Israel vence o Brasil: o conto de fadas do Mundialito
05 jun 23

Israel vence o Brasil: o conto de fadas do Mundialito

Daniela Kresch

Daniela Kresch e Anita Efraim

TEL AVIV – Foram 122 minutos de muita emoção. Israel fez o impossível: venceu o Brasil por 3 a 2 nas quartas de final da Copa do Mundo Sub-20, que acontece na Argentina. Israel se qualificou para as semifinais do “Mundialito”, o que os locutores chamaram de “sonho” e de “história de Cinderela”.

“Israel ganha do Brasil!”, gritou o locutor israelense do canal KAN 11, “Vocês vão contar isso para os seus netos! “Estamos numa história de cinderela, de ficção científica!”

“Está vendo o jogo? Não consigo respirar”, escreveu uma amiga minha israelense no WhatsApp.

O sonho transformou a seleção júnior de Israel numa das quatro melhores do mundo. Na próxima quinta-feira, 8 de junho, Israel vai enfrentar o Uruguai.

“Quem poderia acreditar, no começo do Mundialito, que isso aconteceria!”, disse um repórter esportivo na TV. Sem saber o quanto isso mexe na ferida dos brasileiros, aliás, ele chamou Dor Turgeman, o autor do terceiro gol, de “Diego Armando Turgeman”. A jogada que, na lógica, teria o brilho brasileiro, chamou atenção pela habilidade e ousadia – que poucos esperavam da seleção israelense.

“Impensável: Israel surpreendeu o Brasil e avançou às semifinais do Mundialito”, estampou o site de notícias YNET na manchete. “A jornada mágica dos azuis-brancos continuou, novamente de forma dramática e desta vez com grande sensação. Pode sonhar em levantar a taça”.

No Brasil, o sentimento foi de total decepção. Jogadores melhores, campeões do Sul-americano sub-20, um histórico de cinco títulos na competição. Mas o futebol não é só história, é o que acontece dentro das quatro linhas: em campo, o time de Israel foi mais organizado e, merecidamente, fez história.

Homenagens

Mas como sempre, quando se trata de Israel, a histórica vitória de Israel sobre o Brasil aconteceu num dia triste para o país. De manhã, um incidente na fronteira com o Egito deixou três soldados israelenses mortos, entre eles uma soldada de 19 anos.

Dor Turgeman, o autor do terceiro gol, disse, emocionado: “Dedicamos essa vitória às famílias dos mortos no atentado de hoje. Esperamos ter feito um pouco para alegrar a todos neste dia triste”. No pulso, ele usava um esparadrapo, com os nomes das três vítimas.

O treinador da Seleção de Israel, Ofir Chaim, também comentou o ataque aos soldados israelenses na fronteira com o Egito: “Esta vitória é por todos em Israel. Queremos unir o país”.

As palavras do treinador têm a ver, também, com a própria formação do time de Israel. Judeus e árabes jogam juntos, em harmonia. Nas oitavas de final, quando o centroavante Anan Khalaili fez o gol aos 97 minutos, o narrador israelense perdeu a voz de tanto gritar. Khalaili, de 18 anos, é um árabe-muçulmano da cidade mista Haifa, onde joga pelo Maccabi Haifa.

“Isso é prova de como judeus e árabes podem alcançar tanto juntos”, disse o presidente de Israel, Isaac Herzog, no telefonema de parabéns ao treinador Ofir Chaim. “Foi muito emocionante, parabéns!”

O paradoxo da harmonia entre judeus e muçulmanos no mesmo time fica ainda mais forte quando lembramos que o Mundial sub-20 deveria ter acontecido na Indonésia, país de maioria muçulmana. Eles se recusaram a receber Israel e, por isso, o torneio foi transferido para a Argentina.

Diante do sucesso do time, o fato de que alguns dos jogadores não cantarem o hino nacional de Israel no começo dos jogos internacionais pode incomodar menos. Anan Khalaili e Hamza Shibli (outro jogador árabe-israelense do Maccabi Haifa), autores dos dois primeiros gols de Israel contra o Brasil, são alguns deles.

O fenômeno de atletas que não se sentem representados por seus países não é apenas israelense. Quantos atletas americanos baixaram a cabeça ou fizeram gestos de protesto contra os EUA em estádios?

No caso de Israel, a questão dos símbolos nacionais é, no entanto, algo complexo. Muitos árabes-israelenses consideram injusto que a bandeira e o hino do país se refiram apenas aos judeus do país, que são, sim, maioria (74% do país), mas não são todos. Afinal, um em cada quatro israelenses não é judeu.

Como em muitos países do mundo, o esporte e a cultura são alguns dos caminhos que pessoas desfavorecidas encontram para se destacar. Isso acontece no Brasil, claro, bem como em toda a América Latina. No caso de Israel, muitos jovens da minoria árabe veem no futebol o sonho da fama, de uma carreira que posso elevá-los a patamares que não conseguiriam alcançar seguindo o caminho da “meritocracia” da sociedade israelense.

O futebol simboliza, então, a esperança da convivência, a prova de que é possível alcançar os céus quando judeus e árabes enfrentam desafios juntos. Mas, ao mesmo tempo, o futebol mostra que Israel ainda precisa trilhar um longo caminho para que jovens árabes se sintam representados e expostos às mesmas condições de um futuro em seu próprio país.

Após passar pelo Brasil, Israel sonha em vencer o Mundial Sub-20. Pode acontecer… Quem sabe? Assim como Israel pode alcançar o que quiser, se seus cidadãos judeus e árabes trabalharem juntos.

Artigos Relacionados

Escalada da violência atinge brasileiro em Israel
Escalada da violência atinge brasileiro em Israel

Calendar icon 11 de outubro de 2022

Daniela Kresch TEL AVIV – A nova roda-viva de violência entre israelenses e palestinos, que está em curso desde março deste ano, bateu com toda força à porta da comunidade brasileira em Israel. No sábado (8 de outubro de 2022), David Morel, 30 anos, natural de Belém do Pará e que também tem nacionalidade israelense, […]

Arrow right icon Leia mais
Rússia se une ao eixo do mal: O que isso Significa para Israel e o Ocidente?
Rússia se une ao eixo do mal: O que isso Significa para Israel e o Ocidente?

Calendar icon 12 de agosto de 2024

Revital Poleg Um bom roteirista, se tentasse, teria dificuldade em criar uma realidade tão complexa e dramática como a que Israel está vivendo neste momento. Outra semana tensa se passa e ninguém sabe como ela se desenrolará: enquanto Israel está em um estado de “espera” diante das ameaças do Irã de vingar a morte de […]

Arrow right icon Leia mais
Quem comemora mortes?
Quem comemora mortes?

Calendar icon 9 de outubro de 2023

Lia Vainer Schucman É muito triste que eu tenha que escrever isto hoje, mas diante de tanta desumanização do outro me senti compelida. Foi, sem dúvida, minha consciência judia, ou minha judaicidade que me fez entrar na luta antirracista. Não foi APESAR de ser judia, mas foi POR SER JUDIA que a luta antirracista se […]

Arrow right icon Leia mais