Responsabilidade Judaica
David DiesendruckDavid Diesendruck, cofundador e diretor do Instituto Brasil-Israel
Uma “virada” no calendário, seja por um aniversario, final de ano ou outra data marcante em nossas vidas, costuma, para muitos, resgatar memorias e sentimentos.
Mas raramente elas vêm acompanhadas de tradições e rituais milenares praticados de geração em geração.
No judaísmo o calendário é repleto de significados e propósitos que extrapolam o caráter sazonal da data e que oferecem um amplo repertorio de interpretações e oportunidades para uma busca individual e coletiva sobre onde estamos e onde gostaríamos de estar. Afinal, por que estamos aqui?
Nesta próxima segunda-feira, ao anoitecer, iniciamos as celebrações do ano 5786. A data marca não a criação do universo, mas a do homem. É a partir de sua criação que a contagem se inicia.
Desde sempre, em nossa tradição, a responsabilidade não é terceirizada. Nem a natureza ou a Deus. É nossa a responsabilidade pelo que acontece por aqui. Este é um princípio norteador judaico.
Tragicamente, uma outra data recentemente ingressa em nossa história, o 7 de outubro, será lembrada em algumas semanas. E, dentro do espirito de Rosh Hashana, devemos refletir e questionar sobre qual a nossa responsabilidade como judeus sionistas diaspóricos. Não como espectadores, mas como agentes de transformação. Este debate me parece fundamental para nossa continuidade.
Subestimar a mudança que estamos vivenciando dentro de Israel, nas suas relações geopolíticas, na relação com os judeus fora de Israel e o crescimento do antissemitismo é uma ameaça existencial que não pode ser ignorada.
Novas posturas e narrativas são necessárias. Estado e Governo de Israel precisam ser diferenciados. A sociedade civil israelense precisa ser ouvida e amplificada por nós. Os princípios fundacionais, éticos e morais de Israel, idem.
Não podemos permitir o sequestro destes princípios. Muito pelo contrário.
O pensador israelense Yossi Klein Halevi* questiona:
“Como, então, nesta atmosfera envenenada, podemos nos submeter à autocrítica moral? Como ousamos arriscar, inadvertidamente, reforçar a campanha de ódio e mentiras?
Porque não temos escolha. Porque preservar nossa credibilidade moral é essencial para nossa força. Porque não podemos deixar que aqueles que nos odeiam determinem a vida interior do povo judeu. Porque praticar a introspecção moral nos lembra que o sionismo venceu e que, embora vulneráveis, não somos mais vítimas. Porque devemos prestar contas de nossas ações aos nossos amigos que nos apoiaram.
Acima de tudo, porque o judaísmo exige isso.”
Nossa história é repleta de momentos trágicos e desafiadores. Mas também de reviravoltas espetaculares como a própria criação do Estado de Israel. O denominador comum? A preservação e a defesa dos princípios acima. Abrir mão deles nao é uma opção.
Que possamos trazer esta conversa para nossos encontros familiares de Rosh Hashana. Dialogar sem polarizar sobre como enfrentar juntos este novo contexto.
Resgatar nossa sabedoria e cultura milenar para fortalecer nossa identidade judaica e sionista.
E que possamos muito breve termos os reféns de volta e o final desta guerra terrível a tantos.
Shaná Tová!
*https://blogs.timesofisrael.com/our-season-of-reckoning-israels-moral-crossroads-in-gaza/
A imagem utilizada neste artigo foi gerada por inteligência artificial.
Artigos Relacionados
Israel no meio do conflito entre Rússia e o ocidente
25 de fevereiro de 2022
Por Daniela Kresch
Fim da cláusula da razoabilidade pode ser ponto de virada perigoso para a democracia de Israel
20 de julho de 2023
Revital Poleg Um ponto de inflexão negativa no caráter democrático do Estado de Israel será registrado no próximo domingo, 23 de julho, quando acontecerá a votação final do projeto de lei que acaba com a cláusula da razoabilidade. As altas temperaturas do verão israelense coincidem com a intensificação do protesto que tenta impedir que isso […]
Entre a força e a diplomacia: o que revela a opinião pública israelense
26 de junho de 2026
*por Revital Poleg Ao completar mil dias desde o massacre de 7 de outubro, a sociedade israelense encontra-se em um dos períodos mais complexos de sua história: uma sequência de guerras em múltiplas frentes contra o Irã e seus proxies regionais, uma campanha militar prolongada no Líbano e em Gaza, e uma crise diplomática sem […]