Quem bateu palmas para o advogado que sugeriu a libertação do assassino de Rabin?
31 jul 23

Quem bateu palmas para o advogado que sugeriu a libertação do assassino de Rabin?

Daniela Kresch

Daniela Kresch

TEL AVIV – No turbilhão das inverdades espalhadas pelo canal 14 da TV israelense, comparado à FOX News americana, um surpreendente momento conseguiu abalar (pelo menos aparentemente) até mesmo direção do canal. Durante o programa “Os patriotas” (nome que certamente agradaria aos bolsonaristas brasileiros) deste domingo, 30 de julho, um dos panelistas pediu com veemência a libertação de Yigal Amir, o ultraextremista de direita que cometeu o infame assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, em 1995. 

O pedido foi feito pelo advogado Ari Shamai, que já defendeu Amir na Justiça e adora emitir opiniões chocantes. O painel criticava uma decisão da Suprema Corte anunciada horas antes e, que, claro, gerou controvérsias no campo político. Qualquer decisão do Supremo é vista pelos “patriotas” de plantão como ilegítima – a não ser que eles concordem com ela.

O advogado aproveitou a oportunidade para expressar sua visão radical, afirmando que a posição da Suprema Corte contra as “leis pessoais” (como a tal que fora revogada) deveria agora levar à libertação do assassino de Rabin. Isso porque, em 2001, uma “lei pessoal” contra Yigal Amir foi aprovada para proibir que ele receba anistia ou seja libertado antes de cumprir sua prisão perpétua.

Mais terrível do que ouvir um advogado pleiteando a libertação do assassino de Rabin foi ouvir alguns membros da plateia aplaudindo. 

Os participantes do painel, por outro lado, expressaram oposição. O apresentador do programa, Yinon Magal, um conhecido jornalista de direita, parecia confuso e preocupado com a repercussão. “Não vamos entrar nisso!”, cortou Magal, tentando evitar que o assunto fosse adiante.

O Canal 14, uma rede de TV conservadora pró-Netanyahu, rapidamente renegou os comentários polêmicos de Ari Shamai, deixando claro que ele não seria convidado a participar de nenhum de seus programas. O canal condenou formalmente as opiniões do advogado. Fica a dúvida se os diretores do canal realmente discordam de Shamai ou apenas querem evitar ações na Justiça.

O trágico assassinato de Yitzhak Rabin em 4 de novembro de 1995 deixou uma cicatriz profunda na História de Israel. O assassino, Yigal Amir, um fervoroso judeu religioso-ultranacionalista, era contrário aos Acordos de Oslo, uma série de acordos de paz firmados com os palestinos, em 1993, que até hoje não foram implementados totalmente. 

Amir afirmou que os resultados das eleições de 1992, que levaram o líder trabalhista Rabin ao poder, e o terrível massacre de 29 palestinos pelo terrorista judeu Baruch Goldstein em Hebron, em 1994, o estimularam a cometer o assassinato.

A “Lei Yigal Amir”, foi promulgada pelo Knesset em 2001, impedindo que os conselhos de liberdade condicional perdoassem ou reduzissem a sentença de um preso condenado por assassinato politicamente motivado de um primeiro-ministro no poder. Amir, no entanto, continua buscando um recurso contra essa lei justamente na instância que seus colegas de ideologia tanto odeiam: a Suprema Corte.

Não é chocante para ninguém o fato de que alguns ministros de extrema-direita da coalizão linha-dura do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já expressaram simpatia por Amir. Um deles é o atual ministro das Finanças Bezalel Smotrich. Ele provocou indignação, no ano passado, ao apontar o dedo para o serviço de segurança de Israel, o Shin Bet, como real responsável pelo assassinato de Rabin, numa teoria conspiratória tão amalucada que é difícil explicar. 

Outra figura deste governo, Itamar Ben Gvir, o atual ministro da Segurança Nacional, era amigo pessoal de Yigal Amir e, pouco antes do assassinato, ameaçou diretamente Rabin. Ambos são farinha do mesmo saco.

O ultrajante apelo de Shamai pela libertação de Amir é um lembrete perturbador das profundas divisões que persistem na sociedade israelense, que têm vindo à tona como um vulcão nos últimos meses por causa da reforma judicial antidemocrática do governo atual de Benjamin Netanyahu.

É um lembrete, principalmente, de que Yigal Amir não era e nunca foi um “lobo solitário”. Como ele, havia muitos em 1995, mas com menos “coragem” do que ele. Assim como ainda há muitos em 2023, que acreditam nas mesmas noções que motivaram Amir a apertar o gatilho. Há quem justifique e que esteja disposto a perdoar o assassino de Yitzhak Rabin. 

Pior do que a fala do advogado foram as palmas de parte da plateia. Até hoje, qualquer menção de uma anistia a Yigar Amir parecia ser um tabu entre os israelenses. Parecia ser. Não sei se jamais foi realmente.

Foto: Yaakov Saar/WikimediaCommons

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