Não basta rememorar: é preciso o comprometimento com os aprendizados de Tisha Beav
10 ago 19

Não basta rememorar: é preciso o comprometimento com os aprendizados de Tisha Beav

Salomao Nicilovitz

Em Tisha Beav se lembra, se permite à memória tornar-se protagonista do dia. Se evocam marcas indeléveis tatuadas na história dos judeus, rastros de um passado atroz, distante e ao mesmo tempo presente, morto mas também ativo.

O 9º dia de Av – 5º mês do calendário judaico – é um dia aberto ao lamento. Se relembra a destruição do Primeiro e do Segundo Templo de Israel, nos anos 586 a.C e 70, respectivamente. É um dia de jejum, seja de comida ou da rotina. Momento do ano em que se olha para si e para quem está a sua volta, meditando sobre quem somos e como chegamos até onde hoje estamos; reclamamos a opressão e a tristeza, nos indignamos com injustiça e com a indiferença, reconhecendo que ambas são causadas por nós, gente humana, extremamente humana.

Mas atenção! Relembrar não é ressentir: o ressentimento é o pai do ódio, e foi justamente este, o ódio gratuito, o responsável pela destruição de Jerusalém. O ódio é afeto impotente, pois oriundo da tristeza, da falta, da mágoa. O ódio é reativo, vingativo, destruidor. O ódio não cria, mas devasta. 

A memória que ativamos em Tisha Be’av deve seguir em outra direção, no caminho da construção e da alteridade. Neste dia, devemos olhar para nós e enxergar o outro: afinal, não existem nas vozes que escutamos, ecos das vozes que emudeceram? É nosso dever realizar estas conexões. Um dia os que gritaram fomos nós, e hoje? Quem grita pela vida e se vê sendo atropelado por ela própria?

Em Tisha Be’av contamos a história de Kamtza e Bar Kamtza.

Certa vez, um homem deu um banquete e pediu para que convidassem seu grande amigo Kamtza. O convite, porém, foi enviado por engano a Bar Kamtza, seu maior inimigo. Quando Bar Kamtza chegou a festa, o homem mandou-o embora. Bar Kamtza implorou para ficar, chegando a sugerir que pagaria o jantar de todos os convidados, mas o homem, inflexível, mandou-o para rua. 

Como vingança, Bar Kamtza tramou contra a cidade, levando a sua destruição. 

Que neste Tisha Beav não tenhamos que escolher entre Kamtzas e Bar Kamtzas. Que optemos pela afirmação da vida e do diferente, não sucumbindo ao ódio gratuito que em nossos tempos transborda. Que sejamos capazes de fugir dos erros que praticamos e tantas vezes insistimos em seguir praticando.

Artigos Relacionados


Os ataques israelenses à Síria: Putin estaria sabendo?

Calendar icon 6 de dezembro de 2017

Durante os seis anos que já duram a guerra civil síria, dezenas de ataques aéreos contra alvos do Hezbollah foram atribuídos a Israel. Até agora, o governo israelense se recusou a reconhecê-los ou negá-los. Entretanto, os ataques realizados em 17/03 foram confirmados por Israel. Tanto o Primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, como o Ministro da Defesa, Avigdor […]

Arrow right icon Leia mais
7 de Outubro mudou tudo: Recrutamento dos haredim ainda pode ser evitado?
7 de Outubro mudou tudo: Recrutamento dos haredim ainda pode ser evitado?

Calendar icon 6 de janeiro de 2025

Revital Poleg A questão do alistamento dos haredim no exército não é nova no cenário israelense. Desde a fundação do país, ela tem sido um dos temas mais controversos e divisivos da sociedade e da política de Israel. No entanto, desde os eventos de 7 de outubro de 2023, essa questão deixou de ser apenas […]

Arrow right icon Leia mais
Ideologia em ação: Cortes de orçamento para a sociedade árabe
Ideologia em ação: Cortes de orçamento para a sociedade árabe

Calendar icon 14 de agosto de 2023

Revital Poleg “Minha esposa não vai deitar ao lado de uma mulher que está dando à luz cujo filho poderá matar meu bebê em vinte anos”, disse em 2016 o membro da Knesset Bezalel Smotrich, exigindo segregação nas maternidades entre mulheres judias e árabes.  Ele acrescentou ainda: “Os árabes são meus inimigos e por isso […]

Arrow right icon Leia mais