Carta aberta ao Presidente Lula de uma cidadã israelense
23 fev 24

Carta aberta ao Presidente Lula de uma cidadã israelense

Revital Poleg

Estimado Sr. Presidente,

Com profunda preocupação, repudio e tristeza, escrevo esta carta aberta a você, diante de suas recentes declarações que compararam a legítima defesa de Israel contra o Hamas, em resposta ao brutal ataque terrorista de 7 de outubro, aos atos monstruosos e à política de extermínio organizado de assassinato em massa pelo regime nazista. Esta comparação não é apenas ofensiva, mas perigosamente distorcida.

Como judia, israelense e sionista orgulhosa, filha de um dos pioneiros que fundaram Israel após escapar dos nazistas e concretizar seu sonho de estabelecer um Estado judeu livre e democrático, vejo suas palavras como um ataque pessoal a mim, ao meu pai (z”l) e a milhões de judeus ao redor do mundo, incluindo, é claro, aqueles no Brasil. A comparação arrepiante que você fez entre a guerra de defesa que Israel foi obrigado a travar e as terríveis ações de Hitler é totalmente inapropriada. Para muitos no povo judeu, especialmente aqueles que sobreviveram ao Holocausto, não foi apenas um episódio da história, mas uma experiência de vida gravada em seus corpos e almas para sempre. Para muitos, a comparação que você fez não é apenas distante da verdade, mas também repugnante.

Como diplomata que representou Israel em diversas missões internacionais, tive a honra de participar dos esforços para promover a paz entre israelenses e palestinos, no âmbito do processo de Oslo liderado pelo então Ministro das Relações Exteriores, Shimon Peres. Acreditei nesse processo naquela época e continuo acreditando na solução de dois Estados para dois povos, apesar do ataque do Hamas, que é, sem dúvida, o mais horripilante desde o Holocausto. Como ex-chefe da delegação da Agência Judaica no Brasil, tive também o privilégio de conhecer e apreciar, além da querida comunidade judaica, o encantador povo brasileiro, sua fascinante diversidade e espírito de tolerância e moderação, qualidades que frequentemente se refletem na política externa de seu país.

Infelizmente, Senhor Presidente Lula, à luz de suas recentes declarações, temo que você tenha perdido a legitimidade para atuar como um exemplo de moderação e servir como um “mediador imparcial” na arena internacional. Você, infelizmente, privou-se dessa possibilidade.

É perfeitamente aceitável que você expresse críticas às ações do governo de Israel; isso faz parte das dinâmicas e “regras do jogo” das relações internacionais e pode ocorrer mesmo entre os aliados mais próximos. Contudo, a maneira como você procedeu não seguiu esses princípios. Suas declarações não afetaram apenas o governo israelense, mas ofenderam todo o povo judeu, contribuindo ainda mais para alimentar o antissemitismo, em vez de combatê-lo.

Alguns podem sugerir que suas comparações resultam de um desconhecimento sobre o Holocausto. No entanto, senhor Presidente, dou-lhe mais crédito do que isso e acredito que você esteja bem informado sobre o assunto. Ademais, sua visita ao Museu Yad Vashem, onde você testemunhou com seus próprios olhos a magnitude da tragédia, torna suas palavras ainda mais problemáticas.

Os nazistas, para lembrar, tinham uma ideologia racista e política declarada e bem ordenada para a extermínio do povo judeu com que os acabou levando à implementação da “Solução Final”. Estarão a comparar isto com a guerra justa de Israel, que enquanto luta contra o Hamas entrega diariamente ajuda humanitária aos residentes da faixa de Gaza – com água, alimentos, medicamentos e combustível, ajuda que o próprio Hamas os impede de receber e o rouba para si mesmo? Será que a comparação que você fez é apropriada ou certa? De jeito nenhum.

Não tenho dúvidas de que o sofrimento da mãe palestina pela perda de seu filho ou filha é tão profundo quanto o da mãe judia. O sofrimento humano é universal, ele não tem cor, raça ou religião, e guerra é sempre uma tragédia, independentemente das circunstâncias. Espero sinceramente que esta guerra termine em breve e possa levar a uma solução política duradoura. Contudo, o Hamas, que tem como objetivo declarado a destruição de Israel, não pode ser parte dessa solução. Ele é, de fato, o problema que enfrentamos todos – inclusive o Brasil, Senhor Presidente, assim como todo o mundo livre.

Senhor Presidente, Espero que esta carta aberta possa servir como uma oportunidade para repensar. Como uma israelense, judia e sionista que também ama profundamente o Brasil e seu maravilhoso povo, convido você a considerar estes pontos e, talvez, encontrar uma maneira apropriada de corrigir esta distorção ofensiva e claramente injustificada.

Atenciosamente,

Revital Poleg

Este texto não reflete necessariamente a visão do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Flickr/PaláciodoPlanalto

Artigos Relacionados

Netanyahu e a realidade paralela da retirada de Gaza
Netanyahu e a realidade paralela da retirada de Gaza

Calendar icon 6 de março de 2023

Daniela Kresch TEL AVIV – Em seu discurso logo após as grandes manifestações nas ruas de todo o país na quarta-feira, 1º de março de 2023, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu colocou ainda mais lenha na fogueira. Os protestos, apoiados por boa parte dos israelenses, são contrários à reforma judicial que ele e seus ministros querem […]

Arrow right icon Leia mais
Cada um tem o que merece
Cada um tem o que merece

Calendar icon 22 de junho de 2020

Há pouco tempo, deparei-me com uma reportagem a respeito de manifestações de pessoas contrárias ao distanciamento social no estado de Illinois, nos Estados Unidos. Ela mostrava o uso, em um cartaz, da frase Arbeit macht frei, escrita diretamente em alemão e endereçada ao governador do estado, J.B. Pritzker, que havia decretado confinamento e restrição de […]

Arrow right icon Leia mais
VÍDEO DO HAMAS COM REFÉM ISRAELENSE CAUSA COMOÇÃO, MAS NÃO AÇÃO
VÍDEO DO HAMAS COM REFÉM ISRAELENSE CAUSA COMOÇÃO, MAS NÃO AÇÃO

Calendar icon 28 de junho de 2022

Daniela Kresch TEL AVIV – O grupo terrorista Hamas, da Faixa de Gaza, publicou nesta terça-feira (28 de junho) um vídeo mostrando o cidadão israelense Hisham al-Sayed, um refém mantido em cativeiro há sete anos, em condições médicas precárias, deitado com uma máscara de oxigênio. O vídeo deve ter sido filmado em 21 de junho, […]

Arrow right icon Leia mais