EDITORIAL: Nem todo muro é de concreto
14 set 17

EDITORIAL: Nem todo muro é de concreto

Construir muros é uma das formas mais antigas de afastar quem nos causa medo ou mesmo de evitar contato com aqueles cuja presença é simplesmente indesejada. Se a promessa de um mundo hiperconectado, esgarçando as fronteiras entre pessoas, fazia crer que essa forma rudimentar de separação estava com os dias contados, percebe-se, ao contrário, que tais barreiras só aumentam.

No contexto do conflito entre israelenses e palestinos, essa realidade também se faz presente. Muros, cercas e checkpoints construídos pelo governo de Israel em nome da segurança já estão integrados à paisagem local. Se, por um lado, reduziram o número de atentados, por outro, avançam sobre a Cisjordânia e trazem limitações à circulação dos que ali habitam. Mas estas não são as únicas barreiras que apartam os dois povos.

Em resposta ao muro de concreto (e somando-se a outras demandas), organizações da sociedade civil palestina, apoiadas por movimentos sociais em diversas partes do mundo, constroem seus próprios muros – simbólicos – por meio de campanhas de boicotes contra instituições e cidadãos israelenses ou, simplesmente, “sionistas”.

Sem distinguir o que é território israelense reconhecido internacionalmente e o que é território ocupado ou em disputa, e sem diferenciar governo e sociedade civil, tais campanhas atribuem a pessoas comuns a responsabilidade por ações que, muitas vezes, elas mesmas condenam. Dessa forma, procuram impedir que estrangeiros tomem parte em eventos acadêmicos, esportivos e culturais em Israel, e propõem barrar a participação de israelenses em geral em ações do tipo pelo mundo, independentemente de posicionamento político ou de responsabilidade direta nas ações do país. 

O conflito, assim, se transforma na disputa pelo muro mais alto, pela barreira mais eficaz para isolar o adversário, como se a vitória de um lado dependesse da derrota do outro. Nessa guerra de muros, aqueles que não compartilham da gramática da separação são duplamente excluídos, pelos lados “de cá” e “de lá”. Isto é, quem, apesar de tudo, insiste nos encontros e aposta que não é preciso abrir mão da identidade nacional – nem da sua, nem da do outro – para superar as diferenças, encontra resistência em barreiras de dois tipos: as de concreto e as simbólicas. 

Nenhuma forma de muro vale a pena.

p.p1 {margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica}
p.p2 {margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px}

Artigos Relacionados


Natal Cristão no Estado Judeu: entre celebração e desconfiaça

Calendar icon 20 de dezembro de 2018

TEL AVIV – O Natal está presente nas vitrines do Sul de Tel Aviv. Árvores de Natal, guirlandas, bonecos de Papai Noel… Neve artificial enfeita os arranjos, mesmo que não haja sinal de neve real no começo do inverno, em Israel. Mas, como o Estado no qual três em cada quatro pessoas são judias lida […]

Arrow right icon Leia mais

Alunos debatem aspectos multiculturais das sociedades palestina e israelense

Calendar icon 31 de maio de 2019

Para trazer o tópico da diversidade cultural existente em Israel e na Palestina, a quinta aula do curso “Precisamos falar sobre Israel e Palestina”, realizada na última quinta-feira (30), propôs aos alunos uma atividade de “role-play”. A dinâmica de grupo foi conduzida por Alexandra Nigri e Michelle Fidelholc. Cada participante ganhou um cartão que indicava […]

Arrow right icon Leia mais
E eu com isso? #205 Fauda: Ficção ou realidade?
E eu com isso? #205 Fauda: Ficção ou realidade?

Calendar icon 9 de fevereiro de 2023

CUIDADO COM SPOILERS! Com certeza você deve ter assistido ou, pelo menos, já ouviu falar da série de TV Fauda. A gente inclusive já falou da série por aqui, no episódio 65. A série israelense tem ação, drama, suspense, espionagem e recentemente a quarta temporada da série chegou nas plataformas de streaming e, com isso, […]

Arrow right icon Leia mais