Ideologia em ação: Cortes de orçamento para a sociedade árabe
Revital PolegRevital Poleg
“Minha esposa não vai deitar ao lado de uma mulher que está dando à luz cujo filho poderá matar meu bebê em vinte anos”, disse em 2016 o membro da Knesset Bezalel Smotrich, exigindo segregação nas maternidades entre mulheres judias e árabes.
Ele acrescentou ainda: “Os árabes são meus inimigos e por isso não gosto de ficar perto deles”. Essa declaração racista provocou reações duras de todas as partes do espectro político na Knesset. Porém, Smotrich permaneceu fiel a si mesmo. Hoje, como ministro da Fazenda do governo de extrema direita de Netanyahu, ele tem mais poder nas mãos e não hesita em usá-lo contra toda a sociedade árabe – o setor mais fraco da sociedade israelense. Há poucos dias, ele congelou cerca de 300 milhões de shekels destinados às autoridades locais árabes do orçamento para subsídios de desenvolvimento. Segundo ele, existem necessidades mais urgentes e, caso ele não suspenda os fundos, o dinheiro pode cair nas mãos de organizações do crime organizado.
As reações contra sua decisão não tardaram a chegar. Os altos funcionários do Ministério da Fazenda foram os primeiros a criticar o congelamento dos fundos. Benny Gantz, líder da Unidade Nacional, classificou as palavras de Smotrich de “decisão com sabor racista”. O Ministro do Interior, membro do partido Shas, que, em virtude de seu cargo, é responsável pelo governo local, apelou ao ministro para não congelar os fundos. Vários ministros também aderiram a esse apelo. Os chefes das autoridades locais de Israel, do Comitê de autoridades locais árabes e do Fórum de líderes empresariais mandaram uma nota urgente ao primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, exigindo que a decisão fosse interrompida, pedindo que ele “não permita que haja danos irreversíveis na sociedade árabe”. Eles afirmaram que o cancelamento do orçamento resultaria imediatamente no agravamento das disparidades, na exacerbação da pobreza e do crime, e causaria prejuízos consideráveis e de longo prazo à economia do país inteiro.
Em resposta às críticas, Netanyahu emitiu uma declaração, na qual esclareceu que “os fundos destinados às autoridades árabes serão transferidos após inspeção e supervisão que garantam que cheguem ao seu destino certo, ou seja, aos cidadãos árabes de Israel e não a qualquer outro lugar”.
O anúncio gerou mais críticas fortes, já que ele vinculou todas as autoridades árabes como uma só, independentemente de serem corruptas ou não. Foi uma generalização flagrante, que difamou muitas autoridades árabes que operam conforme necessário e de acordo com a lei – e, ainda assim, tiveram a capacidade de gestão gravemente prejudicada devido à decisão do ministro.
Na declaração do gabinete de Netanyahu também consta que “a política do primeiro-ministro é possibilitar o desenvolvimento e o bem-estar de todos os cidadãos, tanto árabes quanto judeus”. Essa afirmação pode soar positiva, mas, na prática, os fundos já estão congelados, e as autoridades árabes ficam sufocadas com a falta de orçamentos já prometidos.
Voltando a Smotrich, essa não foi sua única decisão problemática referente a cidadãos árabes. Simultaneamente, ele também congelou os fundos destinados a um programa preparatório destinado a estudantes árabes de Jerusalém Oriental, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Segundo ele, incentivar o ensino superior entre os jovens palestinos não está alinhado com os interesses israelenses e pode causar radicalização entre eles. Sua posição é totalmente contrária à dos chefes da Universidade Hebraica e de outros profissionais de educação e segurança, que rejeitam qualquer evidência da existência de tais “células islâmicas radicais” na academia israelense. Smotrich ressaltou que o primeiro-ministro apoia sua medida de congelar esses orçamentos e até concordou com ela. Netanyahu não reagiu a essas palavras, e assim se posicionou como apoiador da medida.
Mais autoconfiante e arrogante que nunca, apesar da grave crise econômica que Israel está enfrentando – a qual ele minimiza e rejeita, alegando que se trata de falsa e deliberada campanha, alimentada pelos protestos contra a reforma -, Smotrich se apressa a cumprir sua visão messiânica e racista, sem maiores obstáculos. Ele o faz sob um pretexto aparentemente profissional, como declarar guerra contra as organizações criminosas ou combater a radicalização que estimula o terrorismo, e simplesmente congela os orçamentos para o público árabe. De olhos bem abertos, conscientemente e com fé na virtude de seus atos, Smotrich discrimina os cidadãos árabes, apenas por serem árabes. Ao fazer isso, ele os condena a um baixo padrão de serviços públicos e mina a independência operacional das autoridades locais para fornecê-los, intensifica a frustração já existente entre essa sociedade e projeta uma sombra sobre a imagem de seu futuro.
Será que Smotrich não entende as consequências que suas ações podem provocar? Ao contrário, ele o entende perfeitamente.
Então, por que ele age assim? A resposta é penosa por sua simplicidade: porque pode, pois é exatamente o que ele quer. Ademais, no que depender dele, isso é só o começo. Foi esse um dos principais motivos que o levou à política.Tem uma visão bem clara das questões.
Em 2017, Smotrich, na época membro novo do Knesset, publicou um texto bem longo na revista conservadora de direita HaShiloh, intitulado “The Decision Plan” (O Plano de Decisão). Nesse artigo, ele detalhou sua visão para resolver o conflito com os palestinos: um lado desistirá das suas aspirações nacionais, e o outro controlará a área inteira. Segundo ele, já que não há nenhuma possibilidade de que dois povos com duas visões nacionais opostas vivam em Israel, a única maneira de resolver o conflito é se os palestinos desistirem das suas aspirações nacionais.
O conceito messiânico dele inclui “todos os árabes” que vivem nos territórios da terra bíblica de Israel: tanto os árabes que são cidadãos de Israel quanto os palestinos que vivem em Jerusalém Oriental ou na Cisjordânia. A todos eles, ele propõe o que Yehoshua ben Nun, o líder do povo de Israel após a morte de Moisés, ofereceu aos povos de Canaã, na época da Bíblia: uu vocês lutam contra mim, me aceitam como líder desta terra ou deixam a terra e partem para outro lugar.
Segundo o Dr. Michael Milstein, pesquisador sênior das Universidades de Tel Aviv e Reichman, em entrevista a Elad Shimhioff, do Canal 12, Smotrich acredita que apenas um povo entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo possui direitos nacionais. O outro tem apenas direitos civis, pois não pertence de fato ao local. Esse povo poderá se naturalizar no estado judeu e morar aqui como minoria, mas jamais poderá obter status igualitário.
Smotrich foi quem travou uma guerra contra todo tipo de parceria na coalizão com o partido árabe Ra’am (em 2021, quando Netanyahu tentou a aproximação e, mais tarde, quando o partido de fato se juntou à coalizão Bennett-Lapid). Conforme Smotrich, isso foi nada mais do que a lavagem de um partido que apoia o terrorismo, cujo objetivo é negar a existência do Estado de Israel. Para Smotrich, Mansour Abbas, o líder desse partido, não é apenas ilegítimo, mas de fato, o inimigo.
Na reunião da facção de seu partido no Knesset, em 2021, Smotrich disse que os árabes são “cidadãos de Israel, por enquanto, e têm representantes, membros do Knesset, por enquanto”.
Através das palavras e da terminologia que ele escolhe, Smotrich transforma os cidadãos árabes em ameaça ao Estado, instiga medo e liga a sociedade árabe inteira às organizações criminosas.
O orçamento pelo qual é responsável atualmente, como Ministro das Finanças, é uma ferramenta central no grande projeto do partido “Sionismo Religioso” liderado por Smotrich. Ele o faz de maneira consciente e metódica. Seu objetivo é o cancelamento gradual da legitimidade dos cidadãos árabes, a redução de seus direitos e a consequente prevenção da sua participação nas eleições para o Knesset. O objetivo final do plano é a separação da sociedade árabe do Estado de Israel. Para chegar lá, ele precisa mobilizar o medo e o ódio. É justamente com isso que Smotrich está ocupado.
Foto: WikimediaCommons
Artigos Relacionados
Israel, Hamas, o Oriente Médio e a visão de Trump: Um caminho viável ou uma nova crise?
18 de fevereiro de 2025
Revital Poleg Já se passaram 500 dias desde 7 de outubro – 500 dias de um verdadeiro inferno que 73 reféns ainda vivem neste exato momento nos túneis do Hamas. Essa data não pode passar despercebida. Para marcar o dia e à luz dos angustiantes testemunhos dos que retornaram do cativeiro, a Sede das Famílias […]
O bullying de uma cantora e a independência de Israel
13 de maio de 2024
Daniela Kresch TEL AVIV – Uma pergunta rude feita a uma jovem israelense de 20 anos resumiu, para mim, boa parte da história do Estado de Israel, que completa 76 anos de independência este ano, em meio a seu momento mais triste e desesperador – o clima no país é de velório, de profunda amargura […]
Unidade ou Unanimidade: Lições de Tishá Be Av
1 de agosto de 2025
Por David Diesendruck, cofundador e diretor do Instituto Brasil-Israel Neste próximo sábado à noite, inicia-se pelo calendário judaico o jejum de 9 de Av. A data, considerada a mais triste do ano, marca a destruição dos dois Templos de Jerusalém, além de outros episódios trágicos da história judaica, como a expulsão da Inglaterra (1290), da […]