muitos aos quais vinculados ao Estado de Israel, em manifestações da extrema direita brasileira. O conceito consiste em uma estagnação idealizada do Estado judaico, descartando a Israel moderna e afundá-la no conhecido slogan ‘conservador nos costumes e liberal na economia.’ Antes de mais nada, o termo Israel imaginária não apenas ocorre em grupos de interesse sociais e políticos no Brasil, a idealização do Estado de Israel ocorre mais dentro da comunidade do que se imagina.

[2] Os dados trazidos para o debate nos servem enquanto justificativa argumentativa, por isso, não pretende-se aprofundar as características específicas desse evento da Bernard Collage. Mais do que questionar o que representaria essa possível coletividade judaica e abordá-la enquanto bloco, esse ensaio busca dialogar com os pormenores (ou seja, a educação sionista judaica) desencadeados pelo evento.

Artigos Relacionados


Judaísmo reformista é tema do novo episódio do podcast do IBI

Calendar icon 1 de agosto de 2019

Anita Efraim e Daniel Douek entrevistaram o rabino Uri Lam

Arrow right icon Leia mais

Shabat Shalom da janela: Itamar Goldwaser canta o samba “O Sol Nascerá” do Cartola

Calendar icon 13 de abril de 2020

Arrow right icon Leia mais
Podcast do IBI aborda as correntes não denominativas do judaísmo
Podcast do IBI aborda as correntes não denominativas do judaísmo

Calendar icon 9 de dezembro de 2021

Anita Efraim e Ana Clara Buchmann conversaram com os rabinos Natan Freller e Rogério Cukierman

Arrow right icon Leia mais