Parcerias em transição? Trump redefine o jogo no Oriente Médio
Revital Poleg
Revital Poleg
No último dia 17 de novembro, treze países votaram no Conselho de Segurança da ONU a favor da resolução americana que adota o plano do presidente Donald Trump para encerrar a guerra em Gaza, que inclui também uma referência a um “caminho para um Estado palestino”. Nenhum país votou contra, e dois – Rússia e China – abstiveram-se.
Mesmo antes de sua aprovação, a decisão, amplamente esperada, já inquietava o governo de Israel e seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que em conversas preliminares com os americanos tentou, sem sucesso, suavizar a redação da resolução e eliminar a menção ao “caminho para um Estado palestino”. Na reunião do gabinete realizada na véspera da votação, o primeiro-ministro reiterou de forma categórica: “Um Estado palestino não surgirá!”.
Embora o texto da resolução, que pela primeira vez em um documento operativo do Conselho de Segurança menciona a possibilidade de um percurso futuro para a criação de um Estado palestino, não contenha um compromisso formal nesse sentido, trata-se de uma tentativa de equilibrar medidas práticas de reconstrução da Faixa de Gaza com a apresentação de um horizonte político, horizonte este que Netanyahu rejeita a priori e sob qualquer condição.
Esta é a primeira vez que o governo Trump aprova no Conselho de Segurança uma resolução que fala explicitamente sobre a promoção de um Estado palestino. No passado, o Conselho tratou do tema, mas nunca sob a presidência de Trump. Esse movimento, baseado no “Plano dos 20 Pontos” do presidente, pode ser visto também como uma mudança de rumo na postura de Washington em relação ao governo israelense, e como um passo que revela o afastamento dos interesses americanos – na remodelação do Oriente Médio – em relação aos da atual liderança de Israel, diante da ascensão de outras prioridades, tendo a Arábia Saudita à frente delas.
O exemplo mais marcante no momento é a declaração de Trump, feita na véspera da votação na ONU e pouco antes da visita esperada a Washington do príncipe herdeiro saudita, sobre a intenção dos Estados Unidos de vender à Arábia Saudita, pela primeira vez na história, caças F-35. A medida representa uma guinada drástica na política da Casa Branca e que, pela legislação americana, é obrigada a preservar a superioridade militar de Israel na região. Esse princípio, consagrado há décadas na doutrina de segurança dos EUA, encontra-se agora diante de uma ameaça concreta. Trump, naturalmente, está ciente das apreensões de Israel, em especial das Forças de Defesa e da comunidade de segurança, quanto às possíveis consequências do acordo para a vantagem estratégica israelense e para o risco de uma corrida armamentista de grandes proporções no Oriente Médio. Ainda assim, seus interesses, convém lembrar, foram e continuam sendo pautados pelo lema de sua campanha: America First.
A maioria da sociedade israelense recebeu com entusiasmo o plano do presidente Trump para redefinir o cenário do Oriente Médio. Nos estágios iniciais, observava-se uma quase total convergência entre as expectativas do público israelense e os objetivos declarados pelos Estados Unidos. O retorno dos reféns e o cessar-fogo em condições favoráveis a Israel – mantendo o controle sobre partes significativas da Faixa de Gaza e sem exigência de retirada imediata – pareciam, e ainda parecem, um êxito político e estratégico considerável para a liderança israelense, ainda que esse não fosse necessariamente o desfecho desejado, ao menos por parte dela.
Além disso, o plano inclui uma exigência clara de desarmamento do Hamas e do fim de seu domínio sobre Gaza, etapa que ainda precisa se concretizar. Tudo isso representou o cumprimento integral dos objetivos da guerra, conforme definidos por Israel, e evidenciou a estreita cooperação entre o presidente Trump e o primeiro-ministro Netanyahu, algo que ambos tinham interesse em destacar publicamente.
Pode-se afirmar, de maneira inequívoca, que sem a intervenção e a liderança de Trump, os reféns, cuja esmagadora maioria já retornou a Israel, dificilmente teriam voltado. O país provavelmente continuaria atolado em uma guerra prolongada em Gaza, com todas as suas duras consequências. O encerramento quase completo desse capítulo devolveu ânimo e alívio à sociedade israelense, após mais de dois anos de desgaste e sofrimento para ambos os povos.
A sociedade israelense não apenas deve uma grande gratidão ao presidente americano por isso, como também reconhece abertamente esse mérito. No entanto, é preciso lembrar que “não existe almoço grátis” e que alguns elementos do plano de Trump representam desafios significativos para Israel – por exemplo, o alto grau de envolvimento previsto para o Catar e a Turquia na Faixa de Gaza, dois países que não figuram entre os amigos de Israel, para dizer o mínimo, ao mesmo tempo em que relega a um segundo plano o papel do Egito, país vizinho com o qual Israel mantém um tratado de paz e compartilha diversos interesses estratégicos.
A crescente presença turca esperada em Gaza e na Síria pode, de fato, consolidar um novo e perigoso eixo sunita, em substituição ao eixo xiita que Israel conseguiu desmantelar. Assim como o peso atribuído por Trump à Arábia Saudita, essas preferências do presidente americano também não estão isentas de motivações econômicas.
O encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, pode vir a se revelar um evento decisivo na definição do novo equilíbrio de forças no Oriente Médio e ter consequências diretas para Israel. A Arábia Saudita, país-chave no mundo árabe, detém um peso singular devido à sua influência política, à sua força econômica e à sua relevância religiosa, além de sua localização estratégica, que lhe confere o papel de ator central frente ao Irã.
Trump vê a Arábia Saudita como um elemento essencial para a implementação de sua visão de uma “nova arquitetura regional”. Em sua perspectiva, o fortalecimento das relações com Riad é um componente crucial da política das “grandes negociações” do governo, baseada em uma parceria de benefícios mútuos – nas esferas da segurança, da economia e da tecnologia. O cessar-fogo em Gaza e o desejo de estabilizar o cenário palestino são vistos em Washington como uma oportunidade para impulsionar a cooperação com a Arábia Saudita rumo a uma nova ordem regional.
Por enquanto, contudo, não está claro até que ponto o príncipe herdeiro atenderá ao apelo americano para avançar no processo de normalização com Israel. A posição saudita – como se sabe – vincula qualquer progresso nesse tema à evolução do processo político com os palestinos.
O aprofundamento da cooperação saudita-americana neste momento pode reduzir o incentivo de Riad para normalizar suas relações com Israel no futuro, especialmente se os Estados Unidos atenderem às principais exigências sauditas – acesso a tecnologias avançadas, acordos de defesa e até licença para enriquecimento de urânio – sem impor condições políticas ligadas a Israel, como fizera o então presidente Biden.
Nesse cenário, Israel não apenas corre o risco de perder o trem da normalização, mas também de ver enfraquecida sua vantagem qualitativa e de romper-se o tabu histórico em torno da questão do enriquecimento de urânio.
Na ausência de uma iniciativa política israelense significativa em relação aos palestinos, a Arábia Saudita poderá conquistar ganhos estratégicos relevantes junto a Washington sem precisar pagar um preço político perante Jerusalém. Portanto, se Israel deseja continuar sendo um ator central no eixo Washington–Riad, terá de adotar uma política flexível e uma visão estratégica ampla, que lhe permitam participar da construção da nova ordem regional, em vez de permanecer à margem dela.
Nas atuais circunstâncias políticas, é difícil imaginar como Netanyahu conseguirá equilibrar as pressões internas com as exigências de uma realidade em transformação. Neste momento, ele pode optar por se contentar com uma declaração saudita vaga, que procurará interpretar como um sinal positivo e transformá-la em ganho diplomático e político no plano interno.
Mas, se escolher hesitar ou adiar suas respostas, Trump, como de costume, não esperará por ele por muito tempo.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Flickr/CasaBranca
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