O que Erdogan quer ao tentar uma reconciliação com Israel?
Daniela KreschTEL AVIV – Ninguém podia imaginar, há apenas alguns meses, que o todo-poderoso “sultão” da Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan, iria fazer um discurso com bandeiras israelenses atrás. Ninguém podia imaginar que Erdogan, que há uma década e meia faz discursos violentamente anti-Israel, receberia um colega israelense com toda a pompa e circunstância em Ancara e posaria para fotos com ele sem ironias, sem cinismo e sem ódio.
Mas tudo isso aconteceu no dia 9 de março de 2022, quando o atual presidente de Israel, Isaac Herzog, desembarcou em Ancara para uma visita oficial à Turquia a convite de Erdogan. Herzog foi recebido por um Erdogan mansinho e “amigável”. Em seu discurso, desfiou a intenção de retomar o bom relacionamento com israelenses.
Foi a primeira visita de uma autoridade de alto escalão de Israel à Turquia desde 2008, quando o ex-presidente Shimon Peres esteve no país. Desde então, o relacionamento entre turcos e israelenses só piorou e chegou quase ao fundo do poço. Nunca houve um corte de relacionamento diplomático total, mas quase. Até hoje, não há embaixadores mútuos nos dois países. Os israelenses não viajam mais em massa à Turquia para as férias, como nos “anos dourados” da década de 90.
A pergunta que todos fazem é: por quê? Por que Erdogan quer se reconciliar com Israel? Por que a mudança de atitude?
“A principal razão é que a Turquia se encontra, há cerca de um ano, muito isolada regional e globalmente e, ao mesmo tempo, o status regional de Israel começou a se fortalecer dramaticamente”, explica o dr. Alon Liel, ex-diretor geral do Ministério das Relações Exteriores de Israel e ex-Encarregado de Negócios na Embaixada na Turquia.
“Erdogan é um líder muito experiente e, depois de 20 anos, ele entendeu que a Turquia fez escolhas erradas e, Israel provavelmente fez as escolhas certas”, continua Liel.
Há quase 20 anos no poder na Turquia – como primeiro-ministro e presidente –, Recep Tayyip Erdogan provavelmente quer o que todos os líderes que se recusam a deixar o poder querem: se manter no poder. Se, antes, gritar contra Israel parecia a ele algo lógico para que ele estabelecesse uma imagem de “líder do mundo árabe-muçulmano”, agora ser aliado de Israel parece o mais lógico.
Erdogan decidiu assumir uma posição anti-Israel no final de 2008, quando começou a “Operação Chumbo Fundido”, a primeira rodada de hostilidades entre Israel e o Hamas, um ano após o grupo terrorista islâmico tomar o poder à força na Faixa de Gaza e intensificar os bombardeios com foguetes e mísseis contra o Sul de Israel.
As imagens das reações militares israelenses em Gaza, ataques aéreos que deixaram cerca de 1.400 palestinos mortos, levaram Erdogan a decidir tomar as dores dos palestinos perante o mundo. A ideia era transformar a Turquia no país líder do mundo árabe-muçulmano. O cenário do primeiro ataque foi o Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro de 2009. Erdogan interrompeu o discurso de Shimon Peres no que ficou conhecido como o “Discurso um minuto” (porque ele exigiu a palavra várias vezes, repetindo “one minute, one minute”).
“Vocês matam pessoas, eu me lembro das crianças que morreram nas praias!”, gritou Erdogan. “Lembro-me de dois ex-primeiros-ministros do seu país que disseram que ficariam muito felizes se pudessem entrar na Palestina em tanques!”, continuou, a altos brados, antes de deixar dramaticamente o palco. O gesto foi aplaudido por muita gente em todo o mundo e Erdogan, aparentemente, gostou da atenção. Depois disso, passou a atacar Israel como parte de sua plataforma política.
Mas, ao que parece, os ataques a Israel não foram motivados só pelo conflito entre Israel e Hamas. Foi mais uma questão de ego e sensação de traição. Em meados de 2008, Erdogan tinha boas relações com o então primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert. Como se sabe, Olmert ambicionava assinar um acordo de paz com a Síria com a devolução parcial das Colinas de Golã aos sírios. Erdogan era um dos mediadores, na época.
O problema é que, ao que parece, Olmert teria dito que preferia outro mediador. Além disso, meses depois, Israel e o Hamas entraram em conflito. Erdogan teria se sentido duplamente traído por Israel. Foi preterido como mediador e não foi avisado ou consultado antes da “Operação Chumbo Fundido”.
A resposta de Erdogan foram 13 anos de hostilidade em relação a Israel. Mas o mundo dá voltas. De um país que parecia estar em alta como uma potência regional e mundial, a Turquia enfrentou, nos últimos anos, crise após crise. Erdogan enfrenta dificuldades internas e externas para se manter no poder. O que fazer, então?
A resposta, na cabeça de Erdogan, pode ser mudar os rumos da diplomacia turca. Israel pode ser a chave. Melhorando o relacionamento com Israel, a Turquia pode apelar para a boa-vontade dos Estados Unidos e dos novos parceiros de Israel no Oriente Médio e Norte da África: Emirados Árabes, Bahrein e Marrocos. Com os Acordos de Abraão, de 2020, Israel se tornou uma espécie de estrela em ascensão na geopolítica local, que se divide, hoje, entre países pró e anti-Irã.
Fora isso, Erdogan vê Israel como chave para problemas financeiros. Ele quer forjar uma parceria com Israel para a venda de gás israelense para a Europa através do solo turco. A guerra na Ucrânia é mais uma prova de que a Turquia, com ajuda de Israel, pode tomar o lugar da Rússia no fornecimento de gás para a Europa.
“Eles (os turcos) gostariam de uma troca imediata de embaixadores, eles gostariam de uma decisão de que Israel exportaria gás para a Europa através da Turquia, eles gostariam de uma discussão aprofundada sobre suas relações com o Egito – ou talvez o triângulo, Egito, Israel e Turquia. Eles gostariam de discutir a situação na Líbia, gostariam de discutir a situação na Síria”, explica Alon Liel. “Os turcos querem tudo isso”.
Mas a questão que surge é: como reagirá Erdogan se Israel e Gaza voltarem a se enfrentar? E se houver outra intifada palestina? Será que o sultão turco decidirá voltar a ser o defensor mundial dos palestinos? Em suma: é possível confiar no líder em Ancara? Muita gente aqui acha que a resposta é “não”. Os mais otimistas, no entanto, apostam em “talvez”. O tempo dirá.
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