Estudante espalha cartazes na USP chamando atenção para o antissemitismo
08 ago 19

Estudante espalha cartazes na USP chamando atenção para o antissemitismo

Laura Baptista, de 21 anos, é estudante de Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Na semana passada, ela começou a espalhar cartazes com a definição da palavra “antissemtisimo” pelos corredores da instituição, chamando a atenção para o preconceito e a discriminação contra os judeus no campus. “Indicar o que é antissemitismo, mesmo que em sua definição mais básica encontrada no dicionário, é um caminho para chegar na mente das pessoas”, afirma. Em entrevista ao IBI, ela falou sobre a experiência.

O antissemitismo está presente na USP? De que maneira ele se expressa?

É chato admitir, mas existe antissemitismo dentro da USP – tímido, mas existe. Por experiência própria posso afirmar que se reproduz o discurso de ódio ao judeu de forma constante, mesmo inconscientemente, por piadinhas que parecem inofensivas. Se perguntado a qualquer aluno ou frequentador da universidade se o mesmo se considera antissemita, a resposta certamente será não, mas dentro de sua mente ainda existirá um mundo de estereótipos acerca da cultura judaica. E está aí o pulo do gato: estereótipos nascem da falta de conhecimento e, se não forem adequadamente tratados, se tornarão uma forma de preconceito mais profunda e preocupante. Indicar o que é antissemitismo, mesmo que em sua definição mais básica encontrada no dicionário, é um caminho para chegar na mente das pessoas, afinal, nem sempre ligamos o significante ao significado.

Você recebeu algum tipo de apoio? Há instâncias às quais é possível recorrer para reportar casos como esse?

Dentro da universidade temos a Comissão de Direitos Humanos da USP e outras instâncias como o USP Mulheres, a Comissão de Ética da USP, o Núcleo de Estudos da Violência, além da Superintendência de Proteção e Prevenção Universitário. Já precisei procurar coletivos e entrar em contato com estes para amigos que sofreram LGBTfobia, contudo, nada de fato foi feito – isso nos casos em que conseguimos entrar em contato – assim, é difícil acreditar que em um caso extremo de antissemitismo algo seria feito pelo aluno. Acredito, inclusive, que levantar a voz diante o antissemitismo dentro da universidade é um ato de rebeldia que ainda não tive coragem: há o estereótipo do judeu rico, ranzinza, de direita conservadora e que pouco se importa com as vidas palestinas.

Na sua opinião, por que o antissemitismo não é levado tão a sério na pauta dos movimentos estudantis, a exemplo do machismo, racismo ou islamofobia?

Colocar o antissemitismo dentro das pautas dos movimentos estudantis seria uma tarefa árdua, visto que dado aos estereótipos se cria a falsa impressão de que o judeu não é uma minoria, mas sim parte daqueles que oprimem e destilam preconceitos. A universidade deve cumprir seu papel intelectual em todas as áreas da vida, nos ajudando a conhecer mais sobre a cultura do próximo. A prova disso é o fato de ter feito uma amiga no curso de origem síria, que me afirmou abertamente que sua família odeia judeus. Se não fosse pela troca de experiências que a USP propõe, talvez nunca tivéssemos nos tornado amigos. Estamos em um ambiente com pessoas supostamente dispostas a entender o mundo e o próximo e isso deve ser colocado em prática. É preciso entender não apenas a cultura ou língua que é desconhecida, mas também desconstruir os estereótipos que temos sobre o outro. É fundamental entender o que significa o antissemitismo, como é sua face em pleno 2019 e se aquela piadinha feita para o amigo judeu foi realmente necessária.

Artigos Relacionados


“O atentado à Amia é uma ferida aberta”

Calendar icon 18 de julho de 2018

Ariel Palacios fala ao IBI sobre o atentado ocorrido há 24 anos

Arrow right icon Leia mais

James Green fala sobre antissemitismo nas esquerdas

Calendar icon 14 de agosto de 2017

Professor observa que setores da esquerda reproduzem ideias preconcentuosas quando o assunto são os judeus

Arrow right icon Leia mais

“Sem médicos e enfermeiros árabes, o sistema de saúde de Israel entraria em colapso” diz Dr. Waldan

Calendar icon 25 de março de 2020

Ao que tudo indica, a crise do coronavírus trará mudanças de longo prazo em diversos campos da vida. Economia, política e sociedade já estão passando por transformações rápidas e radicais. Em Israel, essas mudanças também são sentidas. Há pouco, o professor de medicina Rafi Walden, vice-presidente do hospital Sheba, em Ramat Gan (um dos 10 […]

Arrow right icon Leia mais