Roger Water é antissemita? Até colegas do Pink Floyd acham que sim
Daniela KreschDaniela Kresch
TEL AVIV – Com os cabelos brancos descabelados e olhar esbugalhado, o homem idoso olha diretamente para a tela, com dedo em riste, e diz: “É o que os ladrões de corpos estão fazendo agora, mas, normalmente, eles me chamam apenas de an-tis-se-mi-ta!” A última palavra é gritada lentamente, enquanto os olhos se abrem ainda mais e o dedo aponta para a tela. Os cabelos e olhar enlouquecido pertencem a Roger Waters, 79 anos, o lendário músico e compositor britânico, ex-membro da icônica banda de rock Pink Floyd.
No vídeo, Roger Waters tenta dizer que não é antissemita, acusação que já grudou no músico após tantos exemplos de comportamentos esquisitos. Recentemente, no dia 17 de maio, o cofundador do Pink Floyd vestiu um uniforme de estilo nazista para subir no palco de um show em Berlim. Isso levou a polícia alemã a iniciar uma investigação sobre o músico. Usar sobretudo preto com braçadeiras vermelhas um emblema parecido com uma suástica, mirando uma imitação de metralhadora na plateia não é algo aceitável na Alemanha.
Ele alega que se tratou de uma encenação com iconografia semelhante à do filme “The Wall”, de 1979. Realmente, ele usa esse “uniforme” em shows há anos. Waters diz tratar-se de uma crítica ao fascismo, não uma incitação. Mas as autoridades alemãs não acharam nada engraçado.
Ainda me lembro do impacto que causou em mim o disco “The Wall” quando ouvi pela primeira vez, por volta dos 14 anos. Ainda adoro músicas como “Hey You” e “Comfortably Numb”. Não é à toa que adolescentes se identificam até hoje com a mensagem do “The Wall”: o sistema quer te engolir, você é apenas “mais um tijolo no muro”. Os jovens buscam sua identidade e se sentem oprimidos pela sociedade, que exige tanto deles. Mas, da insegurança adolescentes para teorias conspiratórias e verborragia antissemita parece ter sido um pulo para Waters.
Embora Waters tenha feito contribuições significativas para o mundo da música, suas opiniões sobre Israel e declarações antissemitas geram controvérsia há anos. É verdade que ele é um crítico ativo do que ele imagina serem as políticas do governo israelense em relação aos palestinos. Ele chama a ocupação israelense da Cisjordânia de apartheid, promove o movimento BDS, de boicote a Israel, e faz campanha ativa para nenhum que colega música se apresente em Israel.
Mas a pergunta é: até que ponto uma honrosa busca por direitos humanos cruza a linha do preconceito e da obsessão?
É difícil explicar para alguns a ojeriza que a maioria dos israelenses e muitos judeus da diáspora sentem por Roger Waters. Isso porque ele parece estar do lado certo da História em muitas ocasiões, como quando, em 2018, Waters incluiu o então candidato presidencial brasileiro Jair Bolsonaro em uma lista de “neofascistas” exibida em uma tela grande em seu show em São Paulo. No show do Rio, ele homenageou Marielle Franco e trouxe sua filha, irmã e viúva ao palco.
Mas nem sempre uma pessoa está certa em tudo. Um exemplo: Roger Waters defende veementemente a Rússia na guerra com a Ucrânia. Após a invasão da Ucrânia, ele disse que o presidente dos EUA, Joe Biden, era um “criminoso” que estaria “alimentando o fogo na Ucrânia” e que a Rússia estava apenas respondendo a provocações da OTAN. Imagino que, diante de algumas falas do presidente Lula, tem gente que concorde com ele. Mas não é a maioria.
Às vezes, a obsessão por um tema leva a crenças em teorias conspiratórias e a uma cegueira inexplicável. No caso de Roger Waters, há indícios de que ele se deixou levar pela mais antiga e básica teoria conspiratória: o antissemitismo clássico. Aquele antissemitismo que vê os judeus como uma elite inescrupulosa que controla o mundo como num teatro de marionetes – são os banqueiros gananciosos que controlam o dinheiro, os agiotas, os maldosos. É o antissemitismo dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, do partido nazista e de Kanye West.
Aliás, os companheiros de Waters do Pink Floyd também acreditam que ele cruzou o limite do antissemitismo. Polly Samson, esposa de David Gilmour, também membro do Pink Floyd, escreveu, em 6 de fevereiro de 2023: “Infelizmente, você é antissemita em seu núcleo podre. Também um apologista de Putin e um impostor mentiroso, ladrão e hipócrita, sonegador, dublador, misógino, doente de inveja, megalomaníaco. Basta de suas bobagens”. Gilmour compartilhou o tweet de sua esposa e escreveu: “Cada palavra é comprovadamente verdadeira”.
É nesse sentido que listo abaixo alguns indícios do antissemitismo de Roger Waters:
- Em seus shows, Waters usa um balão em forma de porco com símbolos nazistas, estrelas de Davi e cifrões desenhados. Isso perpetua estereótipos judaicos nocivos por meio de seu uso de imagens e simbolismo.
- Waters disse que o tratamento israelense aos palestinos é igual ao da Alemanha nazista aos judeus: “Os paralelos com o que aconteceu na década de 1930 na Alemanha são óbvios”. Digo sem hesitação que não se pode comparar um genocídio sistemático de 6 milhões de pessoas inocentes (judeus, ciganos, homossexuais…) a um conflito territorial entre dois povos, terrível como seja – e do qual Israel não está isento de críticas.
- O músico afirmou que, nos Estados Unidos, “o lobby judeu é extraordinariamente poderoso aqui e particularmente na indústria em que trabalho, a indústria da música”. Ele narrou o documentário “The Occupation of the American Mind: Israel’s Public Relations War in the United States” (2016), sobre os supostos métodos usados por Israel para moldar a opinião pública americana.
- Em 2020, Waters disse que o assassinato de George Floyd foi realizado com uma técnica desenvolvida pelo exército de Israel. Ele disse que os americanos estudaram a técnica para aprender “como assassinar os negros porque viram como os israelenses foram eficientes em assassinar palestinos nos territórios ocupados usando essas técnicas” e que “os israelenses têm orgulho disso”.
- Ele disse que “o sionismo é uma mancha feia e que precisa ser gentilmente removido por nós”. Disso isso numa entrevista dada a um canal de TV afiliado ao grupo terrorista Hamas em junho de 2020.
- Só para esclarecer: Waters destaca Israel enquanto ignorava os abusos dos direitos humanos em outras partes do mundo.
- Ah, ele já comparou israelenses a alienígenas.
No show em Berlim, agora investigado pelos alemães, Roger Waters também fez uma comparação entre Anne Frank – a menina judia de 15 anos morta pelos nazistas depois de ficar escondida por dois anos num sótão em Amsterdam – com Shirin Abu Akleh, a jornalista palestino-americana que foi baleada e morta quando cobria um tiroteio entre militantes palestinos e o exército israelense em Jenin, em 2022. O exército israelense admitiu que a bala pode ter saído de um de seus soldados, demonstrando consternação e pedindo desculpas à família. Mas, claro, para quem odeia Israel, como Roger Waters, os soldados teriam deliberadamente atirado para matar a jornalista.
A comparação levou o Ministério das Relações Exteriores de Israel a tuitar: “Bom dia a todos, exceto para Roger Waters, que passou a noite em Berlim (sim, Berlim) profanando a memória de Anne Frank e dos 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto”.
Não sei se alguém ainda tem dúvida de que o preconceito de Roger Waters passou dos limites da crítica a determinados governos israelenses. Para mim, não há dúvidas de que sim.
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