Manifesto em defesa da liberdade religiosa, contra o antissemitismo e pela democracia brasileira
Uma produção do Laboratório de Estudos Judeidade e Negritude, coordenado por Edilmar Alcantara e vinculado ao projeto IBI no Campus.
Nos últimos tempos, o Brasil tem assistido ao avanço preocupante de práticas de intolerância que ferem os pilares mais essenciais de nossa Constituição: a liberdade religiosa, a dignidade humana e a convivência democrática. Nós, judeus e negros, unimos nossas vozes para denunciar dois fenômenos que têm se intensificado de forma alarmante: os ataques sistemáticos às religiões de matrizes africanas e a escalada do antissemitismo, especialmente em ambientes universitários.
Enquanto terreiros são queimados, sacerdotes e sacerdotisas são ameaçados e tradições ancestrais seguem sendo demonizadas, cresce também uma onda de hostilidade contra judeus, alimentada por discursos que confundem identidade, história e religião com conflitos geopolíticos que extrapolam nossas fronteiras.
Após o 7 de outubro e os subsequentes ataques de Israel à Faixa de Gaza, testemunhamos o recrudescimento de agressões verbais, intimidações e estigmatizações que ultrapassam o campo legítimo da crítica política para se transformar em preconceito e desumanização. Repudiamos com firmeza qualquer forma de violência religiosa, venha ela disfarçada de moralidade, de ideologia ou de pseudociência.
O Brasil é historicamente plural, formado pela força de povos que aqui construíram suas culturas mesmo sob dor, perseguição e diásporas. Atacar religiões afro-brasileiras é atacar a própria memória do Brasil. Atacar judeus é reavivar sombras que a humanidade jurou nunca mais permitir!
Recordamos que a Constituição Federal de 1988 garante, de maneira inequívoca, a liberdade de crença, o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos seus locais e liturgias. Este não é um favor: é um direito! E não é apenas uma previsão legal: é um compromisso civilizatório.
Ao mesmo tempo, reafirmamos que a democracia só existe plenamente quando todas as vozes podem existir plenamente (quando nenhuma religião é perseguida, quando nenhuma identidade é tratada como suspeita, quando nenhum povo precisa temer por sua integridade). Democracia não é unanimidade; é convivência na diferença. É respeito. É a recusa absoluta da violência como forma de silenciar o outro.
Por isso, este manifesto não é apenas denúncia. É também um chamado à esperança. Acreditamos que o Brasil pode e deve ser um exemplo de convivência plural, onde tradições africanas, judaicas, cristãs, indígenas, islâmicas, espíritas, ateias e tantas outras possam coexistir sem medo.
Defendemos uma sociedade que reconheça a beleza de sua diversidade, que compreenda que não há democracia sem liberdade religiosa, e que não há liberdade religiosa sem respeito mútuo. Conclamamos instituições públicas, universidades, lideranças religiosas, movimentos sociais e a sociedade civil a se unirem a nós na construção de um país em que cada pessoa possa expressar sua fé (ou sua ausência de fé) sem ser alvo de ódio ou perseguição.
Reafirmamos, enfim, que o futuro que desejamos é aquele guiado pela justiça, pela solidariedade e pela defesa incondicional dos direitos humanos. Um futuro em que judeus e negros, e todos os grupos historicamente vulnerabilizados, possam viver com dignidade, segurança e orgulho de suas histórias. Que este manifesto ecoe como um compromisso coletivo: em defesa da liberdade, da pluralidade e da democracia brasileira.
Foto: Pixabay
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