Netanyahu e o retorno ao gueto
09 set 25

Netanyahu e o retorno ao gueto

Outros

A bandeira da segurança, antes símbolo de força, tornou-se sob Netanyahu a armadilha que ameaça isolar Israel do mundo.

Renato Bekerman*

Em 1897, em Basileia, Theodor Herzl lançou o movimento sionista com um objetivo claro: criar um lar para o povo judeu na Palestina. A proposta se contrapunha ao isolamento em guetos e shtetls, espaços de segregação e vulnerabilidade que marcavam a vida judaica na Europa, sobretudo sob o nazismo. O sionismo prometia uma nova vida, baseada em justiça social e em um judaísmo humanista, simbolizada pelos kibutzim e pela fundação de Tel Aviv.

A declaração de independência de Israel, em 1948, após o Holocausto, deu forma a esse ideal: um Estado democrático, fundado na igualdade de direitos, em busca de reconhecimento internacional. Ao longo de mais de 70 anos, diferentes governos, de trabalhistas a conservadores, sustentaram essa visão de integração e cidadania plena.

Benjamin Netanyahu, filho do historiador revisionista Benzion Netanyahu, herdou outra tradição sionista: a da “Terra de Israel integral”. Educado nos Estados Unidos e veterano militar, construiu carreira no Likud, chegando a primeiro-ministro em 1996 com a promessa de “segurança e combate ao terrorismo” — slogan que sustentaria por três décadas. Sob sua liderança, Israel cresceu economicamente, mas também mergulhou em divisões internas. O projeto de reforma judicial, que ameaçava a independência do Judiciário, simbolizou o enfraquecimento das instituições democráticas.

No sábado, 7 de outubro de 2023, essa narrativa ruiu. O massacre cometido pelo Hamas, apoiado pelo Irã, expôs a falência da política de segurança que Netanyahu usara como bandeira. O ataque deu início ao conflito mais longo da história israelense, envolvendo também Irã,Hezbollah e Houthis. A resposta militar foi imediata, mas insuficiente para produzir ganhos políticos. As imagens de destruição em Gaza e da crise humanitária ofuscaram o sofrimento dos reféns israelenses, e Israel passou a ser visto, cada vez mais, como responsável pelo prolongamento da guerra.

O efeito internacional foi devastador: antigos aliados ocidentais se distanciam, enquanto Israel se vê próximo da condição de “Estado pária”. Um país que nasceu para romper com a exclusão e se integrar ao concerto das nações corre agora o risco de viver em isolamento diplomático e econômico.

O sionismo, em sua essência, buscava normalizar a condição judaica: um Estado aberto, democrático e integrado ao mundo. A política de Netanyahu caminha na direção oposta, empurrando Israel para dentro de um novo gueto. Não de muros e arame farpado, mas de isolamento político e militarização permanente — uma bolha que promete segurança, mas ameaça trair o sonho original de Herzl e Ben Gurion.

*Representante do Meretz Brasil no 39º Congresso Sionista Mundial

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Reprodução/Youtube IsraelPM

Artigos Relacionados

Joice Hasselmann e o judeu ideal
Joice Hasselmann e o judeu ideal

Calendar icon 9 de outubro de 2020

“(…) Depois do meu batismo na Igreja Batista, eu fui batizada no Rio Jordão. É isso mesmo. O primeiro país que eu quis conhecer quando ganhei o meu primeiro dinheiro foi Israel, sou apaixonada por Israel. Me descobri, há três anos e meio ou quatro que sou judia, filha de judia, neta de judia. Eu […]

Arrow right icon Leia mais
Entre desafios e esperança: Israel observa dias da Lembrança e da Independência
Entre desafios e esperança: Israel observa dias da Lembrança e da Independência

Calendar icon 10 de maio de 2024

Revital Poleg Pela primeira vez em seus 76 anos de história, e apesar das numerosas guerras que infelizmente enfrentamos, Israel observará o Dia da Lembrança dos Soldados Caidos de Israel e das Vítimas do Terrorismo, seguido do Dia da Independência, em meio à guerra mais longa de nossa história — um aspecto excepcional que destaca […]

Arrow right icon Leia mais
Depois de 469 dias, o impossível começa a se tornar realidade
Depois de 469 dias, o impossível começa a se tornar realidade

Calendar icon 17 de janeiro de 2025

Revital Poleg É difícil até respirar, o coração pulsa acelerado entre alegria e apreensão. O momento pelo qual tanto esperamos, pelo qual tanto ansiamos, finalmente está se tornando realidade. Após 469 dias infernais desde aquele sábado negro e terrível de 7 de outubro, isso está acontecendo – o acordo para a libertação dos reféns, incluindo […]

Arrow right icon Leia mais