Netanyahu e o retorno ao gueto
OutrosA bandeira da segurança, antes símbolo de força, tornou-se sob Netanyahu a armadilha que ameaça isolar Israel do mundo.
Renato Bekerman*
Em 1897, em Basileia, Theodor Herzl lançou o movimento sionista com um objetivo claro: criar um lar para o povo judeu na Palestina. A proposta se contrapunha ao isolamento em guetos e shtetls, espaços de segregação e vulnerabilidade que marcavam a vida judaica na Europa, sobretudo sob o nazismo. O sionismo prometia uma nova vida, baseada em justiça social e em um judaísmo humanista, simbolizada pelos kibutzim e pela fundação de Tel Aviv.
A declaração de independência de Israel, em 1948, após o Holocausto, deu forma a esse ideal: um Estado democrático, fundado na igualdade de direitos, em busca de reconhecimento internacional. Ao longo de mais de 70 anos, diferentes governos, de trabalhistas a conservadores, sustentaram essa visão de integração e cidadania plena.
Benjamin Netanyahu, filho do historiador revisionista Benzion Netanyahu, herdou outra tradição sionista: a da “Terra de Israel integral”. Educado nos Estados Unidos e veterano militar, construiu carreira no Likud, chegando a primeiro-ministro em 1996 com a promessa de “segurança e combate ao terrorismo” — slogan que sustentaria por três décadas. Sob sua liderança, Israel cresceu economicamente, mas também mergulhou em divisões internas. O projeto de reforma judicial, que ameaçava a independência do Judiciário, simbolizou o enfraquecimento das instituições democráticas.
No sábado, 7 de outubro de 2023, essa narrativa ruiu. O massacre cometido pelo Hamas, apoiado pelo Irã, expôs a falência da política de segurança que Netanyahu usara como bandeira. O ataque deu início ao conflito mais longo da história israelense, envolvendo também Irã,Hezbollah e Houthis. A resposta militar foi imediata, mas insuficiente para produzir ganhos políticos. As imagens de destruição em Gaza e da crise humanitária ofuscaram o sofrimento dos reféns israelenses, e Israel passou a ser visto, cada vez mais, como responsável pelo prolongamento da guerra.
O efeito internacional foi devastador: antigos aliados ocidentais se distanciam, enquanto Israel se vê próximo da condição de “Estado pária”. Um país que nasceu para romper com a exclusão e se integrar ao concerto das nações corre agora o risco de viver em isolamento diplomático e econômico.
O sionismo, em sua essência, buscava normalizar a condição judaica: um Estado aberto, democrático e integrado ao mundo. A política de Netanyahu caminha na direção oposta, empurrando Israel para dentro de um novo gueto. Não de muros e arame farpado, mas de isolamento político e militarização permanente — uma bolha que promete segurança, mas ameaça trair o sonho original de Herzl e Ben Gurion.
*Representante do Meretz Brasil no 39º Congresso Sionista Mundial
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Reprodução/Youtube IsraelPM
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