A fase 2 em Gaza: entre questões israelenses de segurança e a luta palestina pela narrativa
Revital Poleg
Desde o anúncio da entrada na fase 2 do Plano dos 20 Pontos – que passou a uma etapa operacional do ponto de vista israelense após a devolução do corpo do último refém, Ran Guivli z”l, o debate sobre Gaza vem sendo gradualmente preenchido por novos conceitos: comissão de tecnocratas, Conselho de Paz (BoP), Força Internacional de Estabilização (ISF) e questões técnicas como a distribuição dos recursos para a reconstrução e a gestão dos serviços de saúde.
Enquanto Israel se concentra – e, do seu ponto de vista, com ampla justificativa – em questões de segurança, como a desmilitarização do Hamas, quem deterá as armas e a preservação da chamada “linha amarela”, no campo palestino está em curso uma disputa mais profunda: quem definirá Gaza? Será a Autoridade Palestina, que busca enquadrar Gaza como um projeto estatal voltado à reconstrução, ao desenvolvimento e à autodeterminação ao lado de Israel, ou o Hamas, que trabalha para manter a Faixa como uma base permanente de resistência armada, utilizando a reconstrução apenas como uma pausa tática entre ciclos de violência?
Trata-se de uma disputa pelo “narrativo” – o relato identitário palestino que determinará se a fase 2 produzirá para Israel um vizinho com o qual seja possível conviver ou se perpetuará um inimigo existencial. Israel, que prefere concentrar-se na dimensão da segurança, evita por ora a questão estratégica mais profunda: como influenciar essa disputa sem ser arrastado novamente para o atoleiro palestino.
Para compreender o dilema israelense diante da fase 2, é preciso observar o que ocorre “além da cerca”, não apenas no sentido geográfico, mas no plano das ideias e da identidade. Já não se trata de um conflito territorial clássico por controle, mas de um embate entre duas visões palestinas antagônicas sobre a essência do projeto nacional palestino, ambas extremamente desafiadoras para Israel, porém com implicações radicalmente distintas para o seu futuro. Vale, portanto, observá-las mais de perto.
Na sua própria concepção, o Hamas se vê como herdeiro de uma longa tradição de “resistência armada”. Nessa lógica, o ataque de 7 de outubro não é apenas um “evento”, mas uma tentativa de inserir a luta palestina numa continuidade histórico-religiosa: Saladino, jihad, a “libertação da Palestina do rio ao mar”. Mesmo quando aceita, de forma tática, a criação de uma comissão civil de tecnocratas para administrar o cotidiano, o Hamas não abdica da ideia de que as armas e a capacidade de as utilizar constituem o núcleo do projeto. É possível afastar o Hamas da gestão diária, mas enquanto seus foguetes e batalhões de combate sobreviverem, a “verdadeira luta” não terá terminado.
A Autoridade Palestina e o Fatah, por sua vez, continuam a se apegar à linguagem dos Acordos de Oslo, de um “Estado palestino ao lado de Israel” – seja nos acordos, na ONU ou nos corredores diplomáticos. Para eles, o 7 de outubro foi um desastre estratégico que corroeu ainda mais sua legitimidade junto à população palestina, em contraste com o Hamas, que passou a contar com crescente apoio popular. A crise profunda da Autoridade é multifacetada: liderança envelhecida, corrupção, distanciamento da sociedade palestina e a imagem de colaboração com Israel. Mesmo que a Autoridade retorne à Gaza, para muitos jovens palestinos ela será vista como um regime imposto, não como a realização do sonho nacional.
Embora, do ponto de vista do governo israelense, nenhum dos campos – Hamas ou Fatah – seja considerado um “parceiro conveniente”, ou sequer um parceiro, é crucial compreender que no espaço palestino não se trata de um jogo de soma zero entre “violência” e “moderação”. Trata-se de uma disputa interna palestina sobre o rumo do projeto nacional: se ele continuará a ser definido principalmente pela resistência armada e pela imagem de um conflito eterno, ou se tentará se redefinir como um projeto estatal e civil, com responsabilidade, instituições e fronteiras.
Diante dessa fratura, Israel entra na fase 2 em uma posição de ambivalência complexa. Oficialmente, Jerusalém reafirma: “não podemos aceitar o Hamas em Gaza”, e com razão. Nenhum Estado pode conviver ao lado de uma organização assassina que declara abertamente sua intenção de destruí-lo e o demonstrou em 7 de outubro. Ao mesmo tempo, Israel deixa claro que não está disposto a permitir o retorno da Autoridade Palestina ao controle de Gaza. Aos olhos do atual governo, a Autoridade é um “fracasso histórico” e, se liderar a reconstrução, isso fortalecerá a pressão internacional por um acordo político mais amplo, ou seja, pela solução de dois Estados, uma linha vermelha política para a coalizão atual.
Então, qual é a alternativa? É aqui que começa o problema. Por necessidade e em um silêncio eloquente, Israel acabou aceitando a composição da comissão de tecnocratas, cujos membros, em sua maioria, têm vínculos com a Autoridade Palestina, embora sejam definidos como “não políticos”. No entanto, o logotipo da comissão divulgado recentemente, muito semelhante ao emblema da Autoridade Palestina, foi rejeitado com veemência pelo gabinete do primeiro-ministro, que deixou claro: “Israel não aceitará o uso do símbolo da Autoridade, e a Autoridade não será parceira na gestão de Gaza”.
Paralelamente, o governo evita deliberadamente definir para si mesmo e certamente para o público, o que exatamente deseja ver além da cerca: um Estado desmilitarizado ao lado de Israel? Um projeto de reconstrução meramente técnico, desprovido de qualquer horizonte político? Ou uma forma de “administração local” sem referência às aspirações nacionais? Enquanto a ala mais extremista da coalizão sonharia com ocupação e assentamentos, no realismo político da era Trump isso simplesmente não é uma opção.
É fundamental enfatizar: a recusa em definir um objetivo não é um ato neutro, nem a preservação do status quo. A experiência histórica mostra que essa omissão tende a produzir, por padrão, o cenário mais extremo. Quando Israel se recusa a distinguir entre um modelo estatal-civil e um modelo de resistência violenta, e quando se opõe, na prática, a qualquer caminho que leve a alguma forma de soberania palestina, acaba fortalecendo o desfecho mais radical: o enfraquecimento contínuo da Autoridade Palestina até a irrelevância e o ressurgimento e a consolidação do Hamas e de suas variações.
Em vez de definir para si um objetivo político preferencial para o futuro que se desenha em Gaza e agir para promovê-lo junto a uma administração americana sensível a seus argumentos, ainda que não concorde com todos eles – Israel concentra-se hoje quase exclusivamente na desmilitarização de Gaza e na eliminação de sua capacidade militar enquanto território. Não se pode minimizar a importância do desarmamento do Hamas; trata-se de uma condição básica, vital e indispensável para a segurança nacional de Israel. No entanto, se o debate israelense se limitar à pergunta “quem controla as armas”, sem enfrentar a questão mais profunda – “quem controla a narrativa” -Israel poderá descobrir que, no máximo, conseguiu conter parte da ameaça militar, enquanto simultaneamente se fortaleceu a aspiração palestina por um projeto violento e não estatal.
Mas também do outro lado da equação, o dos tecnocratas e da comunidade internacional, o quadro não é mais simples. Uma comissão profissional pode administrar esgoto, orçamentos e serviços civis; pode operar um sistema, mas não pode e não deve conferir-lhe significado nacional. Essa realidade deixa o espaço palestino em Gaza dilacerado entre um projeto de “resistência”, que se vê como a continuidade da luta armada, e uma tentativa frágil, porém existente, da Autoridade Palestina de moldar um projeto estatal-civil. Essa fissura é uma receita para problemas, tanto internos quanto do ponto de vista de Israel.
Qualquer modelo técnico, por mais eficiente que seja, se desprovido de uma narrativa orientadora que defina seu objetivo político-nacional, não será capaz de obter ampla legitimidade pública palestina. Ao lado da sensação de alívio pelo fim da guerra e pelo início declarado da reconstrução da Faixa, um processo publicamente celebrado no mundo árabe, o anúncio da fase 2 é percebido, do ponto de vista palestino, também como uma imposição externa, cujos objetivos não estão suficientemente claros. Essa ambiguidade pode prejudicar seriamente as chances de se construir uma estrutura de governo estável e segura do ponto de vista da segurança.
Do ponto de vista israelense, permanecem muitas questões em aberto quanto à implementação dessa fase 2. Ainda não está claro como o controle será transferido à comissão de tecnocratas, como o Hamas será desarmado, que tipo de supervisão existirá sobre esse processo e se há uma alternativa em caso de fracasso. São questões de enorme peso em todos os aspectos. Mas além disso, é fundamental que Israel decida se deseja continuar a administrar um conflito com um projeto palestino sem um objetivo político acordado, ou se pretende empurrá-lo com cautela, mas de forma consciente, para uma direção com a qual seja possível conviver.
Mesmo que nem todas as decisões estejam em suas mãos, Israel precisa saber o que é melhor para si nesta realidade. A recusa em escolher não é um vazio político; é, em si mesma, uma escolha estratégica, e talvez a mais perigosa de todas.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Flickr/World Bank Photo Collection
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