Da pedra ao aço: PL da deputada Erika Hilton propõe incluir Rosely Roth no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria
28 ago 26

Da pedra ao aço: PL da deputada Erika Hilton propõe incluir Rosely Roth no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria

Por Daniela Wainer, escritora e ativista

Em agosto de 2024, inauguramos a matzeiva (lápide) da Rosely Roth, num gesto que simboliza a preservação da sua memória. Em junho de 2026, nasce uma nova proposta: desta vez, em aço. Explico-me: a deputada Erika Hilton está propondo um Projeto de Lei (PL) para inclusão do nome de Rosely Roth, ativista lésbica judia, no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, também conhecido como o Livro de Aço.

Este livro reúne o nome de brasileiras e brasileiros considerados heroínas e heróis por suas contribuições ao país. A obra é um patrimônio cultural tombado e fica guardada no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, onde é possível manuseá-la. Suas páginas são feitas de aço. A inscrição de uma nova personagem depende de lei aprovada no Congresso. Ressalte-se a discrepância de gênero: até meados de 2026, o livro continha aproximadamente 55 homens e 13 ou 14 mulheres (os valores são aproximados pois o livro está desatualizado).

E por que Rosely Roth merece estar neste livro? Porque a história da luta lésbica-feminista é, também, História do Brasil. Ela tem sido construída com sangue, lágrimas e paixão por personagens que vêm contribuindo para tornar esta nação mais democrática e inclusiva. Nos capítulos iniciais desta história, destaca-se esta ativista brilhante, dotada de um carisma e de uma capacidade de articulação – tanto verbal quanto política – das mais raras. 

Não à toa, Rosely Roth foi parar no programa Hebe, em 1985 – uma referência na época – para falar sobre lesbianidade num momento em que o país saía da ditadura militar e o Conselho Federal de Medicina (CFM) retirava oficialmente o termo “homossexualismo” do rol de doenças e desvios sexuais. Naquela noite de sexta-feira, Rosely entrou na casa de todas as famílias brasileiras, se dirigiu abertamente “a todas as lésbicas do Brasil” e falou: “(o que faz mal) não é a nossa sexualidade, mas a repressão que a gente sofre, o policiamento é que faz mal”. O vídeo está disponível neste link.

 

Foi dessa maneira que Rosely se tornou a primeira lésbica a falar abertamente sobre este tema na televisão brasileira. Em seguida, o programa foi ameaçado de censura.

Se Rosely tivesse apenas ido ao programa da Hebe, dayenu! Já nos bastaria!

Mas Rosely fez mais. 

Se ela apenas tivesse sido uma das organizadoras do Levante do Ferro’s bar, evento no qual um grupo de lésbicas invadiu um bar para lutar pelo seu direito a existir e vender ali o seu boletim, dayenu! Já nos bastaria!

Se Rosely apenas tivesse sido uma das responsáveis pelo ChanacomChana, o boletim de temática lésbica que foi publicado durante cerca de 6/7 anos, sendo o boletim sapatão mais longevo da época e que, como nos conta Marisa Fernandes, “tirava as lésbicas efetivamente das mãos dadas com a morte”, dayenu! Já nos bastaria!

Se ela apenas tivesse sido parte do GALF, Grupo de Ação Lésbica-Feminista, responsável por organizar tantos eventos, debates, acolhendo, fazendo articulação com os diversos movimentos sociais que voltavam a se organizar no Brasil pós-ditadura e com parlamentares – dayenu! Já nos bastaria!

Se ela apenas tivesse escrito artigos sobre a Constituinte e incentivado suas leitoras a participarem do debate nacional –

Se Rosely apenas tivesse feito parte do “lobby homossexual” (formado por grupos como o GALF, Triângulo Rosa, Grupo Gay da Bahia e outros), cujo objetivo era lutar pela inserção de um item contra a homofobia na Constituição de 88, pauta que foi derrubada pela intensa pressão conservadora e de setores religiosos –

Se ela apenas tivesse apenas sido aquela garota judia do colégio Scholem, que andava pelas ruas do Bom Retiro com sua amiga Ivy Judensnaider, incentivando-a a se libertar dos rígidos padrões de beleza da época –

Dayenu! Já nos bastaria!

No entanto, Rosely não foi apenas esta pioneira do Movimento Lésbico Brasileiro, enfrentando a lesbofobia e a misoginia da época, foi também vítima de circunstâncias atrozes que culminaram no seu suicídio com apenas 31 anos de idade, em agosto de 1990. Uma doença mental, espiritual, uma suspeita não confirmada de esquizofrenia, o abandono no qual se viu, a falta de tratamento adequado. Tudo o que fez com que ela saísse de São Paulo e, desamparada, chegasse ao Rio de Janeiro, fugindo das cerca de cinco internações em diferentes instituições psiquiátricas para as quais dizia que não aguentaria retornar. Aquela garota cujo crime foi ser, não apenas lésbica, mas uma lésbica visível, num momento em que quase ninguém ousava se assumir publicamente pelo risco de ser expulsa de sua família, de perder o emprego e de romper com todos os outros vínculos sociais. 

O túmulo de Rosely Roth permaneceu sem lápide por 34 anos quando, finalmente, o coletivo Gaavah e o Instituto Brasil-Israel se uniram para reparar esse erro histórico. No dia 25 de agosto de 2024, com a ajuda de uma campanha de financiamento coletivo, inauguramos sua matzeiva (lápide) sobre a qual colocamos 34 pedras, lembrando cada ano em que não foi visitada. Colocar pedras é o ritual judaico para simbolizar a memória. Com estas pedras, estamos dizendo “não nos esqueceremos”. 

Agora, uma nova iniciativa procura dar continuidade a este movimento de consagração da sua memória.  

Por isso, celebramos a iniciativa do PL da deputada Erika Hilton com a consciência de que um gesto como este é mais um passo na direção daquilo que almejamos a cada instante da nossa existência: o tikun olam, a reparação do mundo. 

Tarefa que a heroína do nosso texto encarou de frente.

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