Entre a Shoá e a Escravidão
João TorquatoNo começo do mês passado fomos surpreendidos com a bizarra declaração do apresentador de podcast e youtuber Burno Aiub, mais conhecido como Monark. O apresentador defendeu abertamente a legalização de um partido nazista no Brasil e o direito de uma pessoa não gostar de judeus. A declaração de Bruno fez o Flow Podcast perder diversos patrocinadores, pedidos de antigos entrevistados para que suas entrevistas fossem tiradas do ar e ocasionou na demissão de Monark do podcast. Na entrevista que ocorreu essas declarações também estavam presentes o Deputado Federal Kim Kataguiri (Podemos-SP), que se colocou contra a criminalização do partido Nazista na Alemanha, e a Deputada Federal Tabata Amaral (PSB-SP), que bateu de frente com Monark durante suas falas absurdas. Essa não é a primeira vez que o youtuber fez declarações bizarras, em outubro do ano passado Monark fez uma postagem no twitter perguntando se era crime ter uma opinião racista durante uma discussão com o advogado Augusto de Arruda Botelho.
A postagem no twitter reverberou e o podcast Flow perdeu seu patrocinador master, o aplicativo de entregas Ifood. Na internet houve um grande debate sobre os diferentes tratamentos que o apresentador recebeu, afirmando que as declarações antissemitas de Monark tomou essa proporção por se tratar de judeus, que no entendimento dessas pessoas todos os judeus são brancos, ricos, fazem parte de um lobby com uma alta influência na sociedade e detém os meios para alterar as estruturas econômicas e sociais do planeta Terra. Esse tratamento evidenciaria mais um traço do racismo estrutural presente em nossa sociedade, já que quando o Monark foi racista, não teve tanto impacto, como se o Holocausto chocasse mais do que a Escravidão por se tratar de “pessoas brancas”. Essa construção dos judeus como um povo que atua por de baixo dos panos principalmente no campo econômico faz parte de um pensamento antissemita clássico desenvolvido na Idade Média e inclusive municiou o pensamento antissemita do regime nazista.
Eu poderia gastas longas linhas deste texto falando sobre ser branco e ser judeu, debatendo sobre a pluralidade do povo judeu ou até mesmo falar das comunidades judaicas da África Subsaariana e ficar debatendo sobre antissemitismo x racismo. Mas vejo que tem uma coisa que une as duas dores muito mais do que os pontos em comum da religião judaica e do povo judeu. A representação dos judeus e dos negros só se dão em momentos de desgraça. O judeu na maioria das vezes é retratado em Auschwitz, lembrado apenas no momento de dor ou quando colocam o holocausto como escola moral quando se discute a questão Palestina. O negro no Brasil só é lembrado em momentos de fatalidade, em um assassinato policial que viraliza, ou lembrado dentro das estruturas do racismo estrutural que mata e violenta o povo negro de diversas formas.. Lembrar, situar historicamente e denunciar é importantíssimo, mas para além de lembrar na dor, é importante lembrar em vida, adoram os judeus mortos, mas os vivos nem tanto, fazem postagem em redes sociais quando um negro é brutalmente assassinado, mas esconde o celular quando avista um preto na rua. Precisamos de uma representação em vida, não em morte.
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