As quatro tribos de Israel
30 ago 17

As quatro tribos de Israel

Gilberto Sarfati

“Nova ordem israelense” foi a expressão utilizada pelo presidente do país, Reuven Rivlin, no 15º Congresso de Herzlia, em junho de 2015, para nomear o maior desafio de Israel desde as Guerras de 1967 e 1973 (as guerras de ameaça à existência ao país). Até meados da década de 1990, a sociedade israelense contava com uma sólida maioria de judeus sionistas seculares e três grupos minoritários principais: árabes, judeus religiosos-ortodoxos e judeus religiosos-nacionalistas. Esta sólida maioria permitiu a construção de instituições democráticas exemplares e uma economia inovadora e vibrante. Por outro lado, quando o próximo ano acadêmico começar, em setembro de 2018, os alunos da primeira série fundamental serão 38% judeus seculares, 25% árabes, 22% judeus religiosos-ortodoxos e 16% judeus religiosos-nacionalistas, segundo dados do Centro de Estatística de Israel.

Em outras palavras, por volta de 2040, a democracia israelense viverá uma realidade na qual metade de sua população não se definirá como sionista. Portanto, a pressão demográfica exigirá a construção de um novo consenso social que permita que Israel siga tendo uma economia e uma democracia vibrantes.

No passado e, provavelmente no imaginário de grande parte das pessoas até hoje, as grandes diferenças em Israel se resumiam a judeus sefaradim (orientais) e ashkenazim (europeus), posições de esquerda e direita ou mesmo entre pobres e ricos. Entretanto, segundo dados do Israeli Democracy Intitute, tanto judeus quanto árabes acreditam que a relação entre os dois grupos é a mais conflituosa da sociedade israelense atual. Chama a atenção também que 84% dos judeus tenham orgulho de ser israelenses versus 39% dos árabes.

O presidente Rivlin entende que o espectro sionista da sociedade israelense terá que abandonar a visão de maioria versus minoria e mover-se para um consenso de parceria entre os diversos grupos sociais. De acordo com ele, há quatro pilares para o estabelecimento dessa parceria. O primeiro, o senso de segurança de cada grupo, em especial a preservação da identidade e das respectivas instituições. O segundo é a responsabilidade compartilhada. Quando nenhum grupo é a maioria, o futuro de Israel depende da participação de cada grupo no processo decisório, pois parceria exige responsabilidade. O terceiro pilar é a equidade e a igualdade. Não pode haver nem discriminação nem favorecimento a nenhum cidadão de nenhum grupo ao acesso ao sistema econômico e à infraestrutura promovida pelo Estado. O quarto é um sentido de compartilhamento de uma identidade israelense. O mosaico social não é uma condenação e, sim, uma oportunidade para aprofundar um senso de identidade que abrace a multiplicidade de culturas e valores.

Seriam as quatro tribos o fim do sionismo? O sionismo é o movimento de autodeterminação do povo judeu no Estado de Israel. O país sempre será o lar do povo judeu refletido na chamada Lei do Retorno (lei que permite que os judeus imigrem para Israel) e no caráter especial da relação entre o Estado de Israel e a diáspora judaica. Em outras palavras, as quatro tribos não devem descaracterizar o significado do sionismo. Entretanto, a democracia israelense tem um enorme desafio diante de si. As desigualdades sociais e a assimetria de responsabilidades sociais entre o espectro sionista e não sionista (por exemplo, grupos de árabes e de judeus ortodoxos que não servem o exército e/ou não contribuem com o mercado) são imensas. Portanto, o contrato social terá que ser redefinido trazendo árabes e judeus-ortodoxos para o mercado de trabalho qualificado (mão de obra universitária, em especial em carreiras ligadas a tecnologia) e compartilhando com eles o ônus da defesa do país.

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