VÍDEO DO HAMAS COM REFÉM ISRAELENSE CAUSA COMOÇÃO, MAS NÃO AÇÃO
28 jun 22

VÍDEO DO HAMAS COM REFÉM ISRAELENSE CAUSA COMOÇÃO, MAS NÃO AÇÃO

Daniela Kresch

TEL AVIV – O grupo terrorista Hamas, da Faixa de Gaza, publicou nesta terça-feira (28 de junho) um vídeo mostrando o cidadão israelense Hisham al-Sayed, um refém mantido em cativeiro há sete anos, em condições médicas precárias, deitado com uma máscara de oxigênio. O vídeo deve ter sido filmado em 21 de junho, porque dá para ver uma TV atrás do refém transmitindo uma conferência internacional que aconteceu naquele dia.

Al-Sayed, um beduíno muçulmano israelense, atravessou a Faixa de Gaza voluntariamente em 2015. Sua família diz que ele sofre de doença mental. “Esta é a primeira vez que vejo seu rosto em sete anos”, disse o pai do refém, Sha’aban al-Sayed, à imprensa local.

Um dia antes da divulgação do vídeo, o Hamas já havia emitido um comunicado afirmando que “a saúde de um dos prisioneiros israelenses se deteriorou”. O Hamas mantém dois civis israelenses como reféns (Hisham al-Sayed e Avera Mangistu), além dos corpos de dois soldados israelenses (Oron Shaul e Hadar Goldin), ambos mortos durante o conflito de 2014 entre Israel e Gaza.

Há anos, o Hamas tenta realizar uma troca de prisioneiros (vivos ou mortos) com Israel. A ambição do grupo terrorista que comanda Gaza com mão-de-ferro desde 2007 e prega a destruição de Israel é conseguir um bom preço pelos reféns. Gostaria de repetir a “vitória” de 2011, quando conseguiu trocar o soldado israelense Gilad (pronuncia-se Guilad) Shalit por 1.027 presos palestinos e árabes-israelenses que cumpriam penas em cadeias israelenses – a maioria por terrorismo.

Talvez por isso – ou por ignorância – o Hamas tenha identificado Hisham al-Sayed como “soldado” israelense, apesar de o refém ser um civil. O grupo também identifica o segundo refém que mantém com vida, Avera Mangistu, como soldado. Mas Mangistu, no cativeiro desde 2014, é um israelense de origem etíope, também é civil e sofre de problemas mentais.

“Hisham al-Sayed não é um soldado, mas um cidadão israelense mentalmente doente que cruzou a fronteira para a Faixa de Gaza”, esclareceu o gabinete do primeiro-ministro em comunicado.

O atual primeiro-ministro de Israel (desde 1° de julho) e ex-ministro das Relações Exteriores, Yair Lapid, disse que a divulgação do vídeo é prova de que o Hamas era “uma organização terrorista abominável”. “Israel considera o Hamas diretamente responsável pela situação dos civis que detém em violação do direito internacional. São dois doentes mentais e mantê-los em cativeiro por anos é um ato de crueldade inconcebível”, disse Lapid.

Israel negocia sim – através dos egípcios – a devolução dos civis e dos corpos dos soldados. Mas as conversas estão estagnadas porque o máximo que Israel aceita dar não chega perto do mínimo que o Hamas aceita receber.

O que o Hamas não parece entender é que Israel não está no mesmo momento que estava em 2011, quando a campanha para a libertação de Gilad Shalit estava no auge. Shalit foi sequestrado em 2006 por militantes do Hamas na fronteira com Gaza por meio de um túnel subterrâneo clandestino. Sua família deslanchou uma campanha que conquistou os corações dos israelenses e pressionou o governo do então premiê Benjamin Netanyahu a libertá-lo a todo custo.

Além disso, Shalit era realmente um soldado capturado em meio a seu serviço militar. Um dos lemas do exército israelense é “não deixar soldados para trás”. É quase como um pacto nacional: os jovens se alistam (é obrigatório), mas sabem que o governo fará de tudo para salvá-los em casos como esse. Se Shalit não voltasse, esse pacto estaria em perigo e a motivação dos jovens para se alistar cairia ainda mais do já caiu nas últimas décadas.

Mas Israel não é a mesma de 2011. A troca de Shalit por milhares de presos “com sangue nas mãos” foi criticada por alguns, na época, e hoje há muitos que creditam a essa negociação o fortalecimento e ousadia do Hamas. Não é por menos: o grupo terrorista parece ter “aprendido” que basta sequestrar um soldado (ou um civil taxado de soldado) para libertar palestinos de cadeias israelenses. Esse “poder” fortaleceu o Hamas aos olhos dos palestinos – que consideram os presos como heróis. Além disso, muitos dos libertados estão, hoje, na direção do Hamas em Gaza, com o próprio Yahya Sinwar, líder do grupo atualmente.

Os israelenses entenderam isso e não há clima, no país, para aprovar mais uma troca como a do caso Shalit. As duas famílias dos soldados mortos (Shaul e Goldin) tentam, há anos, sensibilizar o público israelense para pressionar o governo a uma troca de prisioneiros pelos corpos de seus entes queridos. Mas não conseguem mobilizar a sociedade a aprovar uma negociação com o Hamas por cadáveres. (Aliás, alguns presos palestinos parecem acreditar que Shaul e Goldin estão vivos, ou pelo menos um deles, porque o Hamas insiste em criar fake news quanto a isso para iludir esses presos e suas famílias a achar que serão libertados em breve).

No caso dos civis vivos, a situação das famílias é ainda pior. Hisham al-Sayed é um beduíno com problemas mentais. E Avera Mangistu é um israelense-africano também com problemas mentais. Verdade seja dita: os dois não fazem exatamente parte da elite sabra judaica do país. Não há mobilização nacional pela libertação em troca de milhares de palestinos, apesar de haver sim um clima de preocupação e tristeza geral.

Em suma, a situação dos reféns em Gaza é terrível. Eles são peões no jogo do poder do Hamas. E, em Israel, o caso Shalit criou uma situação em que trocas de prisioneiros não são mais tão “fáceis”. Uma realidade triste.

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