A Liberdade de Imprensa em Israel: um alvo em tempos de crise
12 maio 25

A Liberdade de Imprensa em Israel: um alvo em tempos de crise

Revital Poleg

Revital Poleg

Na semana passada, foi publicado o Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2025, relatório produzido pela organização Repórteres sem Fronteiras (RSF). Pela primeira vez na história, Israel despenca para a 112ª posição entre 180 países — uma queda de 11 posições em relação ao ano passado e de 26 posições em comparação a 2022, antes da ascensão do governo atual. Trata-se da classificação mais baixa de Israel desde que o RSF começou a publicar o índice, em 2002.

Essa queda não é apenas um dado técnico, mas um grave sinal de alerta que evidencia o agravamento da situação da imprensa livre em Israel. Mesmo que no ano passado Israel tenha sido classificada na 97ª posição, posicionamento que já era insatisfatório por si só, a queda atual é especialmente preocupante. A nova colocação reflete não apenas as pressões crescentes sobre a imprensa, mas também um ataque direcionado à própria liberdade de expressão, tanto na esfera política quanto na pública — um processo que se intensificou especialmente desde o início da guerra em Gaza em 7 de outubro de 2023.

O Índice Mundial do RSF, considerado a principal referência no campo da liberdade de imprensa, avalia a situação da liberdade de imprensa em 180 países e territórios do mundo. Ele é baseado em cinco critérios principais:
. pluralismo midiático;
. independência jornalística;
. ambiente e regulamentação midiática;
. contexto econômico e sua influência sobre a liberdade de imprensa;
.violência contra jornalistas.

Os primeiros indícios da intenção de restringir a liberdade de imprensa em Israel surgiram já no início de 2023, com a ascensão do governo de extrema-direita de Benjamin Netanyahu. No entanto, o processo ganhou impulso significativo a partir de 7 de outubro de 2023, que marcou um ponto de inflexão em praticamente todos os aspectos da vida em Israel, incluindo a liberdade de imprensa.

Nos primeiros dias após o ataque terrorista, muitos jornalistas, conhecidos por seu tom crítico e independente em tempos normais, optaram conscientemente por se tornarem uma espécie de “agentes da unidade nacional”, movidos por uma intenção de unir o povo em um momento difícil. As reportagens concentraram-se na dolorosa experiência israelense: nos sequestrados e assassinados daquele “sábado negro”, nas centenas de milhares de pessoas que foram deslocadas de suas casas, na guerra que estourou em decorrência disso, em suas vítimas e feridos, e na mobilização da sociedade civil.

Com certa dose de integridade, é possível entender — ainda que não necessariamente concordar — essa reação imediata. Foram semanas iniciais de caos absoluto, choque, medo existencial palpável e incerteza quanto ao futuro. E isso não poupou os profissionais da mídia. Por um período considerável, muitos jornalistas optaram por não expor ao público israelense a totalidade dos acontecimentos em Gaza. A situação dos moradores de Gaza não foi prioritária para os jornalistas, repórteres e editores, talvez pelo desejo de não enfurecer o público israelense, que havia se fechado para o sofrimento dos gazenses após o 7 de outubro, ou talvez por uma profunda identificação com as vítimas israelenses e o choque que havia sido impregnado neles desde então.

A relutância em gerar mais polêmica, aliada à solidariedade incondicional com os cidadãos de Israel em um momento tão difícil, levou muitos jornalistas a abandonarem parte dos princípios profissionais — incluindo a necessidade de apresentar um quadro equilibrado ou, ao menos, um mosaico mais amplo da realidade — em favor daquilo que era percebido por eles e pela maioria dos israelenses como a tragédia maior.

Esse fenômeno concentrou a cobertura na perspectiva interna. A ausência de documentação da Faixa de Gaza — exceto pelos materiais fornecidos pelo porta-voz das Forças de Defesa de Israel — expôs o público israelense a uma narrativa unilateral, relegando os acontecimentos em Gaza e suas consequências para os gazenses às margens da cobertura midiática.

À medida que a postura do governo em relação à guerra e à libertação dos sequestrados se tornava mais clara — ou já não era mais possível ignorá-la — semanas após 7 de outubro, a maioria dos jornalistas começou a retomar gradualmente a cobertura crítica e profissional, passando de críticas sutis para um tom mais aberto e contundente. Em paralelo, o público passou a ter um acesso ainda parcial e selecionado às consequências da guerra em Gaza.

No decorrer desse processo, o abismo entre os meios de comunicação que expressam críticas diretas e incisivas e aqueles que, na prática, funcionam como porta-vozes do governo, se aprofundou de forma evidente, em especial no caso do Canal 14. Esse canal tornou-se um verdadeiro porta-voz do governo de direita, difundindo teorias da conspiração perigosas e incendiárias, sendo um dos fatores que contribuíram para a queda de Israel no ranking da liberdade de imprensa deste ano. Tudo isso ocorre com o encorajamento e o apoio do primeiro-ministro, que faz questão de aparecer exclusivamente no Canal 14, o único meio de comunicação israelense no qual ele concede entrevistas.

No entanto, há também resistência a essa escalada. Organizações de direitos humanos em Israel recorreram à Suprema Corte, exigindo a abertura de uma investigação criminal contra o Canal 14, sob a alegação de que ele se tornou um foco de incitação ao genocídio.

Enquanto isso, emergiu — e não por acaso — a iniciativa do ministro das Comunicações, Shlomo Karhi, um componente central da chamada “revolução judicial” promovida pelo governo. A proposta, que já passou por várias reformulações, mantém o mesmo objetivo: estabelecer um controle político sobre a emissora pública, incluindo a nomeação governamental dos membros do conselho e a interferência direta no conteúdo transmitido.

Para compreender o quadro geral, é fundamental esclarecer que a luta pela liberdade de imprensa em Israel atualmente não se resume à questão da cobertura midiática dos eventos em Gaza. O embate agora é muito mais profundo e toca no cerne da própria possibilidade dos jornalistas de cumprirem sua missão. Trata-se de um embate pelo direito de levantar questões incisivas, expor casos de corrupção, criticar o governo e fomentar um debate público amplo e equilibrado — e, acima de tudo, garantir o direito do público de ser informado de maneira livre, plural e verdadeira.

A queda de Israel no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2025 faz parte de uma tendência global preocupante. Até mesmo países ocidentais, como Estados Unidos, Reino Unido e França, registraram quedas no ranking, enquanto regimes autoritários, como Arábia Saudita e China, mantiveram suas posições já baixas. Por outro lado, os países nórdicos — Noruega, Suécia e Finlândia — continuam liderando o índice graças a legislações rigorosas de proteção à liberdade de imprensa.

Estar em “boa companhia” nesse cenário não traz alívio algum — nem para Israel, que despenca no ranking, nem para a comunidade internacional, que parece seguir um caminho alarmante.

A liberdade de imprensa é o sopro vital da democracia. A luta pela liberdade de imprensa em Israel não é apenas um embate pelo direito dos jornalistas de reportarem livremente e com segurança física — é, acima de tudo, uma luta pelo direito do público de saber a verdade. Em tempos em que o governo age para reduzir a transparência e exercer controle sobre os meios de comunicação, a luta pela liberdade de imprensa se transforma, na prática, em uma luta pela própria existência da democracia israelense.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Wikimediacommons

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