A casa ainda não caiu
22 abr 26

A casa ainda não caiu

João Miragaya

João Miragaya

Os judeus construíram, na antiguidade, dois Templos Sagrados no Monte Moriá, em Jerusalém. O primeiro foi supostamente erguido pelo Rei Salomão, no século X AEC. Este templo teria sido destruído pelos babilônios em 536 AEC, no contexto da conquista do reino de Judá e da expulsão dos judeus para a Babilônia. O segundo teria sido levantado por Zorobabel, em 516 AEC, e reformado pelo rei Herodes, nos últimos anos do século I AEC. O Segundo Templo foi destruído e saqueado pelo general romano Tito, no ano 70, no contexto da Primeira Revolta Judaica (66-73). Os templos representavam não só o lugar de sacrifício religioso, mas também a centralidade política judaica em Jerusalém, local para onde os judeus deveriam peregrinar pelo menos em uma das três principais festas do ano (Pessach, Shavuot e Sucot). Estes eventos marcavam o encontro de judeus, já dispersos por territórios que iam desde Roma até a Pérsia – embora a maior parte ainda vivesse na Terra de Israel. As duas destruições representaram eventos traumáticos para o povo judeu, que além de perder seu elemento unificador religioso, eram afastados de sua casa.

Em hebraico, Templo Sagrado se diz Beit HaMikdash (בית המקדש – Casa do Sagrado). Judeus se referem aos dois templos como Bait Rishon e Bait Sheni (Primeira Casa e Segunda Casa), e a expressão usada para “Destruição do Templo” é Chorban Bait (Destruição Total da Casa). A destruição dos dois templos é recordada no dia 9 do mês de Av do calendário judaico, através de um jejum de um dia inteiro, repleto de lamentações e rezas melancólicas. Mais do que a destruição de um santuário religioso, esse dia simboliza as duas vezes em que a nação judaica desapossou-se da soberania sobre a sua terra. Não seria um exagero dizer que, até o Holocausto, esses eram os dois eventos de maior impacto traumático sobre o povo judeu de forma geral.

No dia 5 do mês judaico de Iyar de 1948, o presidente da Agência Judaica para Israel, David Ben Gurion, declarou a independência do Estado de Israel. Pela primeira vez, após quase dois mil anos, o povo judeu seria novamente soberano na sua terra. Talvez por tratar-se de um movimento majoritariamente laico, talvez pelo fato de a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha (dois santuários sagrados para os muçulmanos) estarem construídos no Monte Moriá, o movimento sionista jamais demonstrou qualquer interesse na construção do Terceiro Templo Sagrado. Salvo para grupos extremistas minúsculos e por ora sem grande relevância, considera-se que não há necessidade da construção da Terceira Casa: ela já está materializada no Estado de Israel.

Isso é tão claro, que a expressão Chorban Bait Shlishi (Destruição Total da Terceira Casa) é comumente usada no país. Nos dias que antecederam a Guerra dos Seis Dias, por exemplo, era esperado que 40 mil israelenses fossem mortos na conflagração. O então chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Isaac Rabin, encontrou-se com o ex-premiê David Ben-Gurion, para aconselhar-se sobre que estratégia adotar na guerra. Ben-Gurion teria dito a Rabin que o ataque seria uma loucura, e que uma derrota nessa aventura ocasionaria na destruição da Terceira Casa. Não foram raros os casos, na curta história de Israel, em que grupos, geralmente de oposição, evocam essa expressão quando temem – ou desejam que a população tema – ações do governo. O trauma da dupla destruição da casa segue vivo na memória coletiva do povo judeu, e, como toda memória, é ressignificada pelo presente, frequentemente com uso político.

Nos últimos três anos, essa expressão tem sido habitual da oposição liberal ao governo Netanyahu. A subida ao poder de elementos da extrema-direita messiânica, que até pouco tempo atrás não passavam de personagens do submundo do crime e das páginas policiais, eram os primeiros indícios da crise que estava por vir. Em seguida veio a reforma judicial, cujo objetivo é a destruição das instituições democráticas do país, sobretudo do sistema judiciário. Por fim, Israel mostrou-se vulnerável ao ataque de inimigos, como no dia 7 de outubro de 2023, e descambou para um espiral de violência e guerras, que corroem as bases da sociedade, fragilizam a economia e abalam a posição do país na comunidade internacional. O último evento, um ataque ao Irã com objetivos impossíveis de serem alcançados militarmente, parece ter empurrado a República Islâmica para mais perto das armas nucleares do que nunca, além de ter afetado negativamente a economia e a segurança do mundo inteiro. Em três anos, pela primeira vez desde os difíceis anos 1950, mais judeus deixaram o país do que optaram por viver aqui.

Nesta quarta-feira, celebram-se no calendário judaico os 78 anos de independência do Estado de Israel. Segundo o Talmud, a Primeira Casa caiu por idolatria, a Segunda ruiu por ódio gratuito. Para não refletir sobre mais uma explicação espiritual de um novo trauma coletivo, a população de Israel precisa mudar os rumos do país. Imediatamente.

João Miragaya é assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel Aviv

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

 

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