Manifestação a favor da reforma e volta da Knesset: o que Netanyahu de fato quer?
Por Revital Poleg
Embora não fosse uma manifestação de um milhão de participantes, conforme esperavam os organizadores, foi, sem dúvida, uma manifestação enorme e muito significativa em apoio à reforma judicial. Enquanto apoio totalmente o direito dos partidários da revolução de se manifestarem, nem tudo o que aconteceu lá foi legítimo. Um pouco depois da manifestação, e um pouco antes do início da nova sessão do Knesset, há um ponto de interrogação pairando sobre nossas cabeças: para onde tudo isso nos leva e o que Netanyahu de fato quer?
Permitam-me compartilhar com vocês alguns pensamentos:
Netanyahu não participou da manifestação. Embora, segundo os relatos, ele estava bem interessado em fazê-lo. Seus consultores recomendaram que ele não comparecesse, argumentando que tal ação exigia amplas medidas de segurança, que incomodariam os participantes.
A meu ver, esse não é o motivo principal para sua ausência na manifestação. Sendo bastante sensível ao dano causado à sua imagem pública global, e já que é importante para ele ser considerado de novo como um líder responsável e prudente, ele preferiu evitar as imagens que apareceriam na mídia mundial, nas quais ele estaria discursando diante uma multidão entusiasmada e pedindo seu apoio na reforma. Ele preferiu que “outra pessoa” fizesse isso. Mas até mesmo isso tem um preço.
Netanyahu esperava que a manifestação constituísse uma mostra de apoio a ele e ao governo, e que concedesse legitimidade pública à revolução que está liderando. Levando em consideração o declínio evidente no apoio do seu próprio público quanto a todos esses três componentes, tal como refletido repetidamente nas pesquisas das últimas semanas, essa manifestação era ainda mais importante do que nunca. Na prática, ela se tornou principalmente uma grande demonstração de pressão massiva sobre ele pessoalmente para não parar a revolução.
Era essa a mensagem principal que Netanyahu esperava?
Por um lado, sim, pois dessa forma ele pode (ou supostamente, é “obrigado a”) justificar publicamente a continuação da reforma.
Por outro lado, há motivos para supor que Netanyahu não queria ouvir os gritos dirigidos a ele, como “Bibi, pare de ter medo! Bibi, pare de se dobrar” e “Não queremos um compromisso”. Essas declarações o apresentam como um homem fraco, de uma forma que pode reduzir sua margem de manobra entre seus próprios apoiadores. Além disso, sendo o líder do partido e do governo, e sempre tomando cuidado para não permitir que ninguém o ofusque, Netanyahu certamente não ficou feliz com a enorme atenção e destaque que Yariv Levin, ministro da Justiça, ganhou, ainda mais em um evento que ficará marcado na história de seu governo e partido, ao qual ele mesmo sequer compareceu.
O discurso de Yariv Levin foi um dos discursos mais incendiários já ouvidos contra o sistema judiciário israelense – chama ainda mais atenção por vir do próprio ministro responsável por ele. A ausência de Netanyahu foi uma oportunidade de ouro para Levin “roubar o show” e também para prejudicar deliberadamente as negociações realizadas sob os auspícios do presidente Herzog. Usando palavras duras, ele se concentrou na deslegitimação do sistema judiciário com a esperança de eventualmente desmantelá-lo como uma autoridade independente.
Levin não ficou satisfeito com isso e afirmou que “a Corte Suprema protege os vizinhos terroristas, e não a vida dos soldados” e que “precisamos de um tribunal que castigue os estupradores e não procure formas de facilitar a vida deles”. Uma série de declarações populistas, incitadoras e totalmente falsas.
Não é surpreendente, portanto, que em um local onde tais palavras foram ditas, tenham sido vistas cenas chocantes de multidões de manifestantes pisando em uma enorme banner com imagens dos juízes da Suprema Corte e da consultora jurídica do governo. Cenas que, infelizmente, nos fazem lembrar de outros países.
No final da manifestação, Netanyahu tuitou: “Fiquei profundamente emocionado com o enorme apoio do campo nacional que veio em massa a Jerusalém esta noite. Todos nós, os 64 mandatos que trouxeram a vitória, somos cidadãos de primeira classe!”. E a revolução? Ele não a mencionou, nem sequer em uma palavra. Como sempre no caso de Netanyahu, não foi por acaso.
Então, o que ele de fato quer? Netanyahu, como sempre, usa a tática de “dividir para governar”, que já usou no passado e continua usando agora também. A cada passo que ele dá, é preciso perguntar o “porquê” e verificar qual é o lado oposto e quais são seus interesses e benefícios, pois isso será muito útil para entender sua conduta.
Fica claro para ele que não pode abrir mão da continuação da reforma judicial, porque isso serve às suas necessidades pessoais e ao julgamento que paira sobre sua cabeça. Por isso, ele quer a reforma e precisa dela.
Por outro lado, ele entende que uma corrida legislativa, tal como foi na sessão anterior da Knesset, prejudica a ele e a sua imagem no mundo e intensifica o protesto contra ele. Ele sabe muito bem, conforme foi expressado na manifestação a favor da reforma, que sua coalizão deseja “reformar agora” e que os elementos extremistas nela presentes ficarão de guarda contra qualquer tentativa de moderar o processo, tanto no ritmo quanto no conteúdo. Esses são apenas alguns dos desafios que ele enfrenta, que são opostos entre si.
Mas, acima de tudo, e por mais surpreendente que possa parecer, ele está bem ciente de que o perigo tangível para ele é o protesto civil contra a reforma, que não vai desaparecer e que ameaça o futuro político de Netanyahu, o futuro que ele mais deseja. A tática que ele geralmente aplica, de dividir para reinar, talvez não o ajude neste caso.
A meu ver, enquanto Netanyahu tentar separar, dividir e enfraquecer o público que protesta, o que não representa uma única linha política, mas sim uma ampla gama de posições e afiliações sociais, mais ele perderá.
Netanyahu pode descobrir que o lucro que obterá com as ações dessa natureza será muito menor do que a perda, e o preço que terá de pagar será muito mais alto. O beneficiário disso, no final das contas, será o Estado de Israel.
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