Negociações sob fogo: Israel entre a guerra e a diplomacia no Líbano
12 maio 26

Negociações sob fogo: Israel entre a guerra e a diplomacia no Líbano

Revital Poleg

Na próxima quinta-feira, 15 de maio, será realizada em Washington a terceira rodada de conversas diretas entre representantes de Israel e do Líbano, sob mediação americana. Mesmo que as duas rodadas anteriores ainda estejam longe de representar um avanço concreto, o simples fato de essas conversas ocorrerem – pela primeira vez desde o colapso do acordo de 1983 – já constitui um desenvolvimento estratégico relevante: uma tentativa inicial de avaliar se é possível começar a afastar o Líbano, ainda que gradualmente, do eixo Hezbollah-Irã e, talvez, iniciar um processo gradual de normalização entre os dois países após décadas de conflito. 

Como costuma acontecer no Oriente Médio, as circunstâncias em que esse movimento ocorre são complexas. Ao fundo desse processo esteve uma exigência prévia apresentada pelo Irã aos Estados Unidos: um cessar-fogo abrangente e uma retirada israelense do sul do Líbano como condição para avanços em um entendimento mais amplo entre Washington e Teerã. Na prática, esse caminho parece distante de se concretizar, e os lados seguem endurecendo posições. Embora um cessar-fogo anunciado por Donald Trump tenha entrado em vigor em 17 de abril de 2026, o Hezbollah, principal proxy iraniano na região, não se considerou comprometido com ele e rapidamente voltou a lançar ataques contra Israel, que respondeu com seus próprios bombardeios. O resultado é um processo cuja intensidade vem aumentando e que mantém a fronteira norte de Israel tensa e sob fogo constante. Expõe-se, assim, o abismo entre as declarações diplomáticas e a realidade no terreno.

Cria-se, dessa forma, um paradoxo: enquanto em Washington ocorrem conversas diplomáticas, no norte de Israel a guerra continua em diferentes níveis de intensidade. Os moradores da linha de fronteira, evacuados desde outubro de 2023 por temor de um ataque semelhante ao de Gaza, passaram meses longe de casa e começaram a voltar à região a partir de março de 2025, após avaliações do governo e do Exército israelense de que seria possível permitir um retorno gradual.

A promessa era de que o Hezbollah havia sido enfraquecido e dissuadido, e de que a tranquilidade voltaria. Na prática, porém, as localidades da fronteira continuam sofrendo ataques diários, enquanto a guerra prolongada no sul do Líbano impõe aos moradores do norte uma rotina marcada por sirenes constantes e pela ameaça permanente de drones e foguetes.

Para esses moradores, as conversas em Washington não são percebidas como um “processo histórico”, mas como um ruído distante diante de uma realidade em que o retorno para casa se revelou uma falsa promessa, e na qual a distância entre os discursos sobre uma solução diplomática e a segurança concreta no terreno continua aumentando.

Embora Israel não tenha entrado nessas conversas por iniciativa estratégica própria, mas principalmente por pressão de Washington, elas ainda representam uma oportunidade significativa para ambos os lados avaliarem um caminho diferente da escalada contínua. Pela primeira vez em décadas, Beirute oficial declara interesse em um processo bilateral desse tipo e mostra disposição para lidar com a questão israelense não apenas como um campo de ação exclusivo do Hezbollah, mas como um tema diplomático debatido em torno de uma mesa americana, na qual existe também um custo interno e internacional para a continuidade dos ataques.

Para as elites políticas e econômicas do Líbano, mergulhadas em uma profunda crise econômica e política, a abertura desse canal direto sob patrocínio americano reforça a pergunta sobre até que ponto o interesse nacional libanês ainda coincide com os do Hezbollah e do Irã. Caso surja um modelo capaz de garantir um cessar-fogo relativamente estável, reconstrução de infraestrutura e apoio econômico, a responsabilidade pela continuidade da guerra contra Israel recairá de forma mais clara sobre a organização xiita armada e deixará de se diluir completamente sob a narrativa de uma “resistência nacional libanesa”.

Apesar das expectativas que um movimento desse tipo desperta entre aqueles que defendem uma mudança positiva na dinâmica do Oriente Médio em geral, e na fronteira entre Israel e Líbano em particular, é importante evitar projeções excessivas. Mesmo que em Washington se fale em um “acordo de paz”, ainda é cedo para identificar sinais concretos de uma normalização pública das relações entre os dois países. O presidente do Líbano, atuando sob forte pressão do Hezbollah e enfrentando duras críticas internas pela própria existência do canal de diálogo com Israel, afirmou explicitamente que o país está aberto a examinar acordos de segurança e diplomáticos capazes de reduzir a tensão ao longo da fronteira, e que o Líbano aspira a um cessar-fogo estável e a um arranjo de longo prazo para a região sul do país.

Nessas circunstâncias, parece razoável supor que seja possível avançar em direção a um acordo político e de segurança baseado em três componentes: uma redefinição clara da linha de fronteira; uma presença mais efetiva de forças estatais e internacionais no sul do Líbano, em substituição ao modelo fracassado da UNIFIL; e limitações práticas à presença do Hezbollah e de seus armamentos avançados próximos da fronteira. Isso não representa a “eliminação” da organização, mas, caso consiga – ainda que parcialmente – devolver o sul do Líbano à esfera de responsabilidade estatal, e não miliciana, poderá alterar as condições estratégicas sob as quais Israel opera desde 2006.

Justamente aqui se revelam os limites do poder israelense. Meses de ataques aéreos precisos, danos a quartéis-generais, depósitos de armas e até mesmo a comandantes de alto escalão não conseguiram pôr fim aos lançamentos de foguetes, drones e mísseis antitanque contra o norte de Israel. Avaliações públicas de centros de pesquisa e órgãos de segurança indicam que, mesmo após tréguas e entendimentos temporários, o Hezbollah conseguiu reconstruir rapidamente parte de sua capacidade, e o conflito vem se transformando em um prolongado desgaste mútuo, em vez de produzir uma vitória clara.

A superioridade militar e tecnológica de Israel não se traduz em conquista política, porque o confronto ocorre contra uma organização com profundidade regional, inserida em uma estrutura estatal frágil, e não contra um exército regular que representa um Estado claramente definido. 

Não se trata apenas de uma falha pontual de concepção militar; trata-se de uma limitação estrutural daquilo que o poder, sozinho, pode alcançar. Assim como os Estados Unidos descobriram, diante do Irã, que um enorme arsenal militar não garante a capacidade de impor um acordo político estável a um adversário que atua por meio de proxies, pressão econômica e guerras de desgaste, Israel também descobre que, sem uma mudança profunda no contexto libanês-iraniano, não existe um cenário realista de “eliminação do Hezbollah” no curto prazo.

Promessas de “eliminação total”, frequentemente utilizadas como ferramenta política interna, não apenas afastam o debate da realidade; também podem colocar o governo diante de um dilema impossível no momento em que um acordo parcial – ampliação de uma zona desmilitarizada, garantias americanas e supervisão internacional – for colocado sobre a mesa, exigindo uma escolha entre aceitar um acordo “imperfeito” ou prosseguir em uma guerra aberta.

Daí deriva a questão estratégica central: Israel possui hoje uma política coerente para a arena libanesa ou está apenas reagindo a pressões sucessivas – americanas, iranianas e internas – sem definir para si mesmo um objetivo claro e realista?

Até o momento, a imagem que emerge é a de uma política de facto, não de jure: evitar medidas dramáticas que possam comprometer as negociações em Washington; responder de forma relativamente calculada aos ataques do Hezbollah para não escalar para uma guerra total; e, paralelamente, utilizar perante o público um discurso de “vitória” e “eliminação” para não parecer estar cedendo. Surge, assim, uma contradição interna: entre uma frente militar administrada sob um teto muito claro de limitações e uma frente política que insiste em preservar uma narrativa de poder ilimitado. 

Nesse sentido, a falha política não reside apenas no fato de o governo ter ido às negociações porque foi pressionado externamente; reside também no fato de que, mesmo diante da abertura de uma estreita janela de oportunidade, ele evita definir para a população – sobretudo para os moradores do norte – qual é o verdadeiro objetivo que pode ser alcançado. Um governo que continua falando em “retorno seguro” e em “fim da ameaça”, sem admitir claramente que a questão não é se o Hezbollah desaparecerá, mas até que ponto será possível afastá-lo da fronteira e limitar sua capacidade militar, apenas empurra para diante a próxima crise de confiança. O fracasso aqui não é apenas moral, mas também profissional: dificulta a formulação de uma política coerente e reduz o espaço de manobra israelense tanto diante de Washington quanto de Beirute.

Israel encontra-se agora diante de uma escolha politicamente desconfortável, mas necessária para uma política responsável: reconhecer que não existe solução mágica para o norte do país e optar por uma estratégia baseada no retorno da responsabilidade estatal ao sul do Líbano, no afastamento gradual do Hezbollah da fronteira e em seu enfraquecimento progressivo, em vez de sustentar a ideia de uma “eliminação total” sem qualquer base realista.

Essa escolha exige abrir mão consciente de parte da retórica política cuja credibilidade hoje é questionada, em favor de um discurso mais transparente sobre os limites do poder e sobre um processo gradual e prolongado, que exige tanto cooperação estreita com Washington quanto disposição para pagar preços no curto prazo. Quem promete aos moradores do norte “tranquilidade absoluta” em um futuro próximo não apenas os engana; também se exime da obrigação de formular uma política séria e prefere mais uma rodada de guerra ao planejamento responsável.

No Oriente Médio de 2026, conversas de paz sob fogo não são um paradoxo, mas a própria realidade. A questão é saber se Israel aproveitará esse momento para formular uma estratégia coerente diante do Líbano e do Hezbollah ou se continuará administrando o norte do país entre sirenes e escaladas militares, enquanto as decisões realmente importantes seguem sendo tomadas em outras salas, em Washington e Teerã.



Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

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