Entre Washington e Jerusalém: eleições à vista e os desafios de Israel em 2026
Revital Poleg
No início de 2026, vale a pena examinar o que o novo ano reserva para Israel. Em meio à incerteza que o caracteriza, uma coisa é certa: não será um período entediante. Nem no plano interno nem no externo, nem no campo da segurança nem na esfera econômica, e certamente não na política, que influencia todos esses âmbitos. Sendo um ano eleitoral, tudo indica que será particularmente complexo, significativo e desafiador.
Quando exatamente ocorrerão as eleições? Essa ainda é uma incógnita, parte inseparável da complexidade que temos pela frente. Em teoria, as eleições deveriam acontecer em outubro ou novembro de 2026. Na prática, porém, a data será definida de acordo com os cálculos políticos de Netanyahu, que, às vésperas do fim de 2025, lançou sua campanha eleitoral de forma aberta e em um timing politicamente brilhante, do seu ponto de vista. Isso ocorreu durante sua última visita aos Estados Unidos, no âmbito de seu sexto encontro com o presidente Trump desde que este assumiu o cargo, tendo como cenário a residência particular do presidente, em Mar-a-Lago. A isso se somou a luxuosa festa de Réveillon oferecida pelo presidente e por sua esposa, com a presença de Netanyahu e de sua mulher.
Há muitos meses Netanyahu vem trabalhando para garantir a continuidade de seu mandato – uma preocupação constante, inclusive nos dias mais dolorosos e sombrios vividos pelo público israelense desde 7 de outubro de 2023, quando os reféns definharam nos túneis do Hamas e a guerra, em todas as suas frentes, cobrou um preço elevado. Em Mar-a-Lago, porém, Netanyahu optou por abrir a campanha de forma consciente, apoiando-se em um respaldo americano excepcional em sua intensidade e em seu estilo.
Os elogios efusivos e a enxurrada de superlativos que o presidente Trump dirigiu a Netanyahu nas escadarias da entrada de sua residência privada, em horário nobre para o público israelense, ao declarar que sem Netanyahu Israel teria sido aniquilado na última guerra, não são apenas exagerados do ponto de vista factual, mas talvez até o oposto da realidade. Essas declarações, que fazem parte de uma estratégia política cuidadosamente calculada, expressam com precisão a narrativa a qual Netanyahu aspira. Para muitos na sociedade israelense, porém, elas apenas reforçam a sensação de que chegou a hora de encerrar a trajetória política do primeiro-ministro. A isso se somou a repetição pública, por parte de Trump, de seu apelo ao presidente do Estado para conceder perdão a Netanyahu em seu processo judicial – uma interferência grosseira, insistente e sem precedentes em um procedimento jurídico interno, coordenada com ele.
Em outras palavras, Trump não se limita a gestos diplomáticos ou a sinais genéricos de proximidade, mas atua como um ator político ativo na arena israelense, de forma incomum e deliberada, com implicações diretas para o próximo processo eleitoral. Trata-se de um eixo de atuação conjunta, que tende a se revelar um dos componentes mais significativos do sistema político israelense em 2026. Ainda assim, convém lembrar que, mesmo que o jantar tenha sido agradável e a recepção calorosa, com Trump não existem almoços grátis.
Com o início de 2026 e à medida que o país se aproxima das eleições, acumulam-se desafios e armadilhas no plano político e no campo diplomático-securitário que colocam à prova a liderança israelense. Vamos percorrer esse panorama.
Gaza: a ameaça do Hamas contra Israel está longe de desaparecer. Segundo o que se sabe até agora, apenas cerca de metade dos túneis de terror foi destruída, e o grupo continua armado e em processo de fortalecimento. Do ponto de vista da segurança israelense, não há pressa em se retirar da área. Durante a visita de Netanyahu, Trump reiterou que o Hamas deve ser desarmado e advertiu que, caso isso não ocorra, o preço será elevado. Ao mesmo tempo, deixou claro que pretende avançar rapidamente para a segunda fase do acordo, no âmbito da qual está prevista a entrada de forças internacionais em Gaza. Como essas posições se conciliam na prática? E como Netanyahu escolherá agir diante de um cenário em que qualquer retirada de Gaza pode ameaçar a estabilidade de sua coalizão? Neste estágio, não há respostas claras para essas questões, e Netanyahu, como de costume, tenderá a adiar decisões sensíveis pelo maior tempo possível.
Líbano: com o encerramento de 2025, expirou também o ultimato dado ao governo libanês para desarmar o Hezbollah e afastá-lo do sul do país. A partir das declarações de Trump em Mar-a-Lago, segundo as quais afirmou que o governo do Líbano se encontra em posição de inferioridade frente ao Hezbollah, foi possível entender que Israel recebeu do governo americano um sinal verde para neutralizar a ameaça por conta própria – um cenário para o qual o Exército israelense já vem se preparando. Caso o Líbano consiga reunir forças para enfrentar o Hezbollah, poderá no futuro integrar o grupo de países que buscam se organizar contra forças radicais no Oriente Médio, sob o guarda-chuva americano. No atual contexto, porém, é difícil ver isso se concretizar.
Síria: embora al-Shara e, com ele, a chamada “nova Síria” ainda sejam considerados uma incógnita, do ponto de vista de Trump – conforme declarou à imprensa, com Netanyahu ao seu lado – “o novo presidente da Síria está conosco ao longo de todo o caminho. Tenho certeza de que ele e Israel se entenderão, e farei o possível para garantir que isso aconteça”. Embora Netanyahu tenha concordado em retomar conversas sobre um arranjo de segurança com a Síria sob mediação americana, a declaração de Trump difere profundamente de sua própria leitura da situação. Embora o interesse israelense central seja manter uma fronteira tranquila com a Síria, a interpretação sobre como alcançar essa tranquilidade diverge significativamente entre Trump e Netanyahu. Para o primeiro-ministro, isso exige uma presença permanente nos postos tomados por Israel no leste do Golã e no Monte Hermon sírio, enquanto os americanos pressionam por uma retirada – e esse desacordo está longe de ser resolvido.
Turquia: o “grande amigo” de Trump, como o presidente costuma chamar Erdogan, certamente não é amigo de Netanyahu. Diante da nova realidade regional, Erdogan busca construir para a Turquia o status de potência regional. Sua atuação na Síria, bem como sua ambição de integrar as forças que deverão ser posicionadas em Gaza, combinadas com a expectativa de venda de caças F-35 pelos Estados Unidos, iniciativas todas apoiadas pelo governo Trump, preocupam profundamente Netanyahu, que tenta, por sua vez, articular uma frente contra a Turquia em cooperação com Grécia e Chipre. Vale lembrar que Turquia e Israel também compartilham interesses comuns que já se mostraram relevantes no passado e que podem – e talvez devam – servir de base para uma mudança no relacionamento, ainda que essa se dê “abaixo do radar”. Isso depende, em grande medida, da disposição mútua dos líderes e de um senso de racionalidade que supere os ressentimentos recíprocos, algo que, no momento, ainda parece distante.
Irã: é difícil prever aonde levarão os protestos recentes. Embora a indignação popular pareça estar se ampliando, o regime iraniano ainda mantém considerável poder sobre sua população. Uma eventual deserção de integrantes da milícia Basij e da Guarda Revolucionária em favor da oposição poderia sinalizar ventos de mudança, cuja configuração ainda é incerta. Semanas antes do início dos protestos, Netanyahu passou a preparar a opinião pública israelense para a possibilidade de uma nova guerra contra o Irã. Atendendo às expectativas de Netanyahu, Trump deu sinal verde a Israel para um ataque caso haja aceleração na produção de mísseis e apoiou uma ofensiva “rápida” se ficar claro que o Irã retoma o programa nuclear, caso “continuem se comportando mal”. Com a intensificação dos protestos, Trump também emitiu uma ameaça explícita a Teerã, condicionando uma ação à morte de manifestantes pelo regime.
O recente movimento americano na Venezuela envia um sinal concreto ao regime iraniano e pode reforçar a percepção de que ameaças podem se traduzir em ação.
No plano interno, os desafios políticos não são menos complexos.
Cisjordânia: na prática, trata-se da frente mais explosiva entre todas as mencionadas, devido à proximidade e ao atrito constante entre milhões de israelenses e palestinos, ao agravamento do terrorismo palestino, ao controle extremamente frágil da Autoridade Palestina, liderada por um presidente muito idoso e profundamente impopular, e também à violência extremista judaica nos territórios, que quase não é enfrentada, além da consolidação de fatos no terreno relacionados à expansão dos assentamentos, que perpetuam uma realidade já extremamente difícil. Tudo isso constitui um potencial real de deterioração da situação de segurança. Em sua reunião com Netanyahu, Trump instou o primeiro-ministro a alterar a política na Cisjordânia e a evitar medidas provocativas, diante do receio em Washington de uma escalada que possa prejudicar a implementação do acordo sobre Gaza e a expansão dos Acordos de Abraão. A má notícia é que, enquanto o governo Netanyahu permanecer no poder, as chances de mudança dessa realidade são mínimas.
Lei de recrutamento dos ultraortodoxos para o Exército: este será um dos temas centrais da próxima campanha eleitoral, já gerando forte oposição não apenas no campo político, mas também entre eleitores de direita que eles próprios ou seus familiares servem no exército ou na reserva. Ainda assim, Netanyahu promove a proposta a qualquer custo, visando garantir o apoio contínuo dos partidos ultraortodoxos às vésperas das eleições.
Além disso, há questões de grande gravidade que permanecem em aberto. Entre elas, destacam-se as tentativas de Netanyahu de impedir a criação de uma comissão nacional de inquérito para investigar os eventos que antecederam 7 de outubro, substituindo-a por alternativas políticas contrárias à lei. Não menos grave é o chamado “Qatargate”, no qual assessores próximos do primeiro-ministro são acusados de envolvimento em ações irregulares durante a guerra, incluindo tentativas de difamar o Egito e minar negociações de libertação de reféns, sob orientação e financiamento do Catar.
E não se pode esquecer que em Gaza ainda há um refém morto cuja devolução permanece pendente – uma obrigação que o Hamas deve cumprir antes de qualquer avanço.
O ano de 2026 se anuncia desafiador em todas as frentes. Resta esperar que as eleições possibilitem uma mudança – simplesmente porque o povo israelense merece.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Flickr/Casa Branca
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