Netanyahu e a realidade paralela da retirada de Gaza
06 mar 23

Netanyahu e a realidade paralela da retirada de Gaza

Daniela Kresch

TEL AVIV – Em seu discurso logo após as grandes manifestações nas ruas de todo o país na quarta-feira, 1º de março de 2023, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu colocou ainda mais lenha na fogueira. Os protestos, apoiados por boa parte dos israelenses, são contrários à reforma judicial que ele e seus ministros querem aprovar a toque de caixa para enfraquecer a Suprema Corte.

Além de ofender os manifestantes, comparando-os com os colonos que vandalizaram o vilarejo palestino de Hawara, em 26 de fevereiro, Netanyahu tentou fazer uma comparação tosca entre o que acontece neste momento e o que ocorreu antes e durante a Retirada de Gaza (Disengagement, em inglês, numa tradução melhor do hebraico), em 2005, quando Israel retirou 9 mil colonos israelenses de 21 colônias em Gaza, acabando com a ocupação por lá, e 4 no Norte da Cisjordânia.

Netanyahu afirmou que, em 2005, os israelenses que eram contrários à Retirada fizeram uma “oposição responsável” ao então premiê Ariel Sharon. Segundo ele, os opositores ao fim a ocupação israelense em Gaza não foram violentos, não fecharam ruas em protestos, não pregaram que soldados desertassem do exército ou que reservistas deixassem de se apresentar para o serviço militar quando chamados… Abaixo, o que Netanyahu disse, em discurso em cadeia nacional:

“Na época (da Retirada de Gaza), os manifestantes não bateram em policiais, não pregaram uma revolta popular, não incentivaram “sarvanut” (recusa de soldados ou reservistas em servir no exército ou obedecer a ordens de comandantes), não tiraram o seu dinheiro do país, (…) não falaram mal de Israel pelo mundo. Os líderes da oposição de então, eu entre eles, não incentivamos a ‘sarvanut’, não pregamos greves, não incitamos fechamentos de ruas, não tentamos levar o país à anarquia. Não cruzamos a linha vermelha”, disse Netanyahu.

Eu não acreditei em meus ouvidos ao escutar essas palavras de Netanyahu. Será que, menos de 18 anos após a Retirada de Gaza (em agosto de 2005), é possível simplesmente mentir sobre o passado? Quanta “chutzpah”, quanta cara-de-pau. Mesmo no mundo das fake news e das “verdades alternativas”, me pareceu absurdo.

Eu estava em Israel em 2005. Não só estava por aqui: eu estava na Faixa de Gaza no momento da Retirada. Eu estava em Gush Katif (Gaza) e em Homesh (Norte da Cisjordânia). Fui testemunha ocular. Antes da retirada em si dos colonos, houve meses de protestos contra o governo Sharon, que levou adiante o fim da ocupação de Gaza. Eu fui a vários desses protestos. Também entrevistei muita gente, assisti muitos programas de TV e escutei inúmeros programas de rádio.

Foto: Daniela Kresch

Não, não houve uma oposição “responsável”. Os manifestantes pró-colonos foram, por vezes, violentos. Eles bloquearam estradas e ruas por todo o país, atrapalhando o dia a dia de muita gente (algo que, hoje, eles reclamam dos protestos pró-democracia). Eles enfrentaram e atacaram soldados fisicamente e emocionalmente e, acima de tudo, pregaram que soldados e reservistas que eram contra a Retirada desobedecessem comandantes, se negassem a cumprir ordens.

Alguns exemplos:

  • Em 25 de julho de 2004, ocorreu uma “corrente humana”, uma manifestação de dezenas de milhares para protestar contra o plano. Os manifestantes formaram uma corrente humana de Nisanit (mais tarde mudou-se para Erez Crossing por questões de segurança) na Faixa de Gaza até o Muro das Lamentações em Jerusalém, a uma distância de 90 km.
  • Em 14 de outubro de 2004, 100 mil israelenses marcharam em cidades de Israel para protestar contra o plano sob o slogan “100 cidades apóiam Gush Katif e Samaria”.
  • Em 6 de janeiro de 2005, um grupo de 34 oficiais da reserva do Exército israelense – todos moradores de assentamentos nos territórios ocupados – ameaçou, em carta aberta publicada no jornal Yedioth Ahronoth, desobedecer às ordens do primeiro-ministro Ariel Sharon para que atuem na retirada dos 21 assentamentos da Faixa de Gaza e de 4 da Cisjordânia. 
  • Em 16 de maio de 2005, um protesto foi realizado em todo o país, com os manifestantes bloqueando as principais artérias de tráfego em Israel. Mais de 40 cruzamentos em todo o país foram bloqueados. O protesto foi saudado por eles como um sucesso pelos organizadores, com mais de 400 manifestantes detidos, metade deles menores de idade.

Minhas matérias da época também refletiam o que os colonos e seus apoiadores fizeram contra os soldados que estavam cumprindo ordens para retirar os 9 mil colonos dos assentamentos em Gaza e do Norte da Cisjordânia:

14 de agosto de 2005, no Estadão: “Em Kfar Darom, centenas de adolescentes se apossaram do telhado da sinagoga local, que cercaram com arame-farpado. Nas imagens mais violentas até agora do processo de evacuação de colonos da Faixa de Gaza, eles atacaram sem piedade os soldados que, armados de capacetes e escudos, tentavam subir para retirá-los do local. Cerca de 45 pessoas ficaram feridas no episódio, transmitido ao vivo por todas as televisões e rádios israelenses (e por muitas redes internacionais), sendo 27 policiais, 14 manifestantes e 3 soldados.

24 de agosto de 2005, no Estadão: “Uma mãe, histérica, não consegue conter a raiva e o desespero e grita com soldados que batem à sua porta para retirá-la da colônia de Katif, na Faixa de Gaza. Aos berros, ela olha para a câmera: ‘Quando você crescer, você não vai ser um soldado que expulsar judeus de suas casas, ouviu!?’”

Como se pode ver, o clima de revolta era tenso e havia animosidade no ar. Mas, havia uma grande diferença: duas semanas antes da data do início da Retirada, em 2005, uma pesquisa de opinião realizada pela Universidade de Tel Aviv informou que 57% dos judeus em Israel e 60% do público como um todo apoiavam a saída de Gaza. Os opositores eram 34%. Quer dizer: a grande maioria dos israelenses apoiava que Israel se retirasse da Faixa de Gaza.

Hoje, o mesmo percentual (cerca de 60%) é contra a reforma judicial antidemocrática do governo Netanyahu. Quer dizer: a maioria do povo não quer essa reforma, não quer enfraquecer o Supremo e a democracia.  Netanyahu parece fazer questão de ignorar isso. Ignorar que, em 2005, os israelenses apoiavam o fim da ocupação de Gaza (por diversos motivos) e, em 2023, os israelenses não apoiam a reforma que ele quer fazer. Ele quer pisar em cima da maioria para levar a cabo seu plano.

Netanyahu usa a Retirada de Gaza para fazer comparações. Primeiro, não se pode comparar a retirada de assentamentos com o fim da democracia em Israel. Mas, se ignorássemos esse “detalhe”, só seria uma comparação válida caso tivesse ocorrido à revelia da minoria dos israelenses. Não foi assim. Atualmente, a reforma judicial está sendo feita à revelia da maioria dos israelenses. Ele sabe disso. Mas usa fake news e narrativas alternativas para se justificar e inflamar seu público.

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