FECHAMENTO DA SOCHNUT NA RÚSSIA PODE AZEDAR RELAÇÃO BILATERAL
Daniela Kresch
TEL AVIV – A Rússia parece ter decidido banir a Agência Judaica (a Sochnut) de seu território. O Ministério da Justiça russo apresentou uma moção para fechar os escritórios da agência alegando que a organização israelense violou leis de privacidade locais, coletando informações ilicitamente sobre cidadãos russos. O que está por trás dessa possível – e estranha – petição?
A medida parece ser uma espécie de retaliação russa ao apoio de Israel à Ucrânia. Afinal, depois de muito hesitar (e eu já expliquei os motivos neste espaço), Israel se colocou claramente do lado ucraniano da guerra, há alguns meses. O maior porta-voz das críticas israelenses aos russos sempre foi o ex-chanceler e agora primeiro-ministro Yair Lapid. E foi justamente depois que Lapid assumiu o cargo – temporariamente até a formação de um novo governo após as eleições de 1º novembro – é que os russos decidiram fazer essa ameaça.
Israel exercitou uma espécie de “good cop/bad cop” com essa questão da guerra da Ucrânia. Assim que os russos invadiram o país, o ex-premiê Naftali Bennett adotou uma posição quase neutra. Já o ex-chanceler Lapid emitiu comunicados críticos a Moscou. Foi uma combinação entre os dois: Bennett não melindraria os russos e Lapid, os americanos.
Mas, para Vladimir Putin, Lapid se tornou o malvado da história. Agora, que é o premiê, tem tido que lidar com a vingança de Putin. De repente, os russos se mostram incomodados com as constantes ações da Força Aérea de Israel na Síria contra posições militares iranianas – algo que acontece já há anos e que os russos há tempos acobertam.
Mas, de repente, a Justiça russa vem com essa ideia de fechar a Sochnut. Podemos imaginar que a decisão não é apenas algo jurídico. Israel até teve essa ilusão e decidiu enviar uma delegação de diplomatas e juristas à Rússia para ajudar na defesa da Sochnut na primeira audiência sobre o assunto numa corte em Moscou, em 29 de julho. Mas eles passaram 5 dias sem conseguir vistos para a viagem, o que acendeu uma luz vermelha. Conseguiram partir horas antes. Aliás, a decisão da audiência foi discutir o assunto de novo no dia 19 de agosto.
O Ministério da Justiça da Rússia realmente tem agido contra organizações estrangeiras e grupos de direitos humanos locais ou internacionais. Mas, no caso da Sochnut, parece que a questão é mais complicada.
Talvez Putin esteja incomodado com a onda de aliá entre os judeus russos. Desde o começo da guerra, cerca de 20 mil judeus russos emigraram para Israel. É a maior onda de aliá da Rússia desde o fim da União Soviética, há 30 anos. Há quem diga que o número chega mais próximo a 30 mil.
A Agência Judaica foi fundada em 1929 (há 93 anos) para ajudar famílias judias a emigrar para Israel, inclusive organizando viagens e pagando passagens aéreas. A organização é ligada ao governo de Israel. Na Rússia, ela começou a trabalhar em 1989 e, desde então, mais de 1,5 milhão de judeus russos emigraram para Israel com sua assistência.
Atualmente, há cerca de 180 mil judeus na Rússia. Mas, no total, 600.000 russos são elegíveis para emigrar para Israel. Isso porque, pela Lei do Retorno, Israel também aceita os filhos e netos de judeus, mesmo não sendo eles mesmos judeus. Há muito temor de um aumento no antissemitismo. Rabinos locais afirmam que há uma grande pressão para que líderes religiosos apoiem a guerra.
O temor é que Putin erga uma nova “cortina de ferro” e proíba seus cidadãos de deixar a Rússia. Os judeus russos não são os únicos a fugir da Rússia, neste momento. Mas é fácil apontar coletivamente a Agência Judaica – que ajuda potenciais olim a imigrar para Israel – como vilã, neste momento, em maio à onda nacionalista que varre a Rússia. Os russos temem uma “fuga de cérebros” e acusam Israel de incitar a imigração dos judeus mais capazes.
Se o fechamento da Sochnut na Rússia se concretizar, a relação entre Israel e Moscou pode azedar de vez. E isso pode ter implicações graves para Israel no Oriente Médio, além de colocar em perigo os judeus russos. É um assunto grave no qual estão todos de olho.
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