Reconstruir Israel, por dentro e por fora – o dever de agora
20 out 25

Reconstruir Israel, por dentro e por fora – o dever de agora

Revital Poleg

Revital Poleg

São os nossos dias mais felizes. São, também, dias muito tristes.

São os dias pelos quais esperamos durante dois longos anos, desde aquele sábado negro e impiedoso de 7 de outubro de 2023. Dias de catarse coletiva – de liberação de emoções intensas e extremas: alegria, dor e uma profunda identificação com os reféns que voltaram do cativeiro do Hamas, com suas famílias que lutaram incansavelmente por sua libertação, e com o imenso alívio de uma guerra que, finalmente, chegou ao fim. São dias em que toda a gama de sentimentos acumulados ao longo desse tempo veio à tona com toda a força.

E, que não haja engano – estes dias se tornaram possíveis, em grande medida, graças a nós, à sociedade israelense: àqueles que não se calaram nem desistiram, que exigiram incessantemente a libertação de todos os reféns e o fim da guerra, que insistiram na preservação dos valores fundamentais do que somos – do ethos israelense e judaico que está no cerne da nossa identidade – e que, com sua determinação, acabaram por obrigar o principal tomador de decisões do país a implementar uma medida que, em uma realidade mais normal, ele próprio deveria ter liderado, exigido e assumido como compromisso desde o primeiro momento.

Tudo isso, sem diminuir em nada o papel essencial do presidente Donald Trump, cuja escuta atenta à voz da sociedade civil e cuja ação decisiva criaram as condições que permitiram e exigiram essa mudança.

Contudo, é igualmente importante lembrar: a missão ainda não foi concluída.

No momento em que estas linhas são escritas, 16 reféns mortos ainda permanecem nas mãos do Hamas em Gaza.

Enquanto eles não voltarem, nossa imensa alegria não será completa, e a dor infinita não encontrará o seu recanto de consolo, na forma de um túmulo sobre o qual chorar, aqui em Israel, aqui em casa.

Não houve um só olho seco nos momentos de alegria em que vimos os reféns regressando, ansiosos para saber como estavam depois de 735 dias de sofrimento inimaginável, e extasiados ao assistir às imagens do primeiro abraço com a mãe, o pai, a esposa, os filhos, os irmãos e irmãs, os avós e os amigos.

Não houve um só olho seco diante da dor mesclada ao alívio quando foram revelados os nomes dos reféns mortos, cuja identidade foi confirmada com extremo cuidado após a chegada de seus caixões a Israel.

Outros tantos viverão esse mesmo momento quando os todos os corpos restantes finalmente retornarem.

Não houve um só olho seco quando a alegria e a tristeza se fundiram ao vermos Matan Angrest, o único soldado sobrevivente da tripulação do tanque que lutou heroicamente no dia 7 de outubro e foi levado ferido, junto com os corpos de seus companheiros, para o cativeiro, insistir, apenas dois dias após seu retorno e ainda em estado delicado de saúde, em comparecer ao funeral de seu comandante, o capitão Daniel Peretz (z”l), cujo corpo também havia sido restituído, e ali pronunciar palavras dilacerantes e profundamente comoventes, em homenagem a ele e aos companheiros de tripulação que ainda não voltaram.

Não são dias de divisão para a sociedade israelense, mas dias preciosos de união; não de direita nem de esquerda, não de religiosos nem de seculares, não de centro nem de periferia.

Faltam palavras para expressar a profundidade, a intensidade e a elevação desses momentos e, na verdade, talvez nem sejam necessárias.

As histórias do cativeiro que começam agora a ser ouvidas e reveladas ainda são poucas, mas profundamente chocantes e quase impossíveis de suportar.

É o pouco que contém o muito.

Outros testemunhos virão com o tempo, e alguns, provavelmente os mais dolorosos de todos, jamais saberemos. Essas histórias pertencem a eles e nós as respeitamos assim.

Em meio a tudo isso, é impossível não refletir sobre uma perspectiva mais ampla sobre o caminho que a sociedade israelense percorreu desde aquele sábado negro e sobre a grande pergunta que agora se impõe: para onde vamos daqui em diante?

Não há como negar que o “Ministro da História”, se é que existe, zombou de nós à sua maneira sinuosa, testou a nossa resiliência, colocou-nos diante das provas mais difíceis, mas não conseguiu nos vencer.

Durante dois longos e dolorosos anos, ele prolongou até o limite a dor e a intensidade do 7 de outubro de 2023, e escolheu justamente a semana em que marcamos Simchat Torá pela segunda vez desde aquele sábado negro para encerrar, quase por completo, um capítulo sombrio e horrendo, abrindo espaço para o que precisa acontecer agora: o capítulo da cura e da reparação interna, e um novo e melhor capítulo político. Aqui, em casa, na região e no seio da comunidade internacional.

A oportunidade histórica está diante de nós: ela está sobre a mesa; não é isenta de complexidades e desafios, mas está aqui, ao alcance das mãos.

Acontecerá? Seremos capazes de trilhar o caminho da reconstrução?

Pois bem, no que diz respeito à nossa sociedade civil, resiliente, diversa e extraordinária, apesar das diferenças e das dificuldades que a compõem, eu sou otimista.

No que se refere à nossa liderança atual, se ela assumir sua parte nesta missão com plena responsabilidade, integridade e propósito, haverá esperança.

É realista? Infelizmente, temo que não.

Mesmo agora, em meio aos dias de euforia e dor entrelaçados que vivemos e continuamos a viver, há aqueles que não cessam, nem por um instante, de pensar apenas em si mesmos, em seu futuro político, em se apropriar dos feitos e em disseminar informações tendenciosas e distorcidas ao público, com o único objetivo de preservar o próprio poder, eximir-se de qualquer responsabilidade pelo que ocorreu e aprofundar ainda mais a divisão social.

Não podemos permitir isso. Trata-se de uma questão de sobrevivência moral e existencial.

Após uma guerra tão dura, longa e dolorosa, marcada por tanto sangue e sofrimento, é natural que exista a expectativa de novos e melhores começos. É o impulso mais humano possível em circunstâncias como estas, mas a realidade está longe de ser simples.

No contexto da luta multifacetada que a sociedade israelense enfrentou, o processo de cura nacional tem um papel crucial, que vai muito além da esfera individual e se estende à reconstrução coletiva do futuro.

Sem o reconhecimento público e oficial das falhas que permitiram o 7 de outubro, será difícil canalizar as forças e a resiliência necessárias para reconstruir e criar um futuro melhor, tanto no âmbito interno, em casa, quanto no externo, ao nosso redor.

Além das múltiplas feridas físicas e psicológicas sofridas pela sociedade israelense – fruto destes dois anos – muitos de nós também vivenciamos uma ferida moral: uma fissura na alma e no universo ético, nascida do confronto entre os valores individuais e coletivos e a realidade em que participamos, presenciamos ou à qual fomos expostos, por escolha ou por imposição.

A reparação dessa ferida moral só será possível quando a liderança souber reconhecer e compreender essa complexidade. Não para ser julgada ou punida na praça pública, mas para que possamos crescer a partir da dor, abrir uma nova página e transformar a reconstrução em realidade concreta – não em mera “bela palavra”.

Isso é possível. É vital e essencial.

É uma responsabilidade que deve ser assumida agora, hoje, e não deve ser depositada unicamente nas eleições que virão dentro de um ano, ou talvez um pouco antes, na esperança de que tragam a mudança.

Em outras palavras: mais uma vez, o ônus, o peso e a responsabilidade moral recaem sobre os ombros da sociedade israelense. Desta vez, talvez de forma mais consciente, e por escolha.

Conseguiremos?

A meu ver, essa não é uma pergunta.

É, simplesmente, o nosso dever.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.


 Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons  

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