Violência contra mulheres em 2025: a realidade que o governo israelense prefere ignorar
28 nov 25

Violência contra mulheres em 2025: a realidade que o governo israelense prefere ignorar

Revital Poleg

 

Em um momento simbolicamente cruel, marcado pelo Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres, lembrado dia 25 de novembro, uma jovem de 30 anos foi assassinada na vila de Jatt. Ela é a 38ª mulher morta desde o início do ano em Israel. Tudo indica que 2025 será o ano mais letal para mulheres assassinadas por motivos de gênero desde a criação do Estado.

Os números, por si só, não capturam a profundidade da violência em todas as suas formas – física, psicológica, econômica e sexual – nem os danos de longo prazo deixados em mulheres, famílias e comunidades inteiras. Ainda assim, eles escancaram o tamanho do abismo entre a gravidade dos dados e a ausência de uma política governamental eficaz.

O enfrentamento da violência contra mulheres deveria ser um interesse fundamental de toda a sociedade e de qualquer liderança, independentemente de sua orientação política. No entanto, na realidade israelense atual, até mesmo esse tema básico de valores torna-se objeto de disputa política, revelando mais uma vez as prioridades distorcidas e a profunda erosão moral do governo de extrema-direita.

Até que ponto essa erosão chega? Aqui está apenas um exemplo entre muitos. Embora o ministro Ben Gvir tenha sido convidado, em função de seu cargo, a participar da sessão especial realizada por ocasião do Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres pela Comissão para o Avanço da Mulher, liderada por uma deputada da oposição, ele optou por não comparecer. Mais do que isso, ordenou que representantes de seu ministério, da polícia e do sistema presidiário se abstivessem de participar. E chegou ao ponto de proibir a polícia de fornecer ao Centro de Pesquisa e Informação do Knesset dados oficiais sobre violência contra mulheres, ainda que a própria polícia estivesse preparada para entregá-los, como faz todos os anos.

Essa conduta transmite ao público uma mensagem dolorosa de desprezo contínuo pela vida e pela segurança das mulheres. Ela prejudica diretamente a capacidade do Parlamento de desempenhar sua função legal de supervisão e controle, e representa uma abdicação grave da responsabilidade do governo na condução do combate à violência contra mulheres.

A ameaça crescente às instituições democráticas em Israel, impulsionada pelo próprio governo, tem impacto direto na proteção das mulheres contra exclusão, discriminação e violência. A erosão da independência do sistema judicial e as repetidas ameaças de demissão da conselheira jurídica do governo enfraquecem uma das principais ferramentas de que as mulheres dispõem para proteger seu bem-estar e enfrentar a violência direcionada contra elas.

Os ataques políticos de caráter marcadamente misógino e a escalada da violência verbal contra mulheres na arena pública e política já ultrapassaram todos os limites, como vimos recentemente em transmissão ao vivo, quando um ministro do governo proferiu ataques descontrolados contra uma deputada da oposição no plenário da Knesset.

A isso se soma um fator de risco particularmente grave, já perceptível no dia a dia: o aumento dramático no número de armas de fogo em circulação no espaço civil. Esse fenômeno é resultado direto da política armamentista promovida pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir. A mudança alterou o equilíbrio de poder dentro dos lares, aumentou significativamente o risco enfrentado por mulheres e levou a um crescimento de casos em que o acesso imediato a uma arma foi determinante para o assassinato. Os dados são inequívocos: desde a entrada em vigor da reforma há cerca de três anos, o número de mulheres assassinadas por armas de fogo legais dobrou.

Paralelamente, estão sendo promovidas medidas adicionais que impactam diretamente a rede de proteção às mulheres, como a realocação de verbas originalmente destinadas a programas essenciais para o fortalecimento da autonomia econômica de mulheres árabes – população que representa a maioria das vítimas de feminicídio – para outras finalidades. De forma especialmente preocupante, essa iniciativa vem exatamente da ministra da Igualdade Social e do ministro da Segurança Nacional, num momento em que seria indispensável ampliar investimentos em mecanismos de apoio e proteção às mulheres em comunidades vulneráveis.

Especialistas em Israel concordam amplamente que dois anos de guerra contínua e situação permanente de emergência constituem, por si só, um dos principais fatores de risco para violência doméstica. Longos períodos de serviço militar na reserva, a desestabilização da vida familiar pela ausência prolongada do membro convocado, tensões emocionais, impactos econômicos, ansiedade, traumas e estresse permanente afetam diretamente o que ocorre dentro de casa. Nessas circunstâncias, a “panela de pressão familiar” pode atingir seu ponto de ebulição e transformar o lar – que deveria ser o espaço mais seguro e protegido – em uma armadilha mortal para muitas mulheres. Isso sem mencionar os casos de violência que já ocorrem mesmo na ausência de fatores externos tão extremos.

Os dados do WPS – Women, Peace and Security Index, publicados recentemente, classificam os países segundo três dimensões principais: inclusão (econômica, social e política), justiça (acesso ao sistema jurídico, legislação e discriminação informal) e segurança (pessoal, comunitária e social).

Segundo o índice, conduzido pela Universidade de Georgetown desde 2017, Israel continua caindo no ranking global de segurança das mulheres e ocupa este ano o 83º lugar entre 181 países. À frente de Israel estão Chile e Arábia Saudita (63º), Argentina (47º) e os Emirados Árabes Unidos (20º). O 83º lugar aprofunda ainda mais uma tendência negativa, depois de Israel ter ocupado o 80º posto em 2023, um dos anos mais difíceis para a segurança das mulheres no país.

O Brasil, aliás, está na 119ª posição.

É importante destacar que o panorama global apresentado pelo índice está longe de ser alentador. Os dados revelam uma realidade mundial em ponto de inflexão negativo, marcada por retrocessos contínuos, aumento da vulnerabilidade das mulheres, polarização crescente e expansão de conflitos. Essas tendências afetam diretamente a segurança pessoal de mulheres e meninas. Conquistas obtidas na década anterior estão retrocedendo, ao mesmo tempo em que a democracia se retrai, mecanismos civis de proteção se enfraquecem e a capacidade de organizações da sociedade civil de influenciar políticas públicas diminui.

Ainda assim, nada disso pode servir como justificativa para a realidade israelense descrita acima. Embora seja essencial melhorar as tendências globais, o dever absoluto e intransferível – antes de tudo do governo – é erradicar a violência contra mulheres, em todas as suas expressões, em todos os setores da sociedade e sem qualquer cálculo político.

Dizer que o governo não coloca a segurança das mulheres no topo de suas prioridades é até um eufemismo. Basta ouvir os debates realizados nos últimos dias na Knesset, que incluíram discussões sobre “evitar contato físico antes do casamento” e alegações de que “o feminismo prejudica as mulheres”, para compreender a dimensão do abismo entre a realidade diária vivida pelas mulheres em Israel e a agenda política atual.

Sem uma mudança profunda de política, não há motivo para acreditar que, neste Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres, estaremos em um lugar mais seguro. A violência contra mulheres não é um destino inevitável, mas uma escolha pública e política – e um governo que decide não enxergar não pode, jamais, alegar que não sabia.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommona

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