Usar o antissemitismo para defender a existência do ‘racismo de negros contra brancos’ reforça estigma que o alimenta, afirma Diretor do IBI
16 jan 22

Usar o antissemitismo para defender a existência do ‘racismo de negros contra brancos’ reforça estigma que o alimenta, afirma Diretor do IBI

Em texto intitulado “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo“, publicado no jornal Folha de S. Paulo no último domingo (16/01), o antropólogo Antônio Risério defendeu a ideia de que ataques de negros contra asiáticos, brancos e judeus invalidariam a tese de que não existe racismo negro em razão da opressão a que estão submetidos.

Segundo Risério, que é autor dos livros “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros”, “Sobre o Relativismo Pós-Moderno e a Fantasia Fascista da Esquerda Identitária” e “As Sinhás Pretas da Bahia”, tanto a esquerda como o movimento negro reproduzem, sob a capa do discurso antirracista, um projeto supremacista.

Em resposta, Daniel Douek, diretor do Instituto Brasil-Israel, afirmou: “É claro que existe antissemitismo também no movimento negro. Mas utilizá-lo para legitimar a existência de um ‘racismo de negros contra brancos’ reforça o próprio estigma que o alimenta”. Segundo ele, o antissemitismo é um problema real justamente por que se diferencia do chamado “racismo reverso”. “É o antissemitismo que está vinculado ideologicamente à ‘branquitude’, e não o judeu que é vítima dele”, defende.

Douek destaca que o texto é apenas o mais novo capítulo de uma tentativa de inverter as coisas, transformando o judeu em branco e esvaziando o antissemitismo de seu significado sociológico. “Isso tem acontecido tanto em setores conservadores, que utilizam a experiência judaica para legitimar a existência de uma discriminação contra si próprios (brancos), como em setores  progressistas, que ignoram uma experiência tida como ‘concorrente'”, afirma.

O diretor também critica trecho do texto no qual Risério chega perto de justificar o antissemitismo, ao afirmar que “o racismo antijudaico de pretos pobres dos guetos pode contar com alguma pequena motivação cotidiana”.

Michel Gherman, assessor acadêmico do IBI, pontua que, no artigo, movimentos negros dos anos 30 são vistos como modelos dos movimentos atuais, onde as continuidades seriam maiores que as rupturas. “Na melhor tradição do negacionismo histórico, transforma o movimento negro em antissemita. Ademais, nega a natureza estrutural do antissemitismo e do racismo no Brasil, colocando a culpa do preconceito nas suas vítimas”.

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