Síria, Israel e o teste da nova ordem regional: oportunidade ou ameaça?
Revital PolegNo final deste mês de dezembro, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu deverá se encontrar novamente com o presidente norte-americano Donald Trump, desta vez em sua residência na Flórida, Mar-a-Lago. Uma série de temas estará em pauta, sendo a questão síria um dos assuntos centrais da agenda. Um ano após a queda do regime de Bashar al-Assad e a tomada do poder pelo ex-jihadista Ahmad al-Sharaa, a realidade na Síria mudou de forma significativa. Ainda assim, a visão americana e a visão israelense sobre o tema permanecem profundamente distintas.
Um ano depois de assumir o poder, al-Sharaa continua sendo, em grande medida, uma figura enigmática e controversa. A percepção dominante em Israel é a de que se trata de um “jihadista de terno” e que a imagem pragmática que ele projeta para o mundo não passa de um artifício. Em contrapartida, entre a maioria dos países da região e da comunidade internacional, sob a liderança dos Estados Unidos, prevalece a avaliação de que as medidas adotadas até agora por al-Sharaa, que não se limitam ao plano diplomático, mas incluem também a esfera econômica, indicam um esforço genuíno para estabilizar a Síria e administrá-la de maneira moderada, nacional e institucional.
Ainda assim, apesar dos avanços significativos na recomposição das relações exteriores e do amplo reconhecimento internacional, al-Sharaa enfrenta, no plano interno, uma série de desafios: tensões sectárias e apelos à fragmentação, a presença de grupos jihadistas extremistas que se opõem à sua linha, com o Estado Islâmico à frente, além de uma grave crise econômica.
Do ponto de vista de Israel, a grande questão sobre a Síria é, afinal, qual deve ser a nossa política. Devemos dar uma chance à abordagem que a maior parte da comunidade internacional promove e busca viabilizar na prática, ou agir na direção oposta e concentrar nossa política exclusivamente na dimensão da segurança? A resposta está longe de ser simples ou unívoca.
O presidente Bashar al-Assad, que governou a Síria desde o ano 2000, nunca foi um parceiro de Israel, mas durante anos foi visto como “o mal conhecido”, alguém com quem era possível chegar a determinados entendimentos e arranjos convenientes para ambos os lados. Essa abordagem lembra, em muitos aspectos, a conduta israelense em relação ao Hamas, cujas consequências dolorosas aprendemos na própria pele em 7 de outubro.
Diante do novo presidente sírio, ao contrário, Netanyahu opta por não buscar a contenção da situação, mas por implementar uma política que, na prática, enfraquece o regime de al-Sharaa e acaba ampliando cenários de caos, seja por meio do incentivo aos drusos sírios, seja por ações militares em profundidade no território sírio.
À primeira vista, a “nova Síria” tem um claro interesse regional comum com Israel. Um regime forte, eficiente e moderno em Damasco, caso de fato se consolide, pode amputar os tentáculos do polvo iraniano, que ainda hoje alcançam o Líbano e atuam, em conjunto com o Hezbollah, para recriar focos de instabilidade por meio de forças extremistas na Síria que não se sentem comprometidas com al-Sharaa. Durante a guerra entre Israel e Irã, a Síria, embora não tivesse intenção de intervir no conflito, não se opôs às ações israelenses destinadas a frustrar os ataques iranianos em seu espaço aéreo, nem chegou a condenar a ofensiva israelense contra o Irã.
É difícil dizer se Trump imporá às duas partes, Israel e Síria, algum tipo de acordo, embora seja evidente que ele desejaria muito isso. Recentemente, porém, ele publicou em sua rede social que “é muito importante que Israel mantenha um diálogo forte e genuíno com a Síria” e manifestou satisfação com o desempenho do presidente al-Sharaa, que realizou, em novembro passado, uma visita histórica à Casa Branca.
Contatos realizados nos últimos meses entre os dois países vizinhos, sob a mediação dos Estados Unidos, com o objetivo de promover um processo gradual de normalização e, em uma primeira etapa, estabelecer um “acordo de segurança mínimo” para reduzir as tensões na fronteira, chegaram a um impasse, apesar de relatos sobre supostos avanços e até sobre a existência de um acordo escrito entre Israel e Síria. Ainda assim, isso não parece desanimar Trump. Embora o Pentágono tenha anunciado há alguns meses a redução do número de soldados americanos na Síria, na prática, os Estados Unidos estariam se preparando para estabelecer uma base militar na região de Damasco, com o objetivo de supervisionar o acordo de segurança em formação entre Síria e Israel.
Poucos dias atrás, dois soldados americanos e um cidadão americano que atuava como intérprete foram mortos na Síria, e outros três soldados ficaram feridos, após um homem armado, aparentemente ligado ao Estado Islâmico, abrir fogo contra uma força militar conjunta dos Estados Unidos e da Síria que patrulhava a região. Trump apressou-se em declarar que os EUA responderiam ao Estado Islâmico com uma “resposta muito séria”, mas evitou relacionar o ataque ao fato de que esses elementos hostis operam na Síria sem qualquer submissão real à autoridade do novo presidente.
A divergência entre Israel e os Estados Unidos em relação à Síria envolve também o papel da Turquia. Enquanto Trump, que mantém relações estreitas tanto com o Catar quanto com a Turquia, não vê problema na profunda atuação desses dois países na Síria e acredita que ambos ajudarão al-Sharaa a estabilizar seu governo, interna e externamente, Netanyahu vê Recep Tayyip Erdogan como um adversário ameaçador e hostil e busca afastá-lo de qualquer envolvimento regional que diga respeito às fronteiras de Israel, tanto na Síria quanto em Gaza. O próprio Erdogan, por sua vez, não poupa palavras duras ao se referir a Netanyahu, o que aprofunda ainda mais a tensão entre os dois líderes.
Por outro lado, Israel e Turquia têm muitas razões para cooperar. Além das relações historicamente boas entre os dois países, que já se mostraram eficazes no passado, ambos compartilham interesses comuns e não conflitantes na própria Síria. A Turquia tem interesse em estabelecer uma zona de influência no norte do país, onde se encontram os curdos, enquanto Israel busca fortalecer sua influência no sul da Síria, próximo à sua fronteira e nas áreas habitadas por drusos. Em teoria, isso poderia abrir espaço para uma cooperação em que cada lado se concentra em seus próprios interesses sem interferir nos interesses do outro. Nas circunstâncias atuais, porém, até mesmo o diálogo nesse sentido parece inviável.
Após quase um quarto de século em que o Oriente Médio assistiu ao fortalecimento de organizações não estatais como Hezbollah, Hamas, Al-Qaeda, Estado Islâmico e outras, bem como ao enfraquecimento dos Estados nacionais no contexto da Primavera Árabe, observa-se, nos últimos anos, especialmente após 7 de outubro e os êxitos militares de Israel em diferentes frentes, um retorno gradual à centralidade dos Estados nacionais na região. Esses Estados buscam recuperar o controle, conter ameaças internas e externas e restaurar sua soberania.
Nesse contexto, pode-se observar a atuação de al-Sharaa, ex-integrante da Al-Qaeda, que, com amplo apoio dos Estados Unidos, procura reunificar o país e integrar suas diversas comunidades sob um único arcabouço nacional. O enfraquecimento do Hezbollah no Líbano, a iniciativa de Trump e a iniciativa franco-saudita que rejeitam qualquer papel do Hamas no futuro de Gaza, ainda que não esteja claro se terão êxito, bem como a mão de ferro do Egito contra a Irmandade Muçulmana, seguida aparentemente pela Jordânia, que se prepara para colocá-la fora da lei, são expressões adicionais dessa tendência regional.
O que emerge do terreno é um novo eco do princípio da integridade territorial, que volta ao centro do debate à luz dos acontecimentos na Síria. Todos os países árabes e a grande maioria das nações do mundo veem nos passos dados por al-Sharaa uma medida vital e consideram a reunificação das diferentes regiões e comunidades da Síria como o grande teste de seu governo. As exceções são o Irã e o Hezbollah, que veem na fragmentação do país uma oportunidade estratégica.
A tendência de fortalecimento dos Estados nacionais em detrimento de atores não estatais é positiva para Israel. A redução de “endereços problemáticos” e a promoção, ou ao menos o avanço, de ordem e estabilidade em vez de anarquia permitem um diálogo dissuasório mais eficaz e pavimentam o caminho para acordos de não beligerância e processos de normalização. Uma ordem regional atualizada, baseada no fortalecimento do Estado nacional, aumenta também a probabilidade de que os Estados Unidos, cuja dominância na região hoje é absoluta, optem por permanecer e garantir sua estabilidade.
No entanto, diante desse cenário, o governo Netanyahu adota uma política ambígua que pode minar os próprios êxitos militares que enfraqueceram significativamente os atores não estatais e contribuíram para o fortalecimento da nova ordem regional em formação, podendo, no fim das contas, gerar caos. Embora Netanyahu tenha declarado recentemente, apenas em inglês, que “ao contrário de falsas acusações, Israel não tem reivindicações territoriais contra nenhum país vizinho. Nosso objetivo é a paz e a segurança”, a conduta no terreno cria uma realidade confusa e contraditória.
Os desdobramentos na Síria reforçam a possibilidade de um processo de mudança profunda e positiva que o Oriente Médio vem experimentando, sobretudo desde 7 de outubro. A integração de Israel à ordem regional emergente é vital para nossos interesses. Essa mudança não está isenta de desafios, mas, se Israel deseja fazer parte dela, torna-se indispensável uma mudança de paradigma em relação à Síria, de modo que não inviabilize a preservação não invasiva de nossas necessidades de segurança. Resta saber se Netanyahu escolherá permitir esse caminho ou se será Trump quem inclinará a balança, e quais serão as consequências dessa decisão.
Saberemos em breve.
Artigos Relacionados
Sobre ocupar espaços: o relato de uma antropóloga negra e nordestina na equação entre Brasil e Israel
28 de fevereiro de 2020
No último dia 19 de fevereiro, publiquei em meus perfis pessoais do instagram e facebook um breve relato da quão intensa foi a experiência de participar da conferência internacional ” Política e religião no Brasil e nas Américas: Igrejas evangélicas e suas relações com judaísmo, sionismo, Israel e comunidades judaicas”, resultado de uma iniciativa do […]
Dia do Holocausto de 2022 à sombra do aumento do antissemitismo
27 de janeiro de 2022
Por Daniela Kresch
Por que Netanyahu, que tanto apoiou Bolsonaro, condenou os ataques em Brasília?
16 de janeiro de 2023
Daniela Kresch TEL AVIV – Há muitas maneiras de dar um golpe – ou um autogolpe – de Estado. No Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro tentou desacreditar as eleições para se manter no poder. O mesmo fez o ex-presidente americano Donald Trump. Bolsonaro demonizou as urnas eletrônicas. Trump, a votação por correio. Ambos atacaram a […]