Jerusalém voltou a ser vermelha
Kike Rosemburt
Faziam 31 anos que o Betar Jerusalém não perdia para o Hapoel. São 21 anos desde o último derby (clássico), antes do Hapoel ser rebaixado. Muitas águas se passaram desde então, até hoje, dia 31/07/2021.
Minha história com o clube Hapoel começou com a criação da sede Kátamon, na periferia de Jerusalém. Eu não não sabia muito da história do Hapoel Jerusalém, e menos ainda como eram os jogos contra o Betar. O sucesso da Kátamon foi justamente atingir o objetivo pelo qual foi criado: ser um time dos torcedores e torcedoras e, além disso, recuperar o Hapoel Jerusalém. Antes da pandemia de Covid, aconteceu a união dos clubes Hapoel Kátamon e Hapoel Jerusalém. Durante do debate sobre o modelo de clube, o nome (Hapoel Kátamon Jerusalém), o símbolo e até as músicas, a única coisa que era clara era que os torcedores queriam o melhor para o clube. O time se unificou e, em 2020, conseguiu subir à primeira divisão. Depois de 21 anos, o Hapoel voltou a jogar contra os melhores times de Israel e voltou a encontrar seu maior rival, o Betar Jerusalém.
O Betar Jerusalém é um contraste ao Hapoel na cidade. Nós, do Hapoel, temos igualdade entre os sócios, compartilhamos valores e mensagens nas arquibancadas, temos uma torcida antifascista, que poia a luta LGBTQ+, o futebol feminino e, principalmente, buscamos unificar populações na periferia de Jerusalém (judeus, árabes, ortodoxos, laicos, etc.), sempre lutando contra o racismo. Já a torcida do Betar foi se radicalizando cada vez mais nos últimos anos. É uma arquibancada ocupada pela torcida organizada “La Familia“, que fomenta o racismo e a violência e que, muitas vezes, foi multada pela Associação de Futebol Israelense.

Hoje, eu, com 39 anos, e meu filho, com 6 anos e meio, vivenciamos essa experiencia de ver um jogo entre o Betar Jerusalém e o Hapoel Kátamon Jerusalém pela primeira vez, juntos. Durante a semana toda ele insistiu para ver o jogo comigo, no estádio. Eu, no começo, falei para ele que não tinha jeito, que ele não poderia ir. Mas, depois, compreendi que, como pai judeu, minha responsabilidade não apenas contar a história de Pessach. Minha responsabilidade é, também, fazer ele se sentir parte da historia.
Saímos relativamente cedo de casa, 3 horas antes do jogo. Chegamos ao Teddy Stadium 2 horas antes, para conseguir um bom lugar no estacionamento. Quando estacionamos, percebi que tinham muitos carros dos torcedores do Betar próximos ao meu carro. Era estranho para mim e para eles. Quando não se encontra seu rival todo dia, não se sabe como tratá-lo. Fora do estádio havia um Status Quo, mas com muito policiamento ao redor.
Passamos a segurança da entrada do estádio com o resultado negativo do exame de Covid e o ingresso para o jogo em mãos. Chegamos à arquibancada 1 hora antes do jogo. Os bancos pouco a pouco foram sendo ocupados e, então, entendemos que o show não seria apenas no campo, mas também na arquibancada.
O clima era enérgico: torcedores com o rostos pintados, bandeiras, tambores e muita gritaria. Além das bandeiras rubro-negras do Hapoel, haviam umas bandeiras com um novo design, que tem a bandeira do Estado de Israel estampada no centro, para mostrar ao time nacionalista Betar que nós também somos Israel. Haviam, também, bandeiras com mensagens sociais e uma placa com o mais importante: “Hoje, Jerusalém será vermelha!”. Do lado do Betar, bandeiras amarela e pretas, só com as letras LF (de La Familia), marcando que a arquibancada não era de Betar, mas sim deles.

Eu e Adam, meu filho, nos sentamos na parte do meio, bem em cima da entrada do estádio. Duas fileiras abaixo da nossa fileira de assentos, haviam 4 pessoas: um pai com seus dois filhos e seu irmão, mas o irmão se diferenciava dos outros três. Ele era torcedor do Betar (estava vestido de preto e tinha um cachecol do Betar). “Que legal!”, pensei, “mas será que deixariam algum torcedor do Hapoel sentar na torcida do Betar?”. Quando o pai viu que a arquibancada se enchia cada vez mais, ele explicou para todo mundo ao redor que seu irmão era do Betar, mas eles queriam assistir ao jogo juntos. “Beleza!” todos diziam.

O jogo começou e, diferente do que geralmente acontece, foi um bom jogo a nível futebolístico. Goni Naor, do Hapoel, marcou o primeiro e único gol do jogo. Porém, durante os noventa minutos de jogo e mais cinco de prorrogação, o show de verdade foi na arquibancada. Eu estava maravilhado em ver que acontecia, como as pessoas tentavam entender que era tudo realidade. Adam estava sentado ao meu lado e, do outro lado, estava meu amigo Uri Levy (grande jornalista esportivo no Oriente Médio) com seu tio. Todos sentíamos as mesmas emoções. Quando o juiz finalizou o jogo, a torcida do Hapoel explodiu de alegria. O Hapoel venceu o Betar!
Já a do Betar, xingou a torcida adversária de zoná (prostitutas).
A verdade é que foi uma noite sensacional. Mas não foi apenas uma noite. Foram mais de mil e uma noites de esforço coletivo, ouvindo historias de glória do passado, entendendo que a torcida complicada do time rival troca de dono a cada 3 anos, enquanto minha torcida é um coletivo de sonhadores. Nós, com valores e com muito esforço, conseguimos entender que, hoje, a vitória sobre o Betar não foi só dos jogadores, foi também das pessoas que torcem por eles.
Voltamos à primeira divisão! Jerusalém voltou a ser vermelha. Yallah Hapoel!
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