Ainda estamos aqui. E agora? Memória, responsabilidade e o mundo que escolhemos construir
David Diesendruck
O trecho a seguir é conhecido como “Vehi Sheamda” e faz parte da Hagadá de Pessach, recitado durante o Seder de Pessach:
Vehi she’amda la’avoteinu velanu,
shelo echad bilvad amad aleinu lechaloteinu,
ela shebechol dor vador omdim aleinu lechaloteinu,
vehakadosh baruch hu matzileinu miyadam.
“E é isso que nos manteve aos nossos antepassados e a nós.
Pois não foi apenas um que se levantou contra nós para nos destruir,
mas em cada geração se levantam contra nós para nos destruir
e, ainda assim, seguimos.”
Embora tenha origem litúrgica, ele atravessou gerações como uma síntese de algo maior: a repetição de um padrão histórico e a persistência apesar dele.
Em cada geração, histórias são contadas.
Algumas falam de liberdade.
Outras, de medo.
A nossa história carrega as duas coisas.
Não foi apenas uma vez.
Não foi apenas um lugar.
Em diferentes épocas, em diferentes formas, houve momentos em que fomos alvo de tentativas de apagamento como povo, como cultura, como ideia.
E, ainda assim… seguimos.
Mas talvez o mais extraordinário não seja apenas termos sobrevivido.
Como disse Jonathan Sacks, o que transmitimos nesta noite não é apenas dor ou memória é a ideia de que, mesmo em um mundo com violência e crueldade, ainda podemos criar momentos de redenção, gestos que transformam, sinais de algo maior.
A pergunta não é apenas o que enfrentamos.
É o que escolhemos construir apesar disso.
Podemos olhar para a história e ver apenas ameaça. Podemos nos fechar, desconfiar, endurecer. Ou podemos escolher algo mais difícil: não aceitar que o mundo precise ser como ele é.
Porque talvez seja essa a verdadeira herança: não apenas lembrar, mas insistir que o mundo pode ser diferente.
Ao longo de centenas de anos, carregamos uma esperança pequena, frágil até e ainda assim foi essa esperança que nos manteve de pé.
Hoje, quando percebemos sinais de que o ódio ainda encontra espaço, é fácil sentir medo.
Mas talvez valha lembrar também de outro lado da história: nunca tivemos tantas possibilidades de viver, construir e contribuir ao mesmo tempo.
E isso nos coloca diante de uma escolha.
Dentro desta casa, dentro desta família, que tipo de mundo estamos ajudando a criar?
Um mundo onde o medo decide por nós?
Ou um mundo onde a dignidade ainda tem espaço?
Quando ouvimos palavras que desumanizam contra judeus ou contra qualquer pessoa como escolhemos responder? Permanecemos em silêncio ou buscamos não tratar isso como algo normal?
“Em cada geração…”
Talvez isso não seja apenas um aviso. Talvez seja um chamado.
Um chamado para continuar uma história que nunca foi apenas sobre sobreviver, mas sobre insistir em viver com sentido, em buscar liberdade e em defender a dignidade humana.
Porque no fim, a história não é apenas algo que herdamos.
É algo que continuamos a escrever, juntos.
Chag Sameach!
Perguntas para reflexão em família:
Sobre o presente
– Quando ouvimos falar de antissemitismo hoje, que sentimentos aparecem primeiro em nós? Eles mudam dependendo do contexto?
– Houve algum momento recente que nos causou desconforto ou dúvida, mesmo que não soubéssemos exatamente como interpretar?
Sobre responsabilidade individual
– Já houve situações em que percebemos algo problemático, mas não tivemos clareza sobre como reagir?
– No nosso dia a dia, o que pode significar de forma concreta não tratar um discurso desumanizante como algo normal?
Sobre visão de mundo
– Como podemos estar atentos aos riscos sem deixar que tudo ao redor pareça ameaça?
– De que forma a memória histórica pode conviver com abertura para o outro?
Sobre relações e sociedade
– Que tipos de relações ajudam a criar mais confiança entre pessoas diferentes?
– O que, na prática, contribui para que diferenças não se transformem automaticamente em distância ou desconfiança?
Sobre a família
– Que valores queremos que as próximas gerações desta família levem consigo?
– O que, dentro da nossa casa, já contribui mesmo que de forma simples para reforçar dignidade, respeito e responsabilidade?
Para encerrar
– Se “em cada geração” existem desafios… o que gostaríamos de fortalecer na nossa?
Imagem por Tamara Crespin
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