Construir pontes em tempos de polarização
O papel institucional das lideranças comunitárias é preservar a autonomia, representar a diversidade e manter diálogo com todos os campos políticos.
Milton Seligman e Eduardo Wurzmann (*)
Os judeus e judias vivem bem no Brasil: com liberdade religiosa, segurança e espaço para expressar sua identidade cultural e suas diferenças internas.
Os primeiros judeus chegaram ao país ainda no período colonial — alguns acompanhando os navegadores portugueses, outros fugindo da Inquisição. Foi, porém, há pouco mais de um século que essa presença se integrou de forma profunda e contínua à sociedade brasileira. Desde então, contribui para o desenvolvimento econômico, a vida acadêmica, a cultura, as causas sociais e o debate público. Essa trajetória é motivo de orgulho — e constitui um patrimônio institucional que precisa ser preservado.
Os judeus e judias do Brasil formam uma coletividade plural.
Plural em suas origens.
Plural nas formas de vivenciar a tradição.
Plural, sobretudo, em suas visões políticas e ideológicas.
Representar essa diversidade é um dos principais desafios das lideranças comunitárias — entendidas aqui como um campo institucional coletivo de representação, e não como a atuação de indivíduos específicos.
O papel dessas lideranças não é uniformizar posições nem falar em nome de uma suposta unanimidade. É preservar um espaço institucional no qual diferentes sensibilidades possam conviver com respeito. Em outras palavras, garantir unidade sem negar a diversidade.
Esse desafio se torna mais complexo em um ambiente político marcado pela polarização.
Hoje, diferentes níveis de governo expressam orientações distintas. Em São Paulo, onde se concentra a maior parte dessa população, predomina uma agenda de direita. No plano federal, governa a esquerda. Esse cenário exige das lideranças equilíbrio, maturidade e, sobretudo, uma postura claramente institucional.
Isso significa não se alinhar a governos, mas dialogar com o Estado — qualquer que seja o governo em exercício.
Esse diálogo, porém, não é simples.
Em setores da direita, observa-se forte apoio a Israel, por vezes associado a leituras religiosas cristãs e a expectativas teológicas que não pertencem à tradição judaica. A aproximação pode ser positiva, desde que preservados a autonomia institucional e o respeito às diferenças.
No campo progressista, o desafio é outro. Parte da esquerda adota interpretações do conflito no Oriente Médio influenciadas por narrativas decoloniais que simplificam ou distorcem a realidade. Ainda assim, o diálogo é necessário — e estratégico.
A coletividade judaica não pode se limitar a dialogar apenas com quem concorda com suas posições, nem pode ser percebida como vinculada a um único campo político.
Seus interesses são institucionais e permanentes: liberdade religiosa, segurança, combate ao antissemitismo, legitimidade de Israel e preservação de um ambiente democrático e plural.
Manter interlocução com diferentes correntes políticas é, portanto, uma forma de proteção. Mas é também uma contribuição ao país: levar ao debate público uma voz equilibrada, informada e comprometida com a convivência democrática.
Em um ambiente polarizado, a pressão por alinhamentos é constante. A tentação de escolher lados é real. Mas o papel das lideranças comunitárias é outro: construir pontes.
Pontes exigem diálogo, paciência e, muitas vezes, disposição para enfrentar críticas e incompreensões.
Nas últimas semanas, o campo institucional das lideranças tem buscado exercer esse papel — ampliando interlocuções, preservando autonomia e evitando a captura por agendas partidárias. Nem sempre esse esforço é compreendido. Em tempos de polarização, moderação pode ser confundida com ambiguidade, e diálogo, com concessão.
Ainda assim, essa é a postura que melhor protege os judeus e judias do Brasil no longo prazo.
A experiência histórica judaica ensina o valor das instituições, da prudência e da capacidade de dialogar com diferentes atores. No Brasil, onde a convivência sempre se deu em um ambiente de abertura e respeito, essa tradição encontra terreno fértil — ainda que hoje mais tensionado.
Em tempos de polarização, quem constrói pontes não apenas evita conflitos desnecessários. Protege essa coletividade. E contribui para fortalecer o próprio ambiente democrático que torna possível sua plena integração.
(*) Os autores são diretores voluntários do Instituto Brasil Israel (IBI)
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
Artigos Relacionados
Entenda a decisão do Supremo que obriga ultraortoxodos a se alistarem
27 de junho de 2024
Daniela Kresch TEL AVIV – Numa decisão histórica, a Suprema Corte de Israel decidiu, por unanimidade, na terça-feira dia 25 de junho, que o governo deve recrutar jovens ultraortodoxos (os haredim) para o serviço militar, uma vez que não existe mais qualquer enquadramento legal para continuar a prática de décadas de conceder isenção ao alistamento […]
A foto da vitória
29 de janeiro de 2025
João Miragaya Duas semanas após o anúncio do cessar-fogo, ainda estamos digerindo o tamanho do evento que nos antecedeu. Foram 15 meses de intensos confrontos após o mais mortal e cruel ataque enfrentado pelo Estado de Israel desde a sua fundação, em 1948. O conflito que se desencadeou posteriormente se afunilou sobretudo na Faixa de […]
Entre o local e o global: uma perspectiva Geopolítica e estratégica sobre a guerra
31 de outubro de 2023
Revital Poleg A guerra com o Hamas já está em sua quarta semana, e o fim ainda não está à vista. Desde o sábado 7 de outubro, quando o Hamas – a brutal organização terrorista – atacou Israel, invadiu seus territórios soberanos e assassinou, violentou, feriu, esquartejou, sequestrou e queimou milhares de civis inocentes – […]