Israel em alerta máximo: No limite de uma escalada regional
Revital PolegRevital Poleg
É apenas uma questão de tempo… O Irã prometeu atacar Israel como vingança pela eliminação de Ismail Haniyeh, e pretende cumprir essa promessa. Sim, no momento em que estas palavras são escritas, ainda não aconteceu, talvez esta noite? Talvez em duas noites? Tente imaginar uma situação em que a população de um país inteiro está à espera de um ataque, cuja intensidade e consequências são desconhecidas, mas que podem ser graves. Pelo menos é o que indicam as ameaças vindas de Teerã. É uma situação inconcebível por todas as medidas, mas essa é a realidade na qual estamos vivendo aqui em Israel hoje.
Enquanto as mensagens sobre a prontidão do exército e suas capacidades variadas e de alta qualidade, e os relatórios sobre a organização de uma coalizão de apoio liderada pelos EUA, comprometida com a segurança de Israel, trazem algum alívio, é difícil falar de “tranquilidade” no círculo pessoal de cada cidadão israelense, que não sabe o que esperar a qualquer momento.
Na verdade, é muito mais complexo, pois, enquanto o ataque iraniano que se aproxima pode ser devastador, ele é apenas uma das várias ameaças que Israel enfrenta neste momento. Hezbollah na fronteira norte com Líbano e Síria, os Houthis no Iêmen, as milícias xiitas no Iraque, e o Hamas em Gaza, todos proxies do Irã, que lidera o “eixo do mal”, fazem parte de uma ameaça muito maior. Esse conflito já está em andamento: o Hezbollah está em guerra com Israel desde 8 de outubro, com crescente intensidade, e o Hamas, apesar da guerra que já dura dez meses, ainda possui um arsenal de foguetes. Embora esses foguetes tenham sido usados com menor intensidade do que antes, a frequência dos lançamentos tem aumentado nos últimos dias. Os outros também não ficam para trás, atacando Israel de tempos em tempos. E se isso não fosse bastasse, nas cidades da Cisjordânia, como Jenin e Tulkarem, um combate ao terrorismo está ocorrendo há algum tempo contra células terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica.
Na perspectiva iraniana, a violação de sua soberania e, principalmente, a humilhação sofrida com a eliminação de Haniyeh em Teerã (um ataque pelo qual Israel não assumiu responsabilidade) exigem uma resposta. Teerã precisa escolher uma retaliação que reequilibre a “equação de dissuasão” com Israel, mas que não leve a uma guerra indesejada com Israel e, sobretudo, com os EUA. Consequentemente, o Irã declara que o próximo ataque será mais significativo do que o de 14 de abril, o que, somado à participação ativa dos aliados do eixo, principalmente o Hezbollah, aumenta consideravelmente a probabilidade de uma escalada regional generalizada.
Diante desta realidade, o governo americano decidiu reforçar significativamente suas forças na região, incluindo um porta-aviões, navios e aeronaves adicionais. Todos os porta-vozes da administração enfatizaram que o objetivo dessas forças é dissuadir o Irã e proteger Israel, similar às medidas tomadas antes do ataque iraniano de 14 de abril. Os americanos destacaram que não desejam uma escalada e que se mantêm firmes em sua posição, como também foi enfatizado em todas as conversas com Israel (incluindo aquelas com o presidente Joe Biden e com o secretário de Defesa Austin), de que apenas um acordo para a libertação dos reféns iniciará um processo de desescalada, inclusive entre Israel e o Hezbollah. Esta é também a razão pela qual o presidente Biden expressou insatisfação com a eliminação de Haniyeh, temendo que essa ação prejudique ou, pelo menos, atrase o acordo esperado.
O reforço amplo das forças americanas é visto como uma medida para dissuadir e proteger Israel, principalmente de um ataque iraniano. No entanto, na prática, a impressão é de que isso se deve ao temor de que, sem a proteção americana, Israel possa sofrer um golpe severo que a obrigue a reagir. Nesse cenário, a probabilidade de os Estados Unidos expandirem sua participação, talvez até mesmo com uma resposta direta ao Irã, aumentaria significativamente. Assim, parece que a mobilização militar visa minimizar ao máximo o risco de que o Irã consiga infligir um golpe que obrigue Israel a responder de forma contundente, colocando os Estados Unidos diante da difícil decisão de como agir. A suposição americana é que, se a resposta iraniana for frustrada, Israel evitará retaliar e será possível “conter o evento”.
A expectativa americana, é importante dizer, não reflete necessariamente a realidade. O Netanyahu de hoje se mostra muito mais assertivo, especialmente após retornar fortalecido de sua visita a Washington. Ele ainda está embriagado pelos “vapores de seu sucesso”, que não necessariamente representam a opinião dos democratas no Congresso ou do próprio presidente Biden, considerando o discurso e as conversas que tiveram com Netanyahu desde então e as mensagens ambíguas que estão recebendo dele. As recentes eliminações, de Fuad Shukr (do Hezbollah), além dos líderes do Hamas, Ismail Haniyeh e Mohammed Deif, fortaleceram Netanyahu e sua postura firme.
Embora o governo americano tenha se mobilizado, como no passado, para apoiar Israel, todos os relatos indicam que a frustração e a insatisfação com a atuação do primeiro-ministro estão aumentando. No entanto, até o momento, ele não é considerado o principal responsável pelo atraso no acordo para a libertação dos reféns. Mesmo assim, vários vazamentos, possivelmente provenientes do governo, incluindo uma chamada telefônica tensa com o presidente Biden, não deixam dúvidas de que a administração também considera Netanyahu responsável. Segundo os pesquisadores Eldad Shavit e Chuck Freilich, do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da universidade de Tel Aviv, o governo americano está em um dilema sobre como responder a Israel, especialmente durante um período eleitoral. O colapso do plano estratégico pessoalmente liderado pelo presidente Biden para encerrar a guerra deixou o governo americano sem uma alternativa clara e, provavelmente, a culpa será atribuída a Israel, especialmente se os EUA forem forçados a expandir sua intervenção militar no Oriente Médio, algo que não desejavam, especialmente na reta final da campanha eleitoral, cujos resultados podem ser impactados pelos desdobramentos na região.
E isso nos leva de volta a Netanyahu e a Israel.
Enquanto a maioria dos israelenses está preocupada com o ataque iminente, Netanyahu, como líder do país, não achou necessário até agora se dirigir ao público com uma mensagem tranquilizadora. Mesmo diante da atual situação dramática e perigosa, ele continua com sua abordagem de destacar apenas os sucessos, quando existem, e de atribuí-los a suas próprias decisões, ignorando o que realmente preocupa o povo em seus momentos mais difíceis, como agora.
A percepção de realidade de Netanyahu parece desconectada das preferências do público, que, de acordo com todas as pesquisas realizadas desde 7 de outubro até hoje, mais de 70% da população quer que ele renuncie imediatamente ou após a guerra. Na atual realidade difícil, só nos resta confiar nas Forças de Defesa de Israel, especialmente na nossa excelente Força Aérea, e no importante apoio americano, e esperar que os temores do público israelense se revelem exagerados e muito menos graves do que o esperado.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
(Foto: Reprodução/Wikicommons)
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