A montanha-russa de lembrar dos mortos e celebrar a Independência
Daniela KreschDaniela Kresch
TEL AVIV – Todos os anos, Israel vive, entre abril e maio, o que poderíamos chamar de sua “semana santa” secular. É um período de montanha-russa emocional, uma coreografia nacional que leva os israelenses do abismo da dor à euforia da sobrevivência em questão de dias ou mesmo horas. Para quem olha de fora, pode parecer contraditório. Para quem vive aqui, é o resumo da existência deste país.
Tudo começa com o Yom HaShoá (Dia do Holocausto) que, este ano (2026), caiu no dia 14 de abril. Diferentemente do resto do mundo, que lembra do Holocausto em 27 de janeiro, dia da libertação de Auschwitz, Israel escolheu o aniversário da Revolta do Gueto de Varsóvia para marcar a data. A mensagem é clara: não lembramos apenas das vítimas, mas da bravura de quem lutou contra a máquina de morte nazista. É justamente por isso que o nome completo da data é Yom Hashoá Ve-HaGvurá: Dia do Holocausto e do Heroísmo.
Nesse dia, às 10h da manhã, uma sirene soa por um minuto e o país congela. Carros param no meio das rodovias, pedestres estancam nas calçadas. É o momento de honrar os seis milhões que morreram na Segunda Guerra Mundial. É um silêncio que grita, lembrando da fragilidade das comunidades judaicas antes da criação do Estado de Israel. As TVs e rádios transmitem uma programação especial com documentários, filmes e entrevistas com sobreviventes. E, cada vez mais pessoas e empresas aderem à iniciativa “Zikaron BaSalon” (Memóra na Sala), convidando sobreviventes e descendentes a contarem suas histórias em casas e escritórios.
Exatamente uma semana depois, Israel marca o Yom HaZikaron (Dia da Memória dos Soldados Caídos nas Guerras de Israel e Vítimas de Ações Terroristas), outra data sombria do calendário nacional. Nesse dia, o luto não é estatística; é vizinho, é irmão, é filho. Este ano, o Dia da Lembrança começa ao anoitecer do dia 21 de abril. Nesse dia, são lembrados os mortos – civis e militares – que deram as vidas pelo Estado de Israel. Outra sirene de 1 minuto soará às 20h para marcar o começo do Dia da Lembrança – os dias judaicos, como se sabe, começam ao anoitecer. E outra sirene, essa de 2 minutos, é acionada na manhã seguinte, às 10h.
No momento em que escrevo estas linhas, há um cessar-fogo nas duas guerras paralelas que os israelenses viveram este ano, desde 28 de fevereiro: uma contra o Irã e outra contra o Líbano. Então, depois de um mês e meio de milhares de sirenes constantes alertando para ataques aéreas com mísseis, foguetes e drones, fica difícil explicar para as crianças – e até alguns adultos – que as sirenes do Yom Hashoá e do Yom HaZikaron são diferentes. Não se trata de mísseis perigosos e sim de um momento de silêncio e introspecção.
O Comando da Defesa Civil precisa explicar que se o barulho da sirene for constante, é memória: você fica parado. Se a sirene oscilar como num barulho de ambulância, é perigo: você tem que correr para o bunker antiaéreo. Nada mais resume o que é viver em Israel, uma realidade onde o passado e o presente se confundem.
Os números de 2026 dão conta de que 25.644 soldados e oficiais morreram em serviço até hoje. Só nos últimos 12 meses, 170 soldados se juntaram a essa lista. O luto civil também é dolorido. Desde o trauma de 7 de outubro de 2023, o número de vítimas civis subiu drasticamente: foram 1.017 assassinados naquele dia e na guerra que se seguiu. Somente no último ano, 79 civis perderam a vida, muitos durante as tensões diretas com o Irã.
A contagem, na verdade, começa quase 100 anos antes de 1948. Começa em 1860, princípio das migrações modernas de judeus de todo o mundo para a região da então Palestina sob controle otomano. Uma migração motivada por perseguições a judeus tanto na Europa quanto no Norte da África e Oriente Médio e pelos movimentos nacionais de autodeterminação de povos que pipocavam desde o fim do século 18. Migrações que começaram antes mesmo de o movimento sionista (autodeterminação nacional dos judeus) ganhar nome oficial.
Outro exemplo do paradoxo israelense é o que acontece ao anoitecer do Yom HaZikaron, quando esse dia de lembrança termina. Ao pôr do sol, sem intervalo para respirar, o luto dá lugar à festa. É o Yom HaAtzmaut, o Dia da Independência. É uma passagem simbólica: só celebra-se a independência do Estado porque houve quem se sacrificasse por ele. Este ano, o Yom HaAtzmaut começa ao anoitecer do dia 21 e termina ao anoitecer do dia 22.
No Monte Herzl, em Jerusalém, 12 tochas são acesas por cidadãos que fizeram a diferença (ou, no caso deste ano, os que a ministra Miri Regev acredita que merecem). A cerimônia, que também conta com cantores famosos e uma parada de bandeiras que formam símbolos diversos, é, em geral, transmitida ao vivo pela mídia. Este ano, no entanto, não está claro se acontecerá mesmo ao vivo por causa das ameaças de mísseis. Neste momento, devido ao cessar-fogo com o Irã e com o Líbano, a Defesa Civil relaxou as orientações de segurança e liberou a realização de cerimônias ao ar livre com público. Mas tudo é fluido e pode mudar.
Pela primeira vez desde 2023, a Independência será celebrada sem o peso dos reféns em Gaza, uma ferida que sangrou por muito tempo. Mas as feridas das recentes guerras ainda estão abertas. Ao que tudo indica, sem o perigo de ataques aéreos – pelo menos por agora –, o público poderá manter a tradição de fazer piqueniques em parques ou assistir a shows gratuitos com importantes cantores nacionais em praças das grandes cidades do país. Não tenho certeza, no entanto, de que esses shows aconteçam este ano porque várias prefeituras já os haviam cancelado antes do cessar-fogo. Também não sei se acontecerá o tradicional show aéreo com aviões militares que costumam criar formações nos céus do país.
Apesar da promessa de um Dia da Independência sem bombas, nem tudo é celebração unânime. A política, como sempre, se infiltra no “sagrado”. Ainda lembramos das tensões de anos anteriores, quando o governo tentou “blindar” as cerimônias contra protestos, ou quando famílias enlutadas pediram que políticos não discursassem nos cemitérios. Este ano, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deve tentar usar as cerimônias oficiais como palanques de campanha. Afinal, estamos em ano eleitoral. Ele tentará convencer os cidadãos de que “venceu” as guerras, algo que os cada vez mais numerosos céticos não concordarão.
Há também quem tente construir pontes. Cerimônias conjuntas entre israelenses e palestinos, tentando equilibrar a Independência com a Nakba (“Catástrofe”, como os palestinos chamam a criação de Israel), ainda ocorrem em Tel Aviv e Jericó, mas o clima de 2026 mostra que esse diálogo está cada vez mais difícil e frágil.
No final das contas, este mês de datas nacionais é o espelho de Israel: um país que não esquece seus mortos – os de antes e os de agora –, mas que, ao primeiro sinal de celebração, corre para as ruas para festejar o milagre de sua existência.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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